Metro do Porto

Moradores da Marechal Gomes da Costa contestam metrobus

Adriana Castro

Moradores da Avenida Marechal Gomes da Costa dizem que não foram ouvidos a propósito do metrobus

Foto André Rolo / Global Imagens

Alguns moradores da Avenida do Marechal Gomes da Costa, no Porto, teceram várias críticas ao projeto de metrobus que irá atravessar aquela artéria, no percurso desde a Avenida da Boavista até à Praça do Império. O desagrado foi demonstrado esta terça-feira, durante a apresentação e debate sobre o projeto. A sessão, na sede da Ordem dos Arquitetos, foi conduzida pelo presidente da Metro do Porto, Tiago Braga, que respondeu às questões colocadas.

Choveram críticas, ao final da tarde desta terça-feira, ao projeto de metrobus lançado pela Metro do Porto, que circulará entre a Avenida da Boavista e a Praça do Império. O projeto, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), recebeu um envelope financeiro de 66 milhões de euros. Os autocarros a hidrogénio, operados pela STCP, circularão também até Matosinhos e as obras devem arrancar entre julho e agosto deste ano. Os moradores da Avenida do Marechal Gomes da Costa, onde serão instaladas três paragens, queixam-se de não terem sido ouvidos e há até mesmo quem diga que não quer o transporte.

Entre a construção de uma rotunda "detestável", que fará a ligação entre a Avenida da Boavista e a do Marechal Gomes da Costa, há quem considere que o metrobus "não faz qualquer sentido" naquela artéria, já que "os autocarros passam ali às moscas".

Uma das vozes que ecoou na sala foi a de Daniel Brás Marques. Para o jurista de 49 anos e morador na Marechal Gomes da Costa, este projeto "altera toda a razão de ser" da Metro do Porto: o transporte ferroviário. O portuense, que garantiu que os moradores não foram ouvidos, pediu também um estudo de impacto no trânsito com a implementação do metrobus na artéria e alertou para o facto de que o Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) tem de pronunciar-se sobre a obra.

Tiago Braga respondeu: "O IPPAR tem que se pronunciar sobre a Marechal como tem de pronunciar-se sobre um conjunto de outros investimentos. A tutela é da Câmara do Porto. Outra coisa completamente diferente é em espaços que estão classificados, o IPPAR ter de pronunciar-se. No caso concreto, estamos a fazer uma intervenção que, dada a sua natureza, não tem sequer avaliação de impacte ambiental porque nós não estamos a construir uma via nova. São intervenções que se fazem a cada dez ou 15 anos: fresam o piso, levantam e pavimentam-no".

"Se a vontade dos moradores for a de não querer o BRT porque não precisa, a Metro prescinde do canal?", questionou outro morador, para quem "um autocarro com 18 metros de comprimento numa avenida daquelas é um exagero".

"Desafios que nos devem mover a todos"

"A consulta pública não é auscultar, um a um, cada cidadão. A consulta pública faz-se de acordo com as regras instituídas e auscultando aquilo que são os representantes legitimados da cidade. Todos nós almejamos ter o melhor à nossa porta e o pior à porta dos outros. Esta é uma forma que eu julgo não fazer muito sentido numa sociedade que se quer coesa, solidária e com desafios que, claramente, ultrapassam a origem, a classe, a raça. São desafios que nos devem mover a todos no sentido de termos uma Área Metropolitana mais sustentável ambientalmente, mais coesa do ponto de vista social e mais competitiva", considerou Tiago Braga, presidente do Conselho de Administração da Metro do Porto.

O responsável admite que "possa haver uma ou outra pessoa que não concorde com um ou outro projeto, mas projetos desta dimensão não podem ficar dependentes de uma, duas ou três pessoas".

"Houve um trabalho desde início, desde a conceção, desde a determinação da solução, com a Câmara do Porto, que teve até um papel fundamental na própria escolha da solução. Houve um conjunto de reuniões antes desta fase e, agora, já mais posteriormente, com a própria Junta de Freguesia e também com uma associação de moradores do Bairro da Marechal, que recebemos na Metro do Porto e demos conta daquilo que era o processo", clarificou Tiago Braga.

O metrobus sairá da Avenida da Boavista com dois destinos à escolha: Praça do Império ou Praça da Cidade do Salvador (rotunda da Anémona). O trajeto até à Praça do Império passará pela Avenida Marechal Gomes da Costa e, para fazer a ligação à Avenida da Boavista, será construída uma rotunda. Para isso, será necessário cortar árvores.

"Só vamos cortar árvores no arranque da Marechal para colocação da própria estrutura da rotunda e porque temos, verdadeiramente, de alargar para as três faixas para garantir os movimentos todos. No resto, não abatemos árvores. Aliás, no final, o saldo será muitíssimo positivo", assegurou o administrador da Metro do Porto.

Se o destino for a Praça da Cidade do Salvador, os autocarros seguirão pela Avenida da Boavista, onde já existe um canal dedicado aos autocarros. No troço da Avenida mais junto ao Castelo do Queijo, o corredor central está a ser utilizado para correr e andar de bicicleta. Aliás, para um dos críticos presentes na sessão desta terça-feira, um metrobus naquela zona "é uma machadada na tentativa de se criar uma ciclovia".

"O sistema funcionará como um Y. No tronco comum, há 12 passagens [veículos] por hora e sentido. Depois, a partir da estação do Pinheiro Manso, em direção ao Império, passa para seis - um veículo a cada dez minutos -, e até à Anémona são oito por hora e sentido", explicou Tiago Braga, dando nota de que o sistema, em rede, será capaz de gerar 19 mil validações diárias anuais.

O objetivo é que a obra esteja concluída até 31 de dezembro de 2023 para que comece a operar no primeiro trimestre de 2024.

Potencial ligação à Circunvalação

A primeira estação do trajeto até à Praça do Império ou à rotunda da Anémona ficará em frente à Casa da Música, na Avenida da Boavista. Inicialmente, previa-se a criação de duas estações na própria rotunda, mas isso "ia levar a um aumento de atravessamentos na rotunda e, por outro lado, o facto de os veículos pararem na rotunda iria provocar problemas do ponto de vista da própria frequência", esclareceu o presidente da Metro do Porto.

Com a extensão do metrobus, pela Avenida da Boavista, até à rotunda da Anémona, e face à proximidade da estação de metro de Matosinhos/Sul, houve também quem levantasse a questão da necessidade de reposição do elétrico. "A pedonalização é um aspeto fundamental da mobilidade. Os planos de mobilidade têm como elemento fundamental a pedonalização das cidades", afirmou Tiago Braga aos jornalistas. Já durante a sessão o administrador tinha admitido ter algumas dúvidas se o regresso do elétrico seria o modelo mais adequado.

"Aquilo que percebemos é que aquela localização tem um potencial grande, desde logo pela questão da própria Circunvalação, das linhas da STCP que lá circulam, não impedindo a mudança de linha em Matosinhos/Sul. O sistema de Metro do Porto tem estado em crescimento há 20 anos. Esta é a configuração que nos propomos fazer até 2023", concluiu. O administrador deu nota, durante a sessão de apresentação, que com este projeto, há "expectativa" de criar condições para que o projeto metropolitano para a Estrada da Circunvalação avance.