Conferência JN/TSF

Não está em causa nova ligação a Gaia, apenas o local e a forma da ponte

Não está em causa nova ligação a Gaia, apenas o local e a forma da ponte

Com o auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, quase cheio, foram expostas várias opiniões sobre a localização, forma e impacto na redução de tráfego que a nova ponte de metro sobre o Douro poderá ter no Porto e em Gaia. O debate fechou a conferência "Margens que se ligam", promovida pelo JN e pela TSF.

O debate, a fechar a conferência, foi moderado por Rafael Barbosa, jornalista e diretor-adjunto do Jornal de Notícias, e iniciou-se com a opinião de Teresa Calix, arquiteta e vice-diretora da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, que considerou que a nova solução não se traduz na mudança de comportamentos que se pretende. "Se já temos uma ponte com não sei quantos mil carros por dia e vamos ter outra ponte ao lado para o metro, não estamos a tirar os carros [que circulam na ponte da Arrábida]", afirmou.

Mais tarde, a fechar a conferência, o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, respondeu: "É evidente que não é pelo facto de se construir uma nova linha que automaticamente a Via de Cintura Interna (VCI) e a Ponte da Arrábida vão perder trânsito. Porque vai continuar a haver um conjunto de pessoas que, pelas suas razões, vão querer chegar à cidade de carro. Só podemos inibir isso depois de criar as alternativas. Há aqui uma razão de tempo".

"A ligação com Gaia nunca foi posta em causa", referiu Teresa Calix. "Estamos concentrados no tema da nova ponte. O objetivo que nos move é como conseguimos fazer esta travessia de modo a que seja mais respeitadora dos valores existentes", clarificou.

Faculdades com "falta de espaço"

Para João Teixeira, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a necessidade de uma linha de metro na zona do Campo Alegre "é indiscutível". No entanto, para o estudante, "não é possível compreender a construção de uma ponte de forma dúbia e irracional". "Nenhuma faculdade nem a Universidade do Porto (UP) foi contactada, mostrando uma grande falta de consideração. Paralelamente, levanta-se uma questão que nos é muito cara: a falta de espaço que existe. O projeto de expansão tem pensado, além de uma cantina, a construção de um auditório", salientou.

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O vereador da Câmara do Porto com os pelouros do Urbanismo, Espaço Público e Habitação, Pedro Baganha, observou que "o Polo 3 da UP foi construído num local não mais indicado, resultando hoje num território que é disforme e disfuncional". "E este é o problema que há a resolver", respondeu, constatando uma "certa mitificação deste território". Rui Moreira partilha da mesma visão: "[o Polo] foi encaixado nuns buracos de um modelo quase de autoestrada".

"Vamos perder património"

Seguiu-se a opinião de Paulo Farinha Marques, arquiteto paisagista da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que descreveu o tema como a promoção da "expansão urbana desordenada". Há, para Paulo Farinha Marques, uma "falácia inicial" no projeto: "andar a pé, sobre o rio Douro, a uma cota de dez metros acima da ponte da Arrábida".

Para o arquiteto, trata-se de uma "intrusão abusiva na cidade", que se pagará "caro". "O que é facto é que vamos perder património", asseverou. Pegando na opinião que o presidente da Câmara do Porto partilhou na abertura da conferência sobre a inevitabilidade da localização da nova travessia perante as imposições do território, Paulo Farinha Marques afirmou que "a Zona Especial de Proteção da Ponte da Arrábida é uma mistificação", dado os "monos" que lá "têm sido feitos".

O docente diz ainda que o projeto passa por ser uma tentativa, "de forma abusiva", de "se obrigar a conviver o metro com os peões e as bicicletas". "Ridículo e pinoquiano", caracteriza. "Acho que é preciso que a ponte encaixe. A ponte tem que encaixar, explorar o túnel e tem de não ser intrusiva. Uma promotora de dignidade e não de apenas de acesso ao shopping [da Arrábida]", reforçou.

Nos últimos minutos da conferência, o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, respondeu: "Em Gaia, ambicionamos por uma ponte para criar uma rede e não um conjunto de antenas. É muito mais do que um acesso ao shopping. Não temos essa visão tão parola como parece que nos querem fazer querer passar. A mobilidade não é um mito".

Também Valentim Miranda, vereador da Câmara de Gaia, com os pelouros do Ambiente Urbano e Espaço Público, foi chamado a intervir: "As cidades são para as pessoas. O princípio é transformar as cidades livres de carros".

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