Reportagem

Os resistentes do karaoke no Porto

Os resistentes do karaoke no Porto

Já foi um fenómeno que movia milhares de pessoas. Atualmente, poucos são os bares onde, de forma permanente, se pode cantar karaoke.

Com o aparecimento de outras formas de diversão, a atividade foi perdendo público. Mas, no centro do Porto, há bares que resistem. O Pixote Bar, no Campo Alegre, e o Trindade Bar, na Rua do Dr. Ricardo Jorge, são dois dos espaços que alimentam, todas as noites, esta "febre".

Também nas romarias o karaoke é sinónimo de festa. Neste caso, ao ar livre e com direito a pé de dança. O palco é de todos, com a voz mais ou menos afinada, com plateia vasta garantida. E ainda há os promotores de noites de karaoke, espécie de saltimbancos que andam com a animação às costas.

1. Bar

No Porto, muitos são os que se referem ao Pixote Bar como "a casa do karaoke". E não é por acaso. Ali, todas as noites há karaoke. Embora nem sempre tenha sido esse o sistema de funcionamento.

Luís Campos, 50 anos, é gerente do espaço há 21. "Quando cheguei, havia duas noites de karaoke e o resto da semana era música ao vivo", conta, acrescentando que não levou muito tempo até perceber o segredo do negócio. "Era o karaoke que chamava mais gente". Por isso, inverteram-se as datas: "Passámos a ter duas noites para música ao vivo e o resto da semana para o karaoke". Atualmente, há karaoke todos os dias.

Mas, com o passar dos anos, há algumas mudanças. "Antes, tínhamos uma lista em papel. Hoje, é através da leitura de QR Code que as pessoas têm acesso a todos os temas". E se há 20 anos eram as músicas em inglês as mais pedidas pelos participantes, agora as noites fazem-se com um repertório muito diversificado. "Das músicas em inglês, às músicas portuguesas, passando pelos ritmos africanos e pela música brasileira".

Por volta da meia-noite, os participantes começam a preparar-se para mais uma noite de animação. Isabel Brito, 29 anos, conheceu o Pixote Bar em 2012 e, desde aí, é presença assídua. "Venho com o meu namorado e os meus amigos. São sempre noites muito divertidas", partilha, acrescentando que decidiu interpretar a música "Lusitana Paixão", de Dulce Pontes. Antes disso, sobem ao palco Tiago Pinto, 23 anos, e Mário Silva, de 19, para cantar "Homem do Leme", dos Xutos e Pontapés. Luís Gonzaga, 64 anos, é professor de dança e fã de karaoke. Enquanto assiste às atuações dos primeiros participantes, comenta: "É muito mais do que uma competição, é uma boa forma de as pessoas se divertirem".

2. Organizador

Foi no bar Breyner 85 que Carlos Leça dinamizou, pela primeira vez, há sete anos, uma noite de karaoke. "Comecei com o público de Erasmus e sabia que era preciso desmistificar o estigma, porque muita gente olha para esta atividade como uma coisa de velhos", afirma, acrescentando que, para lutar contra esse preconceito, fez questão de criar o próprio evento, o "I Love Karaoke". "Não queria seguir o conceito mais tradicional porque para mim o karaoke deve ser uma festa", partilha o animador.

Durante cinco anos, Carlos dinamizou as noites no Breyner 85, que entretanto fechou. Nos últimos dois anos, esteve no Radio Bar. E, graças às reações dos estudantes de Erasmus, que desde o início acompanham o "I Love Karaoke", a lista das músicas, que atualmente conta com mais de 10 mil temas, tem opções em 11 idiomas. Certo é que, seja qual for a língua, o que não falta é animação.

"Os monstros de palco brilham sozinhos. Mas, mesmo aqueles que acham que não sabem cantar, acabam por subir e há sempre alguém que se junta a eles", conta o animador de 37 anos , assegurando que "há show na mesma".

Há sete anos nestas andanças, Carlos concilia a profissão de gestor imobiliário com o karaoke e já conhece de cor as reações dos participantes. "Canta-se todo o tipo de música e há muita animação. Mas, normalmente, ninguém quer ser o primeiro". Nada que não se resolva: "Subo eu ao palco, para dar o exemplo", revela, sorridente. "No início, as pessoas dão as desculpas mais esfarrapadas. Depois, há tantas inscrições que, muitas vezes, nem há tempo para todos".

Coordenar tantas pessoas, de idades e culturas diferentes, e garantir animação permanente nem sempre é tarefa fácil. Mas, Carlos Leça garante ser bastante recompensador.

"O karaoke é o meu psicólogo. Depois de uma semana de trabalho, é o que me ajuda a descarregar energias. Como costumo dizer, eu não trabalho com karaoke. Eu divirto-me com o karaoke!", garante.

3. Romaria

Na festa de S. Bento das Peras, em Rio Tinto, Gondomar, o cartaz conta com uma noite de karaoke. Foi o que aconteceu esta semana, numa noite em que o Largo do Mosteiro voltou a encher-se de gente para assistir à cantoria. À vez, os participantes subiram ao palco e mostraram os dotes perante o júri.

Aos 41 anos, Hugo Marques diz ser o único elemento da família com coragem para enfrentar o público. E é de sorriso aberto, sem medos, que olha para a plateia. "Sou músico e já ganhei alguns concursos de karaoke, mas venho sempre pela música e pela diversão, que é o mais importante", defende.

A mesma opinião tem Lúcia Marques Ribeiro que, aos 78 anos, não se deixa intimidar pela quantidade de pessoas que estão a assistir. "Venho a esta festa todos os anos e gosto muito de cantar. Além disso, é um convívio bonito", explica a participante, que escolheu interpretar a música "Grito", de Amália Rodrigues.

Do outro lado, nesta edição, esteve Goreti Gomes, presidente da Banda S. Cristóvão de Rio Tinto, que pela segunda vez integrou o júri do concurso. "A afinação é essencial, mas a boa disposição e a energia que os concorrentes mostram em cima do palco também conta", explica Goreti.

Numa noite em que o karaoke se ouvia longe, houve quem escolhesse interpretar temas de artistas internacionais. Mas, a música portuguesa continua em alta. Quando, no ecrã, apareceu a letra de "Nasci p"ra música", de José Cid, todos cantaram.

Kikas é uma das figuras do palco

Carlos Alberto Silva, mais conhecido por Kikas, continua a ser, aos 84 anos, um grande fã do karaoke, atividade que ficou a conhecer, há mais de 30 anos, numa viagem de trabalho a Hong Kong. "Tive uma reunião em Macau, e em Hong Kong descobri o karaoke", recorda, acrescentando que, nessa altura, a empresa onde trabalhava lhe tinha lançado um desafio relacionado "com os jovens e com os bares". "Pedi ao meu amigo Tony Moura, dono do Pixote Bar, que me deixasse fazer uma noite de karaoke e correu muito bem". Três décadas depois, é com a mesma energia que Kikas sobe ao palco, para ser aplaudido por uma plateia que tão bem o conhece. Esta semana, "Kikas" cantou a música com que se estreou: "My Way", de Sinatra.

Eventos pontuais
Ao JN, António Fonseca, presidente da Associação de Bares da Zona Histórica do Porto, diz que "já não há muitos sítios em que o karaoke seja atividade permanente. Mas continua a existir, em eventos mais esporádicos".

Música para todos os gostos
As listas de músicas de karaoke são cada vez mais diversificadas: do funk brasileiro, aos ritmos latinos e africanos, passando pela música popular portuguesa.

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