Integração

O mundo todo cabe no Porto

O mundo todo cabe no Porto

Chegaram à cidade à procura de um rumo para a vida, trazendo na bagagem um punhado de sonhos.

Niubis chegou ao Porto há 10 anos. Natural de Santiago de Cuba, foi de Florianópolis (Brasil) que viajou para a Invicta. Ao colo trazia o filho, Paulo Henrique, então com um ano e meio. No currículo uma licenciatura em Arquitetura e um mestrado e doutoramento em Engenharia Civil. Que de nada valeram quando procurou um emprego e não teve outra alternativa se não trabalhar na cozinha de um restaurante.

"O pai do meu filho recebeu um convite para trabalhar no Porto e achamos que seria um melhor destino para criarmos o nosso filho em segurança", lembrou a cubana. O dia em que aterrou em Portugal ficou gravado na memória: "Foi a 7 de dezembro e chovia muito. Passados sete meses, ainda pensava : "O que é que faço aqui?!"".

Aquele pensamento foi ultrapassado. Ou não fosse Niubis um poço de otimismo. Aliás, das coisas que gosta menos do Porto "é as pessoas queixarem-se muito". Por outro lado, reconhece que a Invicta "é uma cidade muito bonita e acolhedora".

Atualmente, é dona da escola de dança "Porto com Salsa", situada na Rua de João Andresen. Depois de terminado o contrato como investigadora da Universidade do Porto, a cubana fez da salsa o seu modo de vida.

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"Neste espaço é a forma que tenho de ter Cuba, com toda a sua verdade, no Porto". Nos planos de Niubis não há a intenção de regressar ao seu país. "Era preciso mudar muito a mentalidade. De outra forma, continuaria a ser uma vida de muito sacrifício".

Não é que, no Porto, "não o seja". Mas aqui, mesmo que tendo de ultrapassar o frio, a cubana sente-se "em casa".

Há quase 30 anos que Thuy de Oliveira, "por força da vida", vive no Porto. Nunca "quis deixar o Vietname" e daí que tenha feito "um luto" de 21 anos até ter voltado às suas origens. Antes de chegar a Portugal já tinha passado pelas Filipinas, Havai e EUA, como "refugiada da ONU".

Thuy lembra-se que quando chegou ao Porto, para trabalhar como professora de Inglês na Escola Francesa, "não sabia uma palavra de português". "Uma professora fez-me descobrir Sophia de Mello Breyner. Depois, através das letras de fado, foi fácil gostar da língua", contou a vietnamita.

Sendo Thuy uma exímia criadora de chás - abriu em 2009 a Mùy Concept, loja situada no Centro Comercial Bombarda - até hoje recorda-se dos primeiros cheiros que a prenderam ao Porto: "o mar, a laranjeira e o vinho do Porto".

Nessa altura, também já se dedicava à pintura em seda, mas, como confessou, foi "o amor" que a fez ficar. Tanto que assina, com legítimo orgulho, o sobrenome "de Oliveira".

Um olhar mais atento sobre as prateleiras, de onde sobressaem bules, chávenas e chás com nomes sugestivos, como Aniki-Bobó, fica-se a saber que o realizador Manuel de Oliveira era seu sogro. Como forma de o homenagear, Thuy criou uma infusão com o nome da primeira longa-metragem de ficção por ele realizada, feito com "camomila, folha de oliveira e jiuseu". Aos 62 anos, Thuy é ainda presidente da Associação Portugal/Vietname, fomentando o intercâmbio entre os dois países que traz no coração, rematando que o que mais gosta no Porto "é a escala humana". "As pessoas têm tempo para nós e aqui sinto-me realizada", concluiu.

Aldo Salvetti é natural de Veneza (Itália) e mudou-se para a Invicta há 20 anos. Primeiro oboé da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, o italiano recorda-se que o facto do Porto "ter mar", tal como a sua terra natal, foi determinante quando decidiu aceitar o convite para trabalhar na então Orquestra Clássica do Porto.

Nos primeiros tempos na cidade, Aldo ficou na casa de um amigo, "que tinha um jardim com um limoeiro". Curiosamente, a mesma morada, na Baixa, é onde o músico vive atualmente. "Estou enraizado aqui", confessou.

Da urbe "muito fechada e até provinciana", quando chegou há 20 anos, Aldo fala agora do quanto a cidade ganhou com a Casa da Música. "É uma mais-valia, uma grande mudança, um salto para a frente gigantesco. É uma casa aberta e acolhedora", referiu.

Adepto da bicicleta, o italiano considera que ainda há muito trabalho a fazer a nível da "gestão do trânsito". Mas confessa que continua a saber-lhe bem viver numa cidade de "pessoas autênticas".

Foi com a independência das antigas colónias, em África, que tia Orlanda acabou "empurrada" para Portugal. Tinha então 14 anos e veio morar para a zona da Boavista, porque a mãe era enfermeira na Maternidade Júlio Dinis.

Orlanda, que chegou a estudar no antigo liceu Rodrigues de Freitas, já teve várias profissões: "Fiz limpezas, fui costureira, telefonista, jardineira, até que há quatro anos abri o meu negócio".

No restaurante Tia Orlanda, na Rua das Taipas, servem-se sabores de Moçambique, como o caril de frango ou de caranguejo. Quase na porta ao lado, vende artesanato, como as coloridas capulanas. Depois de ter vivido em Sintra, voltou em 2000 ao Porto, porque se "identifica" com a cidade.

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