Integração

Estudantes ajudam sem esperar nada em troca

Estudantes ajudam sem esperar nada em troca

"Quando soube que podia ajudar uma criança, nem hesitei". Ana Duarte, aluna de Engenharia e Gestão Industrial na Faculdade de Engenharia, recorda como se tornou uma das voluntárias da Universidade do Porto. "Há muito tempo que tinha interesse em fazer uma atividade, mas nunca surgiu a oportunidade".

No total, são cerca de dois mil estudantes que, divididos pelos diferentes projetos, prestam apoio a instituições da Área Metropolitana do Porto. Os universitários chegam às associações que mais necessitam de ajuda através dos serviços da Reitoria da Universidade do Porto (UP). Apoiam crianças, idosos e participam em projetos ligados a animais e natureza.

Seja para ocupar os tempos livres ou para completar a bagagem de experiências vividas na universidade são diversos os motivos que levam um estudante a inscrever-se numa ação de voluntariado. "Dá-me oportunidade de conhecer outras realidades totalmente diferentes, que não só a Medicina e os estudos", explica Francisca Albuquerque, voluntária da iniciativa "VO.U. Pirueta".

Voluntariado estudantil

"Acabei por adotar mais um irmão"

Sara, Daniel e Abdulla estão sentados nas cadeiras da biblioteca, com os braços sobre a mesa a apoiar as cabeças, com um olho nos livros e outro na câmara. Preparam-se para mais uma sessão de explicações na Escola Básica 2,3 Augusto Gil, no centro do Porto.

Durante uma hora, os alunos são acompanhados pelos voluntários tutores Ana, João e Inês que os ajudam a superar as dificuldades que sentem na escola. O teste de português está próximo e também por isso ninguém arreda pé da biblioteca. Nem a noite, que já entra pela janela, os arranca da sessão que dura sempre para além dos 60 minutos estipulados para a explicação.

Sara Cunha tem 15 anos e é aluna do 9.º ano. Começou a ter acompanhamento para subir as notas negativas que foi tendo durante o primeiro período. "Os professores falam a matéria um bocadinho rápido e não compreendo bem", explica.

O projeto "Voluntariado Estudantil" começou em 2008, para combater o abandono e o insucesso escolar nas escolas mais problemáticas da Invicta. Todas as semanas, Ana, João e Inês trabalham com os jovens para que resolvam os problemas que sentem nos bancos da escola. Um primeiro passo que facilita a integração.

Mais do que acompanhar apenas os estudos, tutores e alunos criam laços de amizade. "Acho que a Sara se sente mais à-vontade comigo para fazer perguntas", explica Ana Duarte. A adolescente confirma que prefere questionar a "irmã mais velha": "Gosto mais de perguntar à Ana... tenho medo que ao perguntar ao professor e os meus colegas gozem comigo". Uma opinião partilhada pelo colega Daniel Carvalho, com quem divide a secretária e as dúvidas.

"Com dois irmãos em casa, habituei-me a dar aquelas pequenas explicações e acabei por vir para aqui adotar mais um irmão", conta João Duarte, estudante do primeiro ano do curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação.

Abdulla All Wachi tem 15 anos e chegou do Bangladesh há um ano e meio. "Ainda não percebo muito bem português e há algumas coisas que não entendo nas aulas", lamenta. A tarefa de Inês Ceia, 20 anos, é, por isso, mais complexa. "É um desafio diferente, mas também é muito interessante para aplicar os meus conhecimentos", comenta a estudante do 3.º ano de Línguas Aplicadas na Faculdade de Letras.

José Castro Lopes, pró-reitor da Universidade do Porto e responsável pelos projetos de voluntariado, constata que "há uma melhoria significativa no aproveitamento dos estudantes" acompanhados pelo Voluntariado Estudantil.

VO.U PELOS ANIMAIS

"Estar aqui ajuda-me a crescer como pessoa"

No Cantinho do Tareco, na Maia, o dia vai longo e nem a chuva impede a equipa de voluntários de tratar dos cerca de 75 gatos. Limpar, dar atenção aos animais, fazer limpezas dos abrigos e melhorar espaços são as principais tarefas dos cerca de 60 voluntários.

A associação "VO.U pelos animais" nasceu há nove anos para dar resposta às problemáticas das associações de defesa animal. Marta Marmelo tem 20 anos e começou a aventura no semestre passado. A estudante de Biologia na Faculdade de Ciências é uma eterna apaixonada pelos animais e viu na iniciativa uma forma de crescer.

"Sempre gostei muito de animais e queria ajudar os que não têm um dono. Estar aqui é uma experiência muito importante que me ajuda a crescer como pessoa", confessa.

Além das tarefas diárias, são realizadas formações em escolas sobre vários temas relacionados com animais. Os voluntários podem ajudar quatro associações espalhadas pelo Grande Porto que visitam em diferentes horários. As inscrições reabrem em fevereiro.

vo.u pirueta

"Venho pelo convívio e pela música"

O palco está pronto para os 20 idosos do Centro Social das Antas, no Porto, que protagonizam a sessão do VO.U Pirueta. Francisca Albuquerque é recebida com carinho e a cumplicidade com os "alunos" é notória. O grupo prepara-se para mais uma aula de dança: os passos, acessórios e até a plateia estão a postos.

As lições de dança, que começaram há cerca de um ano e meio, estão inseridas no projeto "VO.U Pirueta" e pretendem proporcionar aos idosos e às crianças um momento diferente de convívio. Com apenas uma hora semanal, os voluntários procuram mudar o dia a dia dos utentes do Centro Social das Antas e das crianças das diversas instituições que participam no projeto.

Eduarda Silva, 68 anos, é uma apaixonada pela dança e não perde uma aula. "Faz-me muito bem. Até em casa gosto de dançar", conta. Já Manuel Luís, de 77 anos, é novo por estas andanças. Começou em agosto, mas prefere ficar a assistir. "Venho pelo convívio e porque gosto muito de música", explica.

Os passos de dança são preparadas em casa, nos tempos livres, pelas voluntárias Francisca Albuquerque e Mariana Patrício, ambas estudantes da Faculdade de Medicina. "Apesar de virmos poucas vezes, é gratificante sentirmos que os idosos gostam e se sentem bem", conta Francisca, garantindo que as melhorias nos idosos são evidentes.

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