Herança

Germano Silva doa trabalho de 70 anos à cidade do Porto

Almiro Ferreira e Pedro Simões

Germano Silva entrega ao Arquivo Histórico do Porto espólio recolhido ao longo de sete décadas|

 foto Artur Machado / Global Imagens

Germano Silva entrega ao Arquivo Histórico do Porto espólio recolhido ao longo de sete décadas|

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Germano Silva entrega ao Arquivo Histórico do Porto espólio recolhido ao longo de sete décadas|

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Germano Silva entrega ao Arquivo Histórico do Porto espólio recolhido ao longo de sete décadas|

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Germano Silva entrega ao Arquivo Histórico do Porto espólio recolhido ao longo de sete décadas|

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Estudioso dos recantos tripeiros oferece centenas de documentos históricos ao arquivo municipal da Casa do Infante.

"Dez metros lineares de prateleiras" é a unidade de medida para calcular o espólio que Germano Silva doa ao Arquivo Histórico Municipal do Porto. A bitola é só material, porque o outro cálculo, agora intangível, há de ser achado pelas gerações que herdam o vasto acervo do jornalista e historiador da cidade. "Um orgulho muito grande, pela partilha e pela reciprocidade", afirma o grande repórter, que fez carreira no "Jornal de Notícias".

Mais de 70 anos de busca e de recolha de documentação relacionada com a história da cidade ficará à custódia da Casa do Infante. A coleção é constituída por documentos muito ricos, raros, únicos, até. São livros, apontamentos manuscritos, monografias, atas, faturas de instituições públicas e privadas, cartazes e recortes de jornais e tantos outros testemunhos históricos, alguns a remeter ao século XVIII e outros, ainda mais, relacionados com os episódios e com as narrativas das lutas em que o Porto da tradição liberal se envolveu já no século XIX.

Partilha

"Há 70 anos - conta Germano Silva -, comecei a frequentar os alfarrabistas, os antiquários, a ir a leilões, para ver as coisas. À medida das minhas possibilidades, fui comprando documentos que diziam respeito ao Porto, muita documentação, papéis, faturas, a que naquela altura ninguém ligava, mas que hoje são importantes. E cheguei à conclusão que tinha um grande acervo, muitos documentos, alguns originais, muito interessantes, e que era a altura de colocar tudo isto à disposição dos "historiosos" e dos estudiosos da cidade."

Da lista de centenas de documentos que recolheu e colecionou ao longo de décadas e que agora oferece à cidade, o bibliógrafo não destaca nenhum em particular. A avaliação ficará para o decurso do tempo.

"O importante é este sentimento de partilha, para que historiadores, estudiosos e curiosos possam consultar estes documentos, que são importantes para a história da cidade", sublinha Germano.

"Já tinha oferecido muita documentação e muitos livros à biblioteca de Penafiel, a minha terra natal, que muito considero como tal. Agora, esta coleção é para o Porto", acrescenta este decano do jornalismo, de 89 anos (completa 90 a 13 de outubro), como quem retribui a adoção tripeira. "Considero-me muito gratificado pelo reconhecimento do meu trabalho. Isso deixa-me muito honrado", confessa o veterano repórter, que colabora com o JN, em crónicas do Porto de antanho.

E tudo começou, precisamente, por "deformação profissional". "Naquele tempo, em 1956, quando era um incipiente aprendiz de repórter, um velho chefe de redação, um desses velhos mestres, que era o António Brochado, chamou-me e disse-me: tu vais trabalhar ali no "dia-a-dia", mas só serás um bom repórter do Porto se conheceres a cidade", relembra Germano Silva, que convida os portuenses "a conhecer, a amar e a usufruir da história da cidade".

Um livro aberto, uma enciclopédia do Porto, como o descrevem. O escritor Francisco José Viegas quase leva tudo à letra: "Uma pessoa está com o Germano e apetece folheá-lo", descreve o autor de "A luz de Pequim", em entrevista ao JN e a propósito da obra que recupera as aventuras do inspetor Jaime Ramos. Entre a ficção nas ruelas do Porto nuclear, a realidade ancorou-se também na figura do jornalista e historiador Germano Silva, a passear com Jaime Ramos pela cidade, pela Rua das Flores, a subir até S. Lázaro. Participar como personagem em livros de ficção nem sequer é notícia para o jornalista do Porto. Outros autores, como Richard Zimler, Germano Almeida e Alberto S. Santos já imprimiram a figura do repórter nas páginas de diversos romances. Para o próprio Germano, a honra pessoal é o menos importante: "Acima de tudo, o que mais interessa é que a cidade do Porto esteja cada vez mais representado na literatura. E é isso que me agrada tanto", concluiu.

Homenagem

O espólio que Germano Silva doa ao Arquivo Histórico Municipal do Porto há de também entrar na exposição que assinalará o 90.º aniversário do jornalista e historiador da cidade. O dia da festa é a 13 de outubro próximo.

A cidade na palma das mãos

"Há muitas coisas ainda desconhecidas" na história do Porto, diz Germano. Mas poucos conhecem tão bem a cidade como ele, entre as vielas e as ilhas que calcorreia e por onde guia caminhantes ávidos dos recantos dos tempos.

As ruas num mapa mental

A cada esquina de cada artéria do Porto, a cada placa, uma ou muitas histórias que Germano conhece como poucos. Não fosse o jornalista e historiador também membro da Comissão de Toponímia da Câmara Municipal do Porto.

Pedagogia

Com as crónicas "À Descoberta do Porto", publicadas no JN, o jornalista deu "um sentido pedagógico" à investigação. "Para que as pessoas que viviam numa determinada rua soubessem que a rua tinha uma história e para que passassem a estimá-la mais", assinala.

Honoris causa

Alfarrabistas, antiquários, leilões de velharias fazem parte dos roteiros quotidianos de Germano Silva, sempre em busca dos tesouros mais recônditos da cidade. Foi assim que o jornalista também conciliou a carreira de jornalista com a do historiador, doutor honoris causa pela Universidade do Porto.

Esperou pisar o Porto para aprender a andar

Escrever sobre o Germano Silva é, como sempre comentamos um com o outro e em público, escrever sobre um irmão mais velho (razoavelmente mais velho, dizem os documentos, que não a forma física). É escrever, mesmo que só nas entrelinhas, sobre uma amizade que se fez e faz fora do JN, onde convivemos há três décadas. Ou seja, resulta fatalmente em coisa pouco isenta, piegas até.

Para lhe traçar o perfil, há sempre a possibilidade do registo burocrático. António Germano Silva nasceu em 13 de outubro de 1931, em São Martinho de Recezinhos, concelho de Penafiel, sendo o mais velho de quatro irmãos, dois rapazes e tantas outras raparigas... Não chega.

Passemos ao segundo nascimento do Germano, ao mudar-se com os pais para o Porto ainda antes de dar os primeiros passos, guardados os tinha para o chão firme da cidade que ama. No Porto sempre viveu, trabalhou, aprendeu, ensinou quem o lê e quem o ouve. No Porto, onde ficou e foi pai, é reconhecido e estimado em toda a parte, e a Universidade do Porto fez dele doutor "honoris causa". Não seria o destino mais previsível de um menino nascido na família sustentada a custo por Manuel Pereira da Silva e Maria Helena da Silva, ele guarda-freios da Companhia de Carris de Ferro do Porto, ela prestadora de serviço doméstico em casas ricas. Gente humilde que habitou os mais típicos bairros operários portuenses, as ilhas, em especial no Bairro do Cruzinho, ao Campo Alegre: aí se fez homem e aprendeu as mais castiças tradições da cidade.

Não foi um intelectual precoce (nem é um intelectual, respiremos de alívio). Mal teve idade para trabalhar, rapaz que não pôde ser menino, fez-se marçano numa retrosaria. Mais espigadote, trabalhou em fábricas que já não existem. A páginas tantas, quis alargar horizontes, e um amigo levou-o a frequentar um núcleo da Juventude Operária Católica, onde as leituras se tornaram mais estimulantes. Para mudar de vida, fez, à noite, o curso comercial da Escola Oliveira Martins, que lhe garantiu emprego "limpo" numa secretaria do Hospital de Santo António. Aí contactava com repórteres que iam à cata de casos do dia, em especial Sérgio de Andrade, que veio a ser, muito depois, diretor do JN, e que lhe abriu as portas do nosso jornal, como colaborador desportivo, em 1956. Fez-se jornalista na tarimba e, por impulso de um chefe de então, António Brochado, começou a querer saber mais e mais sobre a cidade do Porto. Até hoje.

Reformado e em vésperas de perfazer 90 anos de idade, o Germano que vem semanalmente à Redação, com a sua página "À descoberta do Porto", é o mesmo de sempre. Amigo bem-disposto, bom camarada, sempre pronto a ajudar, ligado a todas as gerações. É o Germano. A enciclopédia viva do Porto cuja geografia afetiva é, também, uma improbabilidade: já foi 15 vezes à China, mas nunca pôs os pés no Algarve.