Porto

Testemunhos de uma vida no Centro Histórico

Testemunhos de uma vida no Centro Histórico

Manuel Monteiro fará 83 anos em abril, uma vida inteira passada na Sé. "Nasci no Largo da Pena Ventosa, número 27", diz, de chofre.

"Foi recuperada essa casa. Tenho pena de não ir eu para lá", conta, à vinda da farmácia. Que futuro deseja para o Centro Histórico? "Gostava de ver a Sé como há 40 ou mesmo há 20 anos. Eles recuperam, mas tiram as pessoas daqui. Isto antes era gente que parecia formigas. Tínhamos teatro, equipas de futebol, fazia-se tudo. Agora não há nada". Manuel não sofreu ainda pressões para deixar o casco antigo da cidade, mas ouve falar de senhorios que enviam cartas ameaçando os mais velhos de despejo. "Eu recebo 330 euros de reforma. Como é que posso pagar 200 e tal de renda noutro sítio? Morro mais depressa se me tirarem da Sé".v

Salomão Costa e a família são os únicos moradores num prédio que virou Alojamento Local e onde todas as frações foram intervencionadas menos a sua. Estão ali desde 1988 e tiveram de recorrer à Associação dos Inquilinos do Norte de Portugal para se precaver contra um eventual despejo. Foram aconselhados a não assinar um novo contrato. "Ao fim de um ano, podiam criar condições para nós nos irmos embora. Bastava aumentarem a renda", explica o homem que recentemente foi atirado para o desemprego - trabalhou 30 anos na histórica Casa Neves, que fechou no final de janeiro. Adora viver na Reboleira, mas sente falta das conversas à porta, dos miúdos a jogar à bola, dos discos da Amália que a vizinha punha a tocar ao domingo. Até gosta de se cruzar com os turistas mas diz que "o que se passa no Centro Histórico é brutal".v

Artur Gonçalves deixou o Centro Histórico há poucas semanas. Mudou-se para Cedofeita, onde conseguiu uma área mais jeitosa a um preço aceitável. Tem 56 anos, é licenciado em História, trabalhou "37 anos num despachante", hoje está desempregado, viveu entre 1969 e 2014 na Rua de S. João. Pouco antes da morte dos pais, há dois anos, arranjou um espaço só para si na Calçada do Forno Velho. Era provisório mas acabou por durar. "A minha família está cá desde finais do século XVIII. Se pudesse ficava, mas pedem rendas muito altas por coisas muito pequenas. Não é o caso aqui, eu é que preciso de mais espaço. Mas a tendência é empurrar as pessoas. Há 20 anos, na missa na Misericórdia, não havia onde sentar, ficava apertado. Hoje vejo lá 20 ou 25 pessoas"v.

Maria da Glória Bertrand está "há 29 anos nesta casa. Foi a primeira a ser recuperada pela Câmara. Nasci na Rua da Bainharia, 62, mudei-me para o 23 quando casei. Depois houve um incêndio muito grande na Mouzinho da Silveira que apanhou o nosso prédio. Queriam mandar-me para a Mitra, mas eu bati o pé e consegui aqui uma casa. Foi tudo embora, só fiquei eu". O relato é de Maria da Glória Bertrand - ou Lola do Quim do Talho, como é conhecida na Sé -, 52 anos, uma de muitos inquilinos camarários no coração do Centro Histórico. "Para este lado não acontece nada, mas a gente atravessa a rua e aquilo é um mundo", observa, referindo-se à renovação a que assistiram a Mouzinho e a Rua das Flores. A Sé parece estar ainda mais esquecida do que o resto do Zona Histórica, acusam os que ainda lá residem. "É só hostels, hostels, hostels", queixam-se.