Romaria

Pela primeira vez o S. João festejou-se em família e não na rua

Pela primeira vez o S. João festejou-se em família e não na rua

Só o cheiro da sardinha assada na Baixa e no Centro Histórico do Porto fazia lembrar a noite mais longa.

Os portuenses acataram o pedido de confinamento e ficaram em casa. O S. João sempre foi uma festa de rua, mas esta terça-feira à noite a cidade esteve deserta, muito também devido à presença maciça da polícia nos habituais e principais locais de concentração de foliões. Pela primeira vez em séculos, não se festejou o S. João no Porto.

Apenas o cheiro a sardinha assada que invadia o ar da Baixa e do Centro Histórico lembrava ser esta "a noite mais longa do ano". A música de baile ecoava pelas ruas e nas casas as famílias reuniam-se, numa forma bem diferente de celebrar a data. Apesar das restrições, alguns assaram as sardinhas na rua.

"É um S. João para esquecer. Não anda ninguém e estou a ver que hoje vou fechar mais cedo", conta José Augusto Santos, sócio-gerente da Casa Balsa, que em anos anteriores dominava a festa na Rua de Saraiva de Carvalho. Colocava as colunas de som nas janelas e vendia duas mil sardinhas, 70 quilos de febras e outros 70 de bifanas, para além dos muitos litros de vinho e de cerveja. Agora, a famosa casa junto ao Aljube tinha 300 sardinhas para servir, mas muitas nem chegaram a ir para a grelha.

O Guindalense, esse, fechou portas às 19 horas e, nas Fontainhas, palco emblemático do S. João do Porto, não havia festa e apenas um grupo de estudantes de Erasmus e jovens imigrantes confraternizavam. Na Rua de S. Vítor vivia-se num "marasmo". Paula Ferreira, moradora na ilha do Galo Preto, era o rosto da desolação. Apenas a família se juntou. "Não há ninguém!".

Mais à frente, na ilha do Doutor o ambiente é o mesmo e "nada tem a ver com as enchentes de anos anteriores". Madame Teresa, como ficou conhecida em França após 30 anos de emigração, tenta alegrar os restantes moradores. "É difícil criar animação. No ano passado, por esta altura, já estava com uma carroça do carago!", confessa um jovem. O S. João do Porto é uma festa de rua. Houve sempre quem o festejasse em casa, como a maioria dos portuenses neste ano, devido à pandemia do novo coronavírus, mas é na rua que esta manifestação popular atinge o seu ponto mais alto. O calcorrear de foliões entre as Fontainhas e a Baixa, entre a Ribeira e a Foz, durante horas de folia.

Uma noite de cheiros. Primeiro da sardinha, quase sempre assada em fogareiros no passeio, depois do aroma das ervas, da cidreira e do alho-porro. O barulho característico da noite, as vozes da multidão sempre a passar, da canalha a chorar com sono, do inconfundível som do martelinho de plástico, da algazarra nos carrosséis, do fogo lançado da ponte e da música de baile até ao nascer do dia.

calma na ribeira

Esta terça-feira, nada disso aconteceu. As autoridades, as autarquias do Porto e Gaia proibiram de antemão os festejos. A polícia manteve-se atenta e com forte dispositivo em toda a cidade. A Ponte Luís I foi fechada nos dois tabuleiros. Cafés e lojas de conveniência também. Apenas os restaurantes prolongaram o funcionamento até às 23. Na Ribeira, reinou a calma, muitos dos estabelecimento tinham "uma casa composta e um pouco melhor que um dia normal". Tal como na Praça dos Poveiros, com famílias a jantar nas esplanadas.

Em direção à Sé, os moradores faziam questão de mostrar que ali havia festa. A Rua da Reboleira tinha música e bailarico. "A polícia passou, mas fechou os olhos", disseram-nos. Em Miragaia, o ambiente era semelhante. A cortar o silêncio apenas o coro de vozes a festejar o quarto golo do Santa Clara contra o Benfica no jogo que estava a ser transmitido na televisão.

Outras Notícias