Porto

"Pedimos ao presidente da Câmara para não acabar com estas carrinhas [de comida de rua]"

"Pedimos ao presidente da Câmara para não acabar com estas carrinhas [de comida de rua]"

Depois de a Câmara do Porto ter sugerido às associações que distribuem comida pela cidade para se associarem aos restaurantes solidários, são muitas as pessoas que pedem ao autarca Rui Moreira para não avançar com a decisão. Muitos que frequentam esses espaços solidários queixam-se da pouca comida que lhes é dada.

"Pedimos ao presidente da Câmara do Porto para não acabar com estas carrinhas. O restaurante solidário não tem leite, não tem água, não tem nada para dar [como roupa e calçado]. Só mesmo a comida. E só dá para um dia", conta Teresa Varela, de 53 anos, que mora em Campanhã, e recorre ao apoio da associação Amigos Improváveis na Rua, que celebra esta quinta-feira, precisamente, um ano.

A noite tinha caído há poucas horas e já a praça da Batalha, na Baixa do Porto, se tinha preenchido de pessoas, em fila, para receber a comida quente e os kits que a associação distribui semanalmente, todas as quintas-feiras, a partir das 20.30 horas. A iniciativa foi criada no ano passado, no início da pandemia, por José Castilho e pela mulher.

Na fila, além de idosos e sem-abrigo, estavam também mães com os filhos pela mão, grávidas e carrinhos de bebé. Durante a distribuição, ouvia-se, sucessivamente: "ponha mais um bocadinho que estou cheio de fome".

Todas as semanas, são entre 120 a 150 refeições quentes distribuídas pela associação. Além das refeições, é dado um kit básico para o dia seguinte com uma sandes, um pacote de bolachas, um iogurte e uma peça de fruta. Ainda são distribuídas entre 70 a 80 cestas básicas, com massa, arroz, açúcar, farinha, leite, atum, salsichas. Há também cestas para as famílias com crianças.

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"Há pessoas que estão aqui que tinham emprego. Não são todos sem-abrigo. Trabalham em setores que, com a pandemia, encerraram, e agora não têm dinheiro para suportar todas as despesas", explica José Castilho, dando nota de que, muitas destas famílias canalizam os poucos rendimentos para assegurar a renda ou a prestação bancária de um crédito habitação e as contas da água, luz e gás.

"Vamos batalhar para ficar aqui"

"Há três semanas, um senhor da Câmara veio falar connosco. Vieram dizer que, como tinham três restaurantes solidários nesta zona, nós não podíamos estar aqui. Tínhamos de ir para os restaurantes servir as refeições feitas por outros, sem distribuir kits ou roupa ou calçado", revela o fundador da associação, garantindo que essa solução está fora de questão. "Vamos batalhar para ficar aqui", assegura.

"Se as pessoas gostassem de ir comer ao restaurante solidário [que fica a poucos metros da Batalha], não havia tanta gente aqui a vir buscar comida", nota, revelando ainda que, após a distribuição de comida na Batalha, a associação faz um percurso que passa pelo Jardim do Carregal (atrás do parque Itália), Avenida do Marechal Gomes da Costa e Bairro do Viso.

O objetivo da Autarquia, explica José Castilho, era que a associação integrasse o NPISA Porto (Núcleo de Planeamento e Intervenção para Pessoas em Situação de Sem-Abrigo). "Achava até por bem que a Câmara, antes de tomar esta atitude, contactasse todas as associações para saber a nossa opinião e não dizer que não podemos servir mais aqui", revolta-se o fundador da associação, recordando que o Município os convidou para fazer esse trabalho de rua no Bairro da Pasteleira "sem justificação" apresentada.

"Não sei se a intenção é esconder-nos e, como os sem-abrigo vão atrás de nós, escondê-los a eles. Não percebo", afirma José Castilho.

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