Encerramento

Livraria histórica do Porto com dias contados

Livraria histórica do Porto com dias contados

Espaço onde está a Sousa & Almeida, na Rua da Fábrica, foi vendido

"Já tenho 89 anos. Não vou começar tudo outra vez, não é?", questiona, retoricamente, Joaquim de Oliveira Almeida. Este mês, o alfarrabista soube que o imóvel na Rua da Fábrica onde há 61 anos abriu a sua livraria foi vendido e o novo senhorio quer que ele abandone o espaço. Será o fim da Livraria Sousa & Almeida, uma das mais antigas e icónicas da Baixa do Porto.

A loja foi vendida aos proprietários do Hotel Infante Sagres, que fica do outro lado do quarteirão. "Querem abrir aqui uma ligação para o hotel", revela o livreiro. As negociações formais ainda não começaram, mas Joaquim já foi informado que querem que saia até novembro. "Que nos vão por fora, isso é uma certeza", garante, enquanto percorre com os olhos as prateleiras cheias de livros que cobrem as paredes. "Temos mais de 20 mil livros. Não sei o que fazer com eles", confessa, com visível tristeza nos olhos.

A Sousa & Almeida abriu as portas em 1956. A sua especialidade sempre foi os livros galegos e portugueses, especialmente os dedicados à África Lusófona. O número 42 da Rua da Fábrica também se tornou paragem obrigatória para quem procura livros com maior pendor local e regional. E ainda hoje fornece regularmente algumas das principais universidade mundiais como Harvard, nos Estados Unidos da América, ou a Universidade de Santiago de Compostela. E o livreiro faz questão de mostrar com orgulho os livros já embalados e prontos para serem despachados pelos correios enquanto enumera destinos.

Turistas pouco compram

"Somos a única que tem livros em galego e temos uma das mais maiores secções dedicadas a África", afirma Joaquim Almeida. O movimento naquela zona tem aumentado exponencialmente com o "boom" turístico mas o negócio da Sousa & Almeida não tem beneficiado muito com isso. "Os turistas não compram praticamente nada. É residual", diz o livreiro. E quanto aos clientes locais, a maioria entra na histórica loja "mais para vender do que para comprar".

"Aqui na livraria sou só eu, a minha esposa, Maria de Fátima Cruz, e a contabilista", diz Joaquim Almeida enquanto passa a mão pelas capas dos livros cuidadosamente empilhados. Algumas, já amareladas e gastas, ostentam as típicas ilustrações a aguarela de um imaginário de tempos passados. Outras, com belas encadernações a couro e letras trabalhadas a dourado, parecem acabadas de sair do prelo. Brevemente, o casal terá de decidir o que fazer com este valioso espólio de mais de 20 mil obras.