Noite

Portuenses foram à Câmara protestar contra o "botellón"

Alfredo Teixeira

Moradores descreveram sofrimento com o barulho da "movida" do Porto

Foto Igor Martins / Global Imagens

Munícipes confrontaram Rui Moreira e os vereadores com o facto de não conseguem dormir nas suas casas devido ao consumo de bebidas alcoólicas e droga na via pública até altas horas da madrugada, conhecido como "botellón".

Maria Graziela, Maria Celeste, Agostinho, Sofia e Emanuel são munícipes do Porto que têm em comum o facto de serem vítimas da movida portuense que se intensificou após o estado de confinamento, com a venda e consumo de bebidas alcoólicas diretamente para a rua. Falam em noites sem dormir, "de domingo a domingo", devido ao ruído e à musica tocada em potentes colunas de som mesmo por baixo das janelas e das varandas de suas casas. Esta manhã, na reunião do executivo, descreveram "esse sofrimento" diário e a falta de fiscalização. A autarquia, que está a rever a lei da movida, diz que pouco pode fazer e Rui Moreira aconselhou os queixosos a fazerem uma petição e a enviar os protestos ao Parlamento.

Maria Celeste reside na Travessa do Carmo e cuida da mãe idosa. Durante o dia ausenta-se para fora do Porto, de comboio, para dar aulas. À noite, como professora, tem testes e trabalhos para corrigir. "É difícil porque o barulho é ensurdecedor. Ainda aguento até às duas da manhã, hora de fecho dos restaurantes, mas depois há o consumo em plena via pública", conta

A falta de descanso é visível no rosto da professora. Maria Celeste fala do mesmo. Vive na zona pedonal da Rua dos Mártires da Liberdade e, desde 2011, que as suas noites "passaram a ser um inferno". Os responsáveis pela restauração avisam os clientes quando fecham e é nessa altura que "toda a gente entra para adquirir álcool para o resto da noite".

Nos relatos há ainda a denúncia de particulares que adquirem durante o dia bebidas alcoólicas nos supermercados para depois aparecerem nestas movimentadas artérias. "Basta abrirem as malas dos carros e a venda de bebidas é realizada na rua". Ainda recentemente, a Polícia Municipal e a PSP, numa ação conjunta, apreenderam 35 colunas de som que estariam a ser usadas na via pública por notívagos.

Uma "economia paralela" criada pelas medidas restritivas da pandemia e para as quais Rui Moreira diz não ter solução. A Câmara do Porto pretende rever o regulamento da movida, numa tentativa de travar o fenómeno do botellón e controlar a venda de bebidas ao postigo e o ruído em período noturno. Recorde-se que, já na reunião do executivo de 8 de novembro, Rui Moreira foi interpelado por duas moradoras que, embora o policiamento tivesse sido intensificado, consideravam ser necessário fazer mais e que deveria ser a Câmara a tomar medidas.

Também Sofia fez o mesmo esta manhã e acusou mesmo a autarquia de ser "conivente com a situação". Rui Moreira respondeu que "somos todos coniventes por permitir uma lei que dá direito às pessoas de fazerem ruído e de retirarem o direito ao silêncio dos moradores". Para o autarca, o problema reside numa legislação "que permite o consumo de álcool e droga na via pública". Emanuel e Agostinho perante os vereadores e presidente engrossaram a voz dos protestos de uma situação que afeta gente de todas as idades.