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A inércia da droga no Aleixo e os sonhos sem viver

A inércia da droga no Aleixo e os sonhos sem viver

Lua é o mais velho consumidor do bairro, dorme ali e não vai parar. Mil acabou de chegar e pasmou-se, nunca viu uma coisa assim. Lua "trabalha" no bairro e pergunta numa alegoria com pássaros "e nós, nós onde é que vamos parar?". Consumidores em derrocada num bairro do Porto que se vai extinguir.

A primeira vez que se experimenta droga é como receber de presente um abismo, primeiro pasma e é uma maravilha de olhar mas depois suga para sempre quem cair na sua escuridão.

Ali encalham todas as histórias e o Lua - ele não se chama Lua, escolheu esse nome para eclipsar o seu - está a nadar entre o lixo porque caiu quando vinha a andar e espalhou-se com o saco de plástico preto das suas tralhas pelo chão esburacado da rua. Foi assim de repente, tropeçou e caiu. Depois ele levanta-se a mastigar maledicências, recolhe o saco sem se sacudir e está a tratar com desonra alguém enquanto olha por cima do ombro e se põe novamente a andar. E durante um segundo ou dois aquilo foi cómico porque o Lua, depois de se espalhar de bruços, mexeu os braços e as pernas de uma maneira que parecia que ia desatar a nadar ou pelos menos foi isso que pareceu ao QI.

"Tu viste aquilo?, parecia que ele ia mergulhar ou a fazer como aqueles rappers que parecem peixes a dançar de barriga no chão, como é que se chama aquilo, foi cómico", diz o QI a mexer com a ponta de um canivete em duas pedras de crack que tem na palma da mão.

QI também não é evidentemente o seu nome, são duas letras juntas de que ele gosta e que formam um apelido oculto. Um drogado nunca quer aparecer explicitamente e ali há dezenas a entrar e a sair do bairro. Mas há um lote que permanece como um manto, que está sempre ali, serão entre 60 a 80 pessoas, velhos devoradores de heroína, crack e cocaína, as drogas do pódio, muitos são sem-abrigo, a maioria são policonsumidores, usam duas ou mais substâncias e rejeitam todos os tratamentos. Cerca de um terço desses consumidores pernoita no bairro que está em desagregação, mas que para eles é um paraíso porque não há bairro assim igual.

Bairro de capital parado

O Aleixo é um bairro municipal de 62 mil metros quadrados numa zona residencial do Porto ocidental constituído há 42 anos por cinco torres de 65 apartamentos, é foz de rio com vistas altas para a Ponte da Arrábida e a Afurada do outro lado. O bairro está encravado numa ferradura de ruas em que todas as casas dos condomínios à volta são mais caras do que as casas do bairro. Este é o exemplo mais recente: no cruzamento da rua do Ouro com a rua da Mocidade da Arrábida, uma das três entradas do Aleixo, está a nascer um novo prédio de 14 apartamentos que estará concluído em 2019; o mais barato, um T2, custará 485 mil euros, e os mais caros, penthouse duplex com piscina já estão à venda por 1,5 milhões. Todas as habitações têm vista desobstruída de rio.

Mas a predação imobiliária não é o maior problema: o bairro está há dez anos metido num plano público-privado de evacuação dos moradores, restam agora 270, e realojamento noutros bairros sociais da cidade. Depois virá o novo plano de demolição das três torres restantes (duas foram já demolidas na presidência de Rui Rio, em 2011 e 2013) e só depois se procederá, ainda sem data, à nova construção de blocos de apartamentos de luxo para venda. Essa operação está a cargo de um Fundo Especial de Investimento Imobiliário constituído por quatro acionistas com partes de capital mais ou menos iguais, num total de seis mil euros: a construtora Mota Engil, o empresário e ex-jogador de futebol António Oliveira, uma empresa participada pelo ex-Banco Espírito Santo e ainda a própria Câmara do Porto. O Fundo é gerido pela Invesurb, mas a entidade gestora vai mudar para a Fund Box, que no mês passado apresentou garantia bancária e aguarda agora ratificação da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários, a entidade que supervisiona e regula os mercados e agentes de instrumentos financeiros.

A falta de capital, que atrasa o desenlace do bairro e desespera os 270 moradores, põe a nu uma realidade social mais grave: o caso de saúde pública e degradação biopsicossocial dos consumidores de droga que transformaram todo o bairro na sua sala de chuto particular.

"Tenho telhados a cair na cabeça", diz QI

QI está no alto do morro encostado à Arrábida onde garatujam muitos consumidores, uns fumam outros injetam, o ambiente é tranquilo, quase caloroso, e dorme por ali há uns dias. Tem a sua tendinha de campismo montada debaixo dos grandes carvalhos e plátanos, o caminho desenhado com pedrinhas, parece um microcondomínio a fingir, dois pregos numa árvore com roupa pendurada e outra embrulhada no chão, um poster nu de uma mulher loira surrada bastante explícita pregada noutra árvore, uma bicicleta desgastada no descanso ao lado.

"E nós, nós para onde vamos quando toda a gente sair daqui?", pergunta o QI inclinado para a nuvem de fumo quase invisível que se levanta da pasta escura e oleosa que escorre no retângulo de papel de prata de cozinha que ele usa para fumar cocaína, dando-lhe lume por baixo com o isqueiro, sugando o fumo por um tubinho de metal.

Tem 43 anos, QI, mas parece mais velho, com riachos de rugas na cara e tem um olho semifechado. Tem uma tatuagem no braço esquerdo que diz "não tenho tudo o que amo mas amo tudo o que tenho". Ele conta que saiu o mês passado do hospital onde entrou para tratar do olho, "agora não vejo desta vista ou vejo muito mal, vejo muita brancura" e diz "estou outra vez perdido, estou outra vez aqui, para onde hei de ir eu?".

Já foi padeiro, já foi militar, já trabalhou avulso nas obras, QI, "e já estive sete anos inteiros seguidos sem consumir. Foi dos 34 aos 41 anos, foi quando fui dentro, estive preso em Custoias, foi num assalto que correu mal, houve agressão, fui dentro. Mas fiquei sempre sem consumir, sete anos" - continua ele. "Lá dentro é fácil é arranjar droga, é mais fácil até que cá fora, mas para isso tens que ter dinheiro e eu não tinha", diz QI para depois dizer com orgulho que se limpou. "Três meses depois de ter entrado caí em mim, não tinha droga, arranjei outro vício. E o meu vício era o desporto, fazia desporto todo o dia, sempre a encher, fiquei com um bom físico". Mas agora, e QI já está a preparar outra dose, agora de heroína, tem duas agulhas de seringa na mão, "agora é outra vez isto, parece que tenho telhados sempre a cair em cima de mim, é isto a droga, tomas droga para isso parar".

Mas esse delírio nunca pára, é a inércia, sabe o QI, velho consumidor - "acho que sou o mais antigo daqui do Aleixo, tenho 25 anos de bairro, se não sou eu é o Bananeiro, mas até acho que sou mesmo eu" - e ele conclui a preparação do caldo e da seringa e agora procura uma veia boa para injetar. "Sinto-me ourado da cabeça, não estou bem", diz o QI a espetar a agulha e continua a falar baixinho, como quem reza sozinho, "há três dias que não consigo comer. No sábado ainda comi um Nestum com leite frio, mas desde aí mais nada, não consigo comer, sinto-me sem forças e só me apetece consumir".

Os junkies em derrocada

Em frente ao morro do QI é o descampado vazio das duas torres demolidas e debaixo das árvores e das suas sombras picotadas, junto à parte de trás da Torre 3 há um pequeno jardim circular com paredes em granito de onde entram e saem os junkies injetores de heroína. São os junkies em derrocada, encurvados à procura de veias para impregnar, vergados a abrir os dedos dos pés, contorcidos até ao pescoço, é uma imagem que ninguém quer ver, junkies furados que sangram silenciosamente em esgares. E ficam ali a injetar-se nos ponteiros das agulhas, há horas, todas as horas, a confabular furores.

É outro dia, outra tarde de outubro de sol. Há sempre gente a passar enviesada, apressada, os olhos vidrados, caminham como os "walkers" da série de TV, lentos e indecisos com o olhar e a cara vazios a vaguear. E olhar dali é ver o apocalipse privado de cada um a deflagrar repetidamente. Dali de cima vê-se o descampado onde passam os junkies e o escombro do campo onde havia a escola, agora cheio de ervas e muros fanados com o chão cheio do lixo dos kits de consumo deles.

Eles juntam-se ali aos grupinhos, junkies aninhados de cócoras, dois ou três, ou então sozinhos, todos inclinados sobre a tarefa que têm nas mãos, dois com cachimbos, outro com prata, há sempre um que perdeu ou finge que perdeu a pedra de crack que ia fumar e desespera-se a perscrutar o chão, a revirar as pedrinhas brancas de calcário que encontra que são parecidas com as pedras de crack, desespera-se mais ou finge que se está a desesperar e há sempre outro junkie que partilha. "Obrigado irmão", um junkie nunca julga moralmente outro junkie sobre a necessidade de consumir e isso irmana-os imediatamente. "Amanhã posso ser eu a perder a minha dose", diz o que lhe deu uma lasquinha afiada de crack na ponta do canivete, "obrigado irmão, safaste-me", e os dois depois entregam-se aos gestos estudados de fumar.

Um usa a prata e a prata é para a cocaína fumada. Deita-se o pó numa folha de prata de cozinha, dá-se lume por baixo com um isqueiro até o pó se dissolver numa pasta caramelada escura, levanta-se à altura da cara e asperge-se o fumo branco que se ergue na fervura através de um tubinho geralmente de metal. A dose mais pequena do produto custa 5 euros, assim como o produto a seguir.

O crack fumado é consumido em cachimbo também de metal e normalmente são eles que fazem os seus próprios cachimbos, com um tubo ligado ao recipiente em forma de caneco; esta parte é envolvida em prata para não permitir a fuga do ar, faz-se uns furinhos por cima, cobre-se de cinza de cigarro para o produto não cair em vão, põe-se a pedra de crack e aquece-se diretamente com isqueiro enquanto se asperge ao mesmo tempo. Fumar a base de pasta de cocaína que é o crack dá um efeito até três vezes mais forte e mais rápido do que cheirar diretamente o pó branco; esse efeito também passará três vezes mais rápido, por isso é que os adictos do crack estão constantemente a fumar.

A droga não desaparece, só muda de sítio

O Lua volta a passar, está sempre ali, vem de cabeça no ar, desempoado, cortou o cabelo, ficou fanado de um lado - "fui eu que cortei", diz ele a menear -, anda sempre com o saco de plástico das suas cenas, cenas que tenta vender, autorrádios usados, seis chávenas intactas de café, binóculos de criança, uma coleção colorida de isqueiros, tralha indiferenciada que lhe rende os trocos para trocar por uma dose. Também ele dorme às vezes ali pelo Aleixo, o Lua, encostado aos cantos escuros ou num piso devoluto de uma das três torres, ou dorme na casa abandonada de portões verdes que fica em frente à esquina do McDonalds da Avenida da Boavista, "não sou o único, estão agora a dormir lá mais três, é abrigado, não chove, é bom porque agora o frio está a chegar".

É capeador, o Lua, faz este mês de novembro 42 anos de idade, começou no haxixe aos 13, provou cocaína aos 16, heroína aos 17 - "mas só fumada, não gosto de injetar, provei uma vez e não gostei, enjoei" -, ficou agarrado desde aí. É um capeador, ajuda nas transacções de rua no bairro, é um angariador de clientes. Ele explica com lucidez: "Se formos a ver, o capeador é um colaborador do vendedor e dos seus interesses, que é despachar droga. Também avisa quando vem a polícia, basta gritar "água!" e toda a gente já sabe o que aí vem".

Lua, que prefere "trabalhar" no Aleixo porque diz que ali se paga mais e a droga é melhor, às vezes recebe o pagamento em produto porque tem dias em que gastaria 200 ou 300 euros a consumir. Ele é só uma peça na engrenagem da burocracia da rua onde há papeis sociais para preencher, ainda mais no Aleixo, um bairro pobre que condenaram à extinção e há muito foi abandonado pelo Estado e pelo seu papel de zelador. "Mas ninguém faz nada por nós, só nos querem enxotar", diz o Lua, "de tempos a tempos vem a Polícia Municipal e os lixeiros e levam as barracas e as nossas cenas. Não há respeito nenhum, às vezes até nos tentam bater". E também ele pergunta: "E quando os moradores saírem todos, nós também vamos ter que sair daqui?".

É uma pergunta retórica, ele sabe, é ele que diz: "A droga, sabemos todos não sou só eu, nunca desaparece, a droga só muda de lugar".

E depois o Lua usa uma alegoria para explicar melhor o que vai acontecer: "Se tu tens passarinhos pousados numa árvore e alguém se põe a abanar a árvore o que é que fazem os passarinhos? Não desaparecem, pois não, vão é pousar numa árvore que não se mexa e que lhes agrade mais".

As três entradas e a violência sensorial

O Bairro do Aleixo por onde se derramam os junkies dia e noite a repetir sem parar tem três entradas. Duas por baixo pela marginal do rio que são duas afluentes da Rua do Ouro, e uma por cima pelo Campo Alegre, logo a seguir ao último campus residencial da Universidade do Porto.

Quem vier por baixo deixando nas costas o Cais do Ouro e o vaporeto que sai cheio de turistas para os grelhados da Afurada, sobe a Calçada do Ouro e essa rua transforma-se na Rua do Aleixo na parte onde Siza Vieira e Souto Mouro têm os seus ateliers de arquitetura e onde às vezes vão desenhar nos guardanapos na esplanada do Café do Amadeu, que é logo abaixo. Continuando a subir, com o muro granítico e os ferros de brasão do condomínio fechado Douro Villa à esquerda, mete para a Rua de Carvalho Barbosa, o poeta que enalteceu o Porto nos anos 40 e fez teatro social com Arnaldo Leite, que dá nome à rua de baixo - é uma escolha curiosa: dois nomes da bravata regional portuense escolhidos para nomear o infame bairro social. A partir dessa entrada, passando a esquina da mercearia do Silvério, passa-se entre a Torre 3 e a Torre 2, percorre-se o bairro para a direita onde está de um lado o pequeno morro do QI e no sopé o escombro da antiga escola e do café Caetano, e do outro lado vê-se o vazio das Torres 4 e 5 e sobre ele crescem ervas e lixos nocivos indiscriminados. Este é o pátio preferido dos consumidores.

A rua vai terminar fazendo a forma de um ponto de interrogação no ponto onde começa o asfalto da Rua da Mocidade da Arrábida. É aqui a outra entrada, ou saída, na esquina com a Rua do Ouro onde se estão a construir os tais T2 a meio milhão.

A entrada de cima, onde também à volta as casas são caras, tem a forma de uma cruz. A Rua da Arrábida que vem a ondular pelas casinhas do morro, há algumas com piscina, outras são modestas, vê-se de cima no Google Maps, conflui do outro lado com a Rua do Progresso, a rua que termina onde começa um condomínio de classe média-alta de cinco blocos com logradouros de jardim e vigilantes de colete no passeio permanentes. As duas ruas encontram-se e apontam para Arnaldo Leite, a rua do dramaturgo das operetas e da galhardia do Porto, camarada do Carvalho

Barbosa bairrista da rua de cima, e que é a rua que aponta, como o vértice de uma cruz quebrada, para a Torre 1 do Aleixo.

Quem descer inopinadamente por ali abaixo, vendo de frente o pátio decrépito de terra da Torre 1, não estará preparado para a violência sensorial do que vai ver: gente dispersa em movimentos ansiosos e letárgicos simultaneamente, gente que anda depressa, gente oculta a entrar e a sair da entrada da torre, gente imparável, é um "andamento" de compassos estranhos, desacertados e dura todo o dia e de noite também.

"Nem na América vi coisa assim", diz o Mil

"Nada, nunca vi uma coisa assim", diz o Mil, um açoriano de 26 anos. "Nunca vi um andamento assim, fiquei varado quando aqui entrei a primeira vez, gente a anunciar às claras, gente a vender, droga agitada na mão, filas de gente a comprar, um corrupio, não queria acreditar, nunca pensei que fosse possível uma coisa assim, nem na América nas piores casas de crack vi uma coisa parecida", diz o Mil sentado de olhos muito abertos. "Eu quase que me mijei a primeira vez que aqui vim", diz uma mulher mais velha sentada ao lado dele, e diz isto a sorrir. "Não sei se foi de medo, de felicidade ou de terror, mas sei que o que senti foi uma coisa que me mexeu toda muito cá por dentro".

O Mil está na parte mais funda do bairro, junto à vedação do antigo terreno devoluto da EDP, abaixo é o rio e a marginal de sol da rua do Ouro e quem passa por cima na Arrábida não os vê. Ali entre a vegetação e o lixo é a salinha de chuto deles.

Estão ali mais cinco, todos juntinhos debaixo de uma rede de arames largos que parecem usar, patuscos, como pára-sol e todos sorriem. Duas mulheres preparam crack em canecos, dois homens levantam à altura do queixo as suas folhas de prata e de cocaína de fumar, aspergindo aos suspiros pelos tubinhos os fumos da pasta que desliza e outro homem está sentado hirto, muito parado, parece gelado, com a fronte em gotículas de suor. É o que acabou de meter heroína e só se volta a mexer daqui a quatro horas. Terá 50 anos como a mulher ao seu lado, a outra tem 60, os dois homens da prata 40 e o açoriano, que já refez o seu cachimbo e continua sentado num banco de carro de corrida esboroado a esbracejar, não se sabe como o cadeirão surreal apareceu e depois desapareceu dali, é o mais novo, tem 26. Compraram o que consumiram ali no bairro, dizem eles, cinco euros o pacote das brancas, 2,5 euros o shot mínimo de heroína.

O Mil está a preparar-se para fumar crack, uma droga aceleradora descoberta na América em meados de 1980 que aproou no boom económico da Europa de 1990 e nunca mais saiu por causa da espectacularidade que provoca. Euforia, excitação, aceleração mental, hiperdefinição sensorial, crença de imortalidade e um sentido de autoconfiança capaz de superar o superlativo narcísico filho de Cefiso e da ninfa Liríope. O Mil explica: "É derivado da potência, crack fumado bate três vezes mais e mais depressa do que a cocaína. É isso", e ele bate com o cachimbo levemente numa pedra onde estendeu previamente uma folha de prata e vai voltar a prepará-lo para fumar. "Claro que a potência depois pára, a moca do crack cai três vezes mais depressa e é isso que te agarra", e aqui ele deixa de sorrir mas só por um breve momento.

"É tudo melhor, parece que vês em HD"

Junkie desde a maioridade, Mil está aqui exilado no Aleixo desde que voltou da América num salto mal calculado de emigração em 2016 e por estes dias ele, que tem família na Maia, dorme nas ruas esboroadas do bairro, debaixo das árvores, amortalhado na sua sombra. Ele prepara-se para ascender na chama, dá-lhe com o lume do isqueiro diretamente na pedra posta no cachimbo, puxa o ar para dentro dos pulmões, retém, retém mais um segundo o peito empolado, e depois solta a baforada de ar de fuminho branco muito brando através dos lábios finos gretados.

Ele está despenteado, tem a roupa da cor das cores encardidas, sapatilhas cambadas, o azul das calças cinzou, mas o que sobressai são os seus olhos: o negrume das pupilas todo dilatado, a radiar pretidão para cima da íris, a cor dos olhos nele quase desapareceu, é só um glóbulo escuro na esclera branca e o seu olhar é irreal.

Fazer o caneco, como ele mostra, é um gesto oblato, cerimonioso, feito com o ritual da fé dos gestos repetidos de olhos fechados e ele explica no que é que dá consumir crack. "Ficas todo desperto, assim cheio de speed, parece que vês em HD, alta definição, pensas melhor, ouves melhor e vês coisas que não estão aqui, como se tivesses visões. E ficas todo confiante, mas mesmo confiante, não estás bem a ver, achas sempre que és melhor do que os outros, que és o maior", diz o açoriano que a seguir vai emprestar o seu cachimbo já feito a outro junkie que acabou de chegar. "Desenrascas-me?", pergunta-lhe impetuoso o outro, ansioso, "perdi o meu cachimbo", as mãos inquietas, um ligeiro tremor, olhos muito decotados, e o açoriano diz-lhe "toma, estás na boa, toma aí". E o outro põe-se logo ali de cócoras e repete no cachimbo emprestado os mesmos gestos cerimoniosos da preparação.

A partilha perigosa de cachimbos

Este é também um problema que prospera ali no Aleixo, onde há ainda muitos injetores de heroína e fumadores de cocaína queimada: a partilha inopinada de cachimbos de crack que passam doenças na transmissão e estarão a multiplicar índices de HIV. Nas seringas de heroína já não há esse problema: boa parte do lixo que infesta todo o bairro vem justamente das centenas de kits de apoio ao consumo salubre, que contêm seringas e parafernália de apoio, mas não cachimbos de inalar.

A perceção de aumento do consumo de crack como droga emergente é confirmada ao JN pela Norte Vida, uma associação para a promoção da saúde cuidadora de consumidores de drogas em situação de precariedade ou rotura, e que há décadas tem técnicos numa carrinha móvel que vai àquele bairro de Lordelo do Ouro e ainda a mais três freguesias do Porto ocidental, Aldoar, Nevogilde e Ramalde. Foi também confirmada pelo SICAD, o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, ex-IDT.

Mas o crescimento do consumo com a emergência do crack não é um problema isolado; o contexto em que ele ocorre no Aleixo é uma catástrofe equitativa: devido à deterioração galopante dos prédios do bairro, ao abandono progressivo do Estado - fechou a escola, o centro de dia, a recolha de lixo e tratamento dos espaços comuns sofre há muito interrupção -, todo esse ambiente ignoscente retém ali os junkies, que fazem do bairro o seu condomínio de chuto a céu aberto. E permanecem de dia e de noite, sucessivamente sem sair do lugar, nas ruas cariadas ou em tendinhas descoradas, num cenário insalubre entre pilhas de lixo orgânico e um mar de plásticos, papéis, dejetos humanos misturados com dejetos de animais, restos de comida cadávera que os atira, aos junkies, para uma grave degradação biopsicossocial que não cessa de prosperar.

Terá sido esta apreensão de um cenário morboso e pestífero, somado ao risco de derrocada das fachada dos prédios que levou o autarca Rui Moreira a assumir a situação de exceção social e a acelerar a saída dos restantes 270 moradores em seis meses, numa anúncio feito no dia 4 de Setembro que se estende até março de 2019.

A situação dos junkies está já debaixo de atenção institucional, motivou estudos de terreno e reuniões entre a Câmara do Porto e a Autoridade Regional de Saúde do Norte, reativando também a discussão sobre as salas de consumo assistido, estando agora a deliberação à espera de decisão maioritária na Assembleia Municipal numa resolução que poderá ser tomada ainda este ano.

Enquanto nada se resolve e o processo demora, eles permanecem, os junkies, parecem personagens empalidecidas do lendário e para sempre perdido capítulo 53 do "Dom Quixote" de Cervantes, um capítulo quimérico, tóxico e com um poder hipnotizador: aprisiona eternamente dentro dos seus sonhos todos aqueles que o ousarem ler. Mas aquilo que o capítulo 53 promete, o sonho totalizante, a alucinação da doçura imortal, é também aquilo que monstruosamente entrega, como a droga: a certeza de que estamos, estivemos e vamos continuar toda a vida a estar só a sonhar sem viver.

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