Porto

Rui Moreira tem dúvidas se nova ponte do Metro do Porto "é necessária"

Adriana Castro

Rui Moreira numa visita às obras da nova Linha Rosa do Metro do Porto

Foto Estela Silva/lusa

O presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, admitiu, esta segunda-feira à noite, ter dúvidas em relação à construção da nova ponte do metro, entre Gaia e o Porto, no âmbito do projeto da linha Rubi. Em resposta ao deputado da CDU, Rui Sá, o autarca afirmou: "Para que fique claro: não era ali que eu fazia a ponte. Não fazia a ponte com aquela altura. E até lhe digo mais: tenho dúvidas se a ponte é necessária". Por sua vez, o autarca de Gaia não comenta.

Sobre se aquela é a melhor localização para a nova travessia do metro, Rui Moreira reafirmou: "Já disse repetidamente que acho que não". O presidente da Câmara do Porto respondia às considerações feitas pelo deputado da CDU, Rui Sá, que no ponto de apreciação da atividade do Município da Assembleia Municipal do Porto desta segunda-feira, disse "que no Porto brinca-se às pontes". O eleito pela CDU começou o seu discurso com um pedido: "saber quantos milhares de euros já gastou a Câmara numa ponte que foi apresentada em 2018". Isto porque, referiu, depois de terem sido feitos estudos sobre a construção, à cota baixa, da ponte D. António Francisco dos Santos para retirar o trânsito automóvel do tabuleiro inferior da Ponte Luís I, "a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) veio dizer que a ponte devia ser mais alta".

"E agora somos surpreendidos e, se calhar, a ponte do TGV vai incluir um tabuleiro rodoviário que substitui a outra ponte que tinha sido apresentada numa cerimónia de grande emoção pelos senhores presidentes da Câmara e de Gaia", constatou Rui Sá, observando que "do ponto de vista do planeamento urbano, de facto, ninguém se entende".

A solução está a ser estudada pela Infraestruturas de Portugal (IP) e as Câmaras do Porto e de Gaia, sendo que esta quarta-feira o primeiro-ministro António Costa e o ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, apresentarão, em Campanhã, a nova linha de alta velocidade entre o Porto e Lisboa.

Mais acrescentou Rui Sá: "Já que andamos a brincar às pontes, talvez convenha que a ponte do metro na zona do Campo Alegre, - já que dá para interromper esta [a ponte D. António Francisco dos Santos] e deitar ao caixote do lixo tantos milhares de euros que já se gastaram -, seja recolocada no sítio para onde estava prevista no Plano Diretor Municipal (PDM) de 2006". "De facto, em investimentos estruturais, ninguém se entende. Hoje diz-se uma coisa e amanhã o seu contrário e andamos aqui todos contentes e a gastar dinheiros públicos nesta matéria", concluiu, aproveitando também para referir a discussão do metrobus, que "era para ser no Campo Alegre, saiu e foi para a Boavista. Depois, sobra dinheiro e já vai até à Anémona".

"Temos de saber exatamente o que é que se pretende fazer do ponto de vista do planeamento urbano e que não se altere a situação a cada semestre", considerou Rui Sá.

Moreira tem dúvidas mas presidente da Câmara de Gaia não comenta

"Em primeiro lugar", referiu o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, em resposta ao deputado da CDU, "o Estado tem, nesta matéria de obra pública, a prerrogativa. O Estado não precisa de ter PDM, não precisa sequer de olhar para o PDM para fazer as obras que entende".

"Relativamente à ponte do metro, não me pergunte se acho que aquela é a melhor localização ou a melhor bitola ou a melhor altura. Já disse repetidamente que acho que não", reafirmou Rui Moreira, recordando a "discussão pública" que decorreu no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, com a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto "e muitos outros interessados".

"Para que fique claro: não era ali que eu fazia a ponte. Não fazia a ponte com aquela altura. E até lhe digo mais: tenho dúvidas se a ponte é necessária", admitiu o autarca portuense.

Contactada pelo JN, a Câmara de Gaia deu nota de que o autarca Eduardo Vítor Rodrigues, "hoje não comentará este assunto", mas Tiago Braga, presidente da Metro do Porto, questionado pelo JN, observa que, no que toca ao debate em torno do projeto, a empresa "fez questão de abrir a decisão à comunidade, discutindo amplamente com as autarquias e com a universidade, e convidando para o júri do concurso a Ordem dos Arquitetos, dos Engenheiros, alguns dos maiores especialistas internacionais neste tipo de obras de arte, bem como representantes das câmaras do Porto e Gaia"

Mais acrescenta que "o estudo de impacto ambiental da linha Rubi, incluindo naturalmente a ponte, foi apresentado pela Metro à Agência Portuguesa do Ambiente e entrará brevemente em fase de discussão pública".

Além disso, "a Metro espera ter todas as condições para até ao final deste ano lançar o concurso público internacional para a empreitada desta nova linha, ponte incluída", num investimento de 299 milhões de euros, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e que obriga à conclusão da obra em 2025.

"Se nada surgir em contrário", ponte rodoviária "será construída"

Sobre a ponte D. António Francisco dos Santos, Rui Moreira recordou que "depois de muitas dificuldades, nomeadamente a mudança de posição da APA, fomos obrigados a refazer estudos. Neste momento, o concurso de conceção-construção [da travessia] está a decorrer e espera-se a receção de propostas até meados de outubro". Por isso, reforçou, "se nada surgir em contrário, naturalmente que a ponte será construída".

Moreira referiu que a construção de uma ponte gémea à ponte de São João prevista inicialmente para a ferrovia não pode, afinal, avançar, uma vez que a infraestrutura "tem de ter fundações próprias e poderia correr o risco de desamarrar as fundações da ponte atual".

"Sendo assim, disse-nos a IP, que também atendendo à vontade da Câmara de Gaia, tem de afastar do lado gaiense a entrada na ponte para montante. Caso contrário, vai passar em cima de casas. Ou seja, estamos a falar de uma ponte [ferroviária] que será convergente com a de São João", clarificou o presidente da Câmara do Porto. O feixe existente em Campanhã será alargado, explicou Rui Moreira, observando que a entrada da alta velocidade naquela freguesia, cujo traçado deverá seguir até ao aeroporto é "muito importante em termos de planeamento da cidade".

"O que nós não estamos é a brincar às pontes. Se o Estado nos propuser construir uma ponte em dois tabuleiros, eu acho que é bom negócio. Pelo menos não é mau. O que seria mau era ignorarmos uma obra do Estado, fazermos a ponte, e dizermos que a pontezinha é nossa", acrescentou.

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