Porto

Catarina foi mantida viva para dar vida ao bebé Salvador

Catarina foi mantida viva para dar vida ao bebé Salvador

Catarina esteve ligada a um suporte artificial de vida até a gestação chegar às 32 semanas. A cesariana foi feita esta quinta-feira.

Uma mulher, de 26 anos, foi mantida num estado de morte cerebral e à espera de chegar às 32 semanas de gravidez para que o bebé nascesse em segurança, no Hospital de S. João, no Porto. A cesariana foi realizada esta quinta-feira de madrugada. Catarina Sequeira sofreu um ataque de asma quando estava grávida de 12 semanas e este é um caso raro em Portugal de um bebé que cresce no ventre de uma mãe em morte cerebral.

"Tem sido bastante desgastante para todos nós, porque não conseguimos fazer o luto. Espero que tudo isto termine para se fechar um capítulo nas nossas vidas e se abrir um novo", afirmou ao JN - ainda antes do nascimento - a mãe de Catarina Sequeira, que gostava de ficar com a guarda do neto, que se chamará Salvador.

A decisão de prolongar a gestação partiu de Maria de Fátima Branco. "Não foi uma gravidez desejada, mas ela acabou por a aceitar e andava feliz. Sempre falou em ir para a faculdade e viajar antes de ser mãe. Mas aconteceu assim", diz a mãe, que nunca pensou que "o processo fosse tão moroso".

Catarina teve um ataque de asma às 12 semanas que a atirou para um coma induzido no Hospital de Santos Silva, em Gaia. Pouco depois, entrava em coma profundo e a morte cerebral aconteceu a 26 de dezembro, às 19 semanas de gravidez.

A comissão de ética teve de se pronunciar para que o prolongamento da gestação fosse aceite e, como em Gaia não havia cuidados intensivos urgentes, o corpo foi levado para o S. João, onde se encontrava ligado artificialmente. Catarina tem um irmão gémeo, o António, para quem não tem sido fácil gerir os sentimentos gerados por toda situação. Quem o conta é o irmão mais novo, João Sequeira, de 22 anos. "Eles estavam os dois juntos quando ela teve o ataque. Nunca mais recuperou", explica o jovem que nestes três meses apenas por duas vezes viu a irmã no hospital. "Não consigo vê-la ali deitada de olhos fechados!", confessou ao JN à porta da casa da família, no Bairro Social da Marroca, em Crestuma, Gaia.

Viável a partir das 24 semanas

Um bebé que nasça antes das 37 semanas de gestação será sempre prematuro. "Mas a viabilidade mínima é de 24 semanas. Este caso, com 32 semanas tem mais do que viabilidade, desde que a situação de morte cerebral esteja controlada", explicou ao JN o obstetra Luís Graça. "Vamos esperar. Está tudo previsto para que o bebé nasça sexta-feira, altura das 32 semanas", referia no início da semana Maria de Fátima que visitava a filha regularmente assim como Bruno, o companheiro de Catarina, que "tem sido excecional e um pai excelente".

Catarina começou a sofrer de asma aos 13 anos, assim que chegou à adolescência. "Teve crises que passavam com algumas idas ao hospital", recorda a avó de Salvador. Era praticante de canoagem e o irmão António sempre a acompanhou. O Hospital de S. João recusa comentar o caso e só prestará esclarecimentos após o nascimento do bebé.