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São Pedro da Cova

Cem anos de um bairro "esquecido" no tempo

Cem anos de um bairro "esquecido" no tempo

Bairro Mineiro, em S. Pedro da Cova, Gondomar, foi construído para os operários das minas de carvão. Hoje, os moradores queixam-se da falta de investimento na preservação da história.

"Estamos aqui completamente esquecidos. Há muito que isto deixou de ser o Bairro Mineiro". Nascida e criada ali, em S. Pedro da Cova, Gondomar, e descendente de mulheres que gastaram as mãos nas minas de carvão, Fátima Vieira não esconde o desalento. O Bairro Mineiro, construído pela Companhia das Minas de Carvão de São Pedro da Cova em 1920, está a comemorar cem anos, mas o sentimento não é de festa. Muitos moradores acreditam que a zona perdeu o propósito, que foi descaracterizada, e que, há 20 anos, foi transformada em apenas mais um bairro social.

"Não há espírito de comunidade, a Câmara não faz nada para manter a história, ninguém quer saber. Somos desprezados", insiste Fátima, de 50 anos.

É domingo de manhã e, nas ruas, poucas pessoas se veem. Um grupo de jovens com olhar desconfiado segue atentamente os dois estranhos [jornalistas] que entram na Associação Desportiva de Vila Verde, onde o sentimento de abandono é comum. "Não há nada que nos lembre as pessoas que viveram aqui, que trabalharam nas minas, que lembre toda a história de luta", sublinha Tiago Giesta, 33 anos, que preside à agremiação. O responsável critica aquilo que considera ser a "inação" da Câmara. "Não há nem uma rotunda alusiva à memória dos mineiros, ou qualquer coisa que relembre os moradores da importância do bairro", acrescenta Tiago.

"Más decisões"

De facto, diz ao JN Pedro Miguel Vieira, presidente da Junta de São Pedro da Cova, o Bairro Mineiro ficou descaracterizado há 20 anos. "Estamos a viver as consequências de más decisões. Na altura, não houve consciência de que a intervenção para recuperar as casas poderia descaracterizar a zona", salienta.

Há cem anos, as casas foram construídas em fileiras, feitas de xisto ou blocos de cinza de carvão e não tinham abastecimento próprio de água. O único propósito era dar um teto ao grande número de pessoas que se deslocou em massa na expectativa de ali encontrar trabalho na exploração mineira. No seu auge, teve 300 casas. Em 1997, as habitações foram demolidas, para dar lugar a casas mais modernas. Hoje, com 404 fogos e duas mil pessoas, a maioria descendente de mineiros, "é o maior dos quatro conjuntos habitacionais" de S. Pedro da Cova.

Mas com o passar do tempo o espírito foi-se diluindo. "Claro que naquele tempo não era melhor. O que as pessoas tentam dizer é que havia mais solidariedade, mais comunhão. Um sentimento de pertença que ainda resiste", sublinha o presidente da Junta. Pedro Vieira concorda que a zona "carece de políticas municipais" e destaca que é "necessário outro acompanhamento e investimento na cultura e nas pessoas".

"Tem tido importante apoio"

Marco Martins, presidente da Câmara de Gondomar, não concorda. "O lugar está descaracterizado, mas é um projeto que tem tido um importante apoio da Câmara", afirma o autarca, lembrando que foi instalada uma creche e um espaço para o pré-escolar e que está, em fase de concurso, o projeto para a construção de um parque urbano.

Esse projeto, diz Joaquim Bola, morador, "está para acontecer há anos". "Nem por termos um museu e recebermos turistas eles melhoram a zona!", contesta.

A construção do novo bairro previa a requalificação de várias zonas, construção de infraestrutura e ainda a criação de um ecomuseu, através da musealização do antigo complexo mineiro e preservação de património mineiro espalhado pela freguesia. A parte museológica ainda está por executar.

"Somos muito desprezados. Já não há quase nenhum mineiro para contar a história e, com o que foi feito aqui, tornou-se em apenas mais um bairro social", critica José Oliveira, nascido e criado ali. "Não há nem uma estátua e o museu existe porque a junta tem lutado para manter a nossa história", destaca.

Por toda a freguesia, resistirão, apenas, 40 antigos trabalhadores das minas. No Bairro Mineiro luta-se pela preservação da memória.

Saneamento chegou às casas da Bela Vista

Foi só neste ano que o saneamento básico chegou a cerca de 600 casas da encosta da Bela Vista, em São Pedro da Cova. Muitas destas habitações foram construídas na década de 70, depois do encerramento das minas de carvão, que agravou o problema de habitação. O investimento da Câmara na instalação de saneamento rondou os 3 milhões de euros.

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