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Cortejo da Queima do Porto põe 50 mil na rua

Cortejo da Queima do Porto põe 50 mil na rua

Cortejo da Queima das Fitas do Porto levou 50 mil pessoas à Baixa. Carros alegóricos espelharam queixas da crise e do futuro dos "canudos". Veteranos acusam Universidade do Porto de esquecer estudantes no aniversário dos 100 anos.

Bomba-se, bebe-se, anda-se por ali abaixo e acima a perder e reencontrar amigos, a segurar com custo cartolas, fitas, faixas e bengalas, sua-se muito debaixo do preto traje de feltro da tradição. E canta-se a plenos pulmões: "Nós vamos cantar a maré do mijão/A nossa vida é a nossa tradição". Ou, num refrão muito mais directo em direcção à esperança e ao radioso futuro: "E esta merda é toda nossa/Olé, Olé!".

Continua iconoclasta como sempre, blasfemo e pagão, o cortejo da Queima das Fitas do Porto, o maior da tradição académica portuguesa e que fez desaguar mais de 50 mil pessoas, entre formandos e os seus familiares, com carros alegóricos de 24 faculdades, ontem, na Baixa do Porto.

É muita cantoria, com coro popular e hino de ir ao Dragão, é muita pimenta na palavra, "Caloiros, doutores/cheios de tesão/Defendemos com a vida/ O nosso S. João", como cantam as desbragadas caloiras de Medicina.

O Cortejo da Queima, que põe estudantes em efervescente folia uma semana muito comprida e que antecede a crua chamada aos exames que há-de vir a seguir, certa como a ressaca e a branqueada luz da manhã, serve para exorcizar o presente e lançar queixas públicas contra o futuro.

O carro vermelho dos engenheiros da FEUP traz umas tantas, estampadas de lado, directas para que todos saibam o que aí vem: "Também eu fiquei sem bolsa..." ou "Vendo diploma" num desenho com um sem-abrigo, ou ainda um estudante com a cabeça no cepo e a negra veste da morte, armada de grande foice, à espera de o decepar.

É negra e crua a Queima, com milhares de estudantes trajados de preto, mas ao mesmo tempo corusca, é colorida, amarela de Dentária, vermelha de Economia, tijolo a Engenharia, roxa a Farmácia, laranja a Psicologia, numa detonação de cores que se mistura com o andar do dia e cair da noite.

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Ao longo de mais de seis horas, os 24 carros com as suas alegorias (14 são da UP, os outros do Politécnico) deslizaram paralelo abaixo, do Palácio de Cristal ao Aliados, sempre a descer, passando pelo jardim de sombras verdes da Cordoaria e dos homens que riem de Munõz, a correr Clérigos abaixo, a brindar à torre, todos a tirar fotografias, todos amigos, todos abraços, e fazem "ahhh", "ehhh", "uhhh" e cantam e bebem e entornam (cerveja, vodka-fanta, Porto com espuma) sem parar.

O desfile é barulhento, cacofónico, demora. Pára e arranca, sempre nisso, o carros não correm, queima-se a paciência e a embraiagem, exaspera-se quem vê ali posto no passeio, pescoço esticado, mão a fazer pala ao sol, à espreita do próximo carro que ainda não se vê.

Mas um cortejo só tem graça para quem vai lá dentro, no meio do turbilhão, aos tombos, a fazer parte daquele corpo que se estende, imenso como a serpente, às cores, a cambalear, todos a abrir o refrão que se repete.

O cortejo vai todo, trôpego e lentamente, em direcção à Tribuna que se pôs em frente à Câmara, de costas para Garrett, num palanque toldado com os ilustres camarários, Rui Rio, o presidente, ao centro, a paciente vereação, todos sentados, batem palmas, põem-se a contemplar.

E ficam ali, mais ou menos esverdeados da sombra do toldo, a ver as destrezas dos estudantes, com um "speaker" brasileiro a puxar, em que cada faculdade chega, declama qualquer coisa, faz o truque das bengalas, numa roda alçada e corrida, com "héé" e "hóó", canta o seu coro, abusa, vem aí outra vez o palavrão (eles insistem: "E esta merda é toda nossa/Olé, Olé!") e vai à vida que aí vem o seguinte.

E o seguinte vai repetir os gestos já repetidos, varia o coro e o "Éfe-érre-à" e às vezes também se canta a canção do saltante Dartacão. "Finalista pode tudo", cantam eles, desabridos, a trocar com safadeza o "f" pelo "p", ali nas barbas da Polícia e da política.

De entre as queixas desfiladas, uma provocou estranheza: "Quo Vadis Praxis UP?" ("Para onde vais praxe da UP?"), perguntava uma tarja longa e preta, posta à frente dos políticos. Indagou-se, apareceu e respondeu Américo Martins, o Dux Veteranorum: "É uma directa para o reitor, o engenheiro Marques dos Santos. A Universidade faz 100 anos e ele esqueceu-se de nós. Há todo o tipo de convidados, até o Cavaco, mas onde estão os estudantes na celebração?".

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