Cultura

Ateneu Comercial do Porto abre à cidade 153 anos de história

Ateneu Comercial do Porto abre à cidade 153 anos de história

Exposição do veterinário e fotógrafo Jorge Bacelar descerra o clube exclusivo e socialmente restrito. Espólio valioso para restaurar e partilhar com a cidade e com o mundo.

O Ateneu Comercial do Porto é multissecular, com alicerces em três séculos. Chega-nos com o vigor que o tempo deixa e também exige. E também com o encargo de sempre, o de "promover e de cimentar relações de benevolência e boa sociedade entre os pares", os empregados do comércio que o fundaram, em agosto de 1869, e que sempre o dirigiram como clube privado e até bastante restrito. Decorridos estes 153 anos, a instituição abre as portas à cidade, a começar já pela exposição do veterinário e fotógrafo Jorge Bacelar, a inaugurar este sábado, pela 18 horas, no edifício do n.º 44 da Rua de Passos Manuel.

Com "Ruralidades", agora na exposição em grande formato das fotografias que ilustram o livro homónimo do fotógrafo da Murtosa, o Ateneu redescobre-se e divulga-se nos valores que o fundaram, como sociedade lúdica e recreativa, dos saraus, dos bailes, das letras e das artes. "Vamos abrir as portas à cidade e mostrar-lhe o nosso património cultural, que a grande maioria dos portuenses não conhece", resume Rogério Gomes, presidente da Direção.

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Esta abertura há de continuar já nos próximos tempos e, sobretudo, na semana que antecederá o sábado de 12 de março, quando se assinalarem os 450 anos sobre a primeira edição de "Os Lusíadas", da qual o Ateneu guarda um exemplar. A efeméride será igualmente marcada pela realização de colóquios.

Provas da história e a primeira edição de "Os Lusíadas"

Precisamente, uma das vedetas destes simpósios deverá ser uma das mais recentes descobertas dos trabalhos que estão em curso para catalogação de documentos manuscritos do arquivo histórico da casa. Trata-se de uma ata de 3 de fevereiro de 1904, na qual se regista a compra da obra de Camões editada em 1572. Custou 170 escudos, "170 mil réis".

"Aos preços da época, dava para a entrada de um carro, que andava à volta de mil escudos", conta Francisco Correia. Este reformado da Biblioteca Nacional felicita-se com "as provas da História" e colabora, em parceria com o historiador Manuel Sousa, no trabalho de catalogação do riquíssimo espólio do Ateneu, no qual se destacam os 60 mil livros contados na biblioteca.

Este vasto património cultural é também o próprio testemunho de uma sociedade lúdica e recreativa, um espaço de liberdade, reservado aos sócios, de acesso reservado. "Aqui não entrava a PIDE", observa Rogério Gomes, a congratular-se por esse espaço de pluralidade, em tempos frequentado por grandes vultos das letras, das artes, das ciências. Também dos negócios e da política.

Rivalidades e duelos de intelectuais

Desses tempos de grande fervor intelectual sobra outra recente descoberta nos arquivos do Ateneu, que dá conta de uma carta de Jorge de Sena, datada de 1954, e dirigida ao júri do 1.º Prémio Literário de Poesia do Ateneu, atribuído a Miguel Torga. Aquele poeta, dramaturgo e ensaísta lisboeta (1919-1978) não escondeu o desconforto pela eleição do émulo transmontano de S. Martinho de Anta (1907-1995) e ainda mais por este "se ter feito difícil" na hora de receber o galardão.

"Se não queria o prémio, que não concorresse", queixou-se Jorge de Sena na carta dirigida ao júri, no qual, entre outros vultos da cultura, pontificava Vitorino Nemésio.

No mesmo documento, regista-se que concorreram 140 poetas, Além dos já citados, estavam nomeados, entre outros, Adolfo Casais Monteiro,, Pedro Homem de Mello, Sophia de Mello Breyner e um jovem de 18 anos, Ary dos Santos.

O prémio tinha o valor de seis contos (seis mil escudos). Naquela época, "com esse dinheiro, comprava-se um prédio de três andares", observa Francisco Correia.

Projeto turístico

Estas e tantas outras histórias que o Ateneu recupera nos arquivos hão de ser selecionadas para percursos guiados entre o património histórico e cultural da instituição. A Direção conta realizar um projeto de visitas turísticas ainda este ano, que ajude a compor as contas da casa.

"Temos um orçamento de 120 mil euros por anos. Com cinco funcionários, luz e água para pagar, é muito limitado. Temos cerca de 300 sócios, que tem uma cota anual de 200 euros, e equilibramo-nos com o aluguer de espaços e com as receitas do restaurante. Mas, com a pandemia, também essas receitas foram afetadas. Não sobra nada para o que é urgente, que é fazer obras de restauro", observa Rogério Gomes.

Para a desejada diversificação das fontes de receita muito poderá contribuir a abertura das portas do Ateneu aos turistas. O preço a cobrar pelo circuito ainda está a ser ponderado. Mas há também que ponderar os investimentos necessários para a criação destes roteiros pelo património histórico e cultural da instituição.

Interesse público

Para já, a curto/médio prazo, o Ateneu tem outro projeto em mente: habilitar o edifício à classificação de interesse público e obter apoios para os desejados "restauros urgentes".

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