Reportagem

Porta Solidária: "Senti que devia ajudar. Estas pessoas precisam"

Porta Solidária: "Senti que devia ajudar. Estas pessoas precisam"

"Porta Solidária" distribui 350 refeições por dia no Porto. Nos voluntários há quem tenha emprego suspenso, quem tenha voltado do estrangeiro e até um francês retido.

A pandemia obriga-os a permanecer longe das famílias. Uns com o trabalho em suspenso e outros com a certeza de que não o vão recuperar, refugiam-se no voluntariado e reúnem esforços por uma causa maior. Todos os dias, são 54 os voluntários que entregam entre 350 a 380 refeições aos mais carenciados na Igreja Nossa Senhora da Conceição, no Marquês, no Porto.

A confeção passa pelas mãos do chef Gustavo Ferreira, de 46 anos. Com o encerramento por tempo indeterminado da "Taberninha do Manel", em Gaia, cozinha agora para aqueles que mais precisam. Desta vez, a refeição é gratuita.

"Hoje, fizemos rojões e arroz. Sopa fazemos sempre", conta Gustavo, orgulhoso, com a viseira já embaciada pelo vapor da comida.

No balcão de apoio está Camila Vieira, de 53 anos, a preparar os recipientes que vão servir para entregar a sopa. A loja onde trabalha fechou há quase um mês - como tantas outras -, e a incerteza assusta-a: "Não sei se o estabelecimento vai reabrir ou não, nem como vai ser este fim do mês".

Camila vive a poucos metros do Marquês, na Rua de Costa Cabral, e por isso já conhecia a iniciativa da "Porta Solidária". "Vim perguntar se precisavam de ajuda", conta.

trabalho aumentou

Até porque, explica o padre Rubens Marques, a iniciativa existe há 11 anos. Mas desde que o surto de Covid-19 ganhou peso em Portugal, e especialmente no Porto, o trabalho mais que duplicou. "Notámos um aumento a partir do meio de março. Entregávamos 160 refeições no ano passado e às vezes passamos das 350. Destinam-se a pessoas em situação de sem-abrigo, pobres ou reformados, e famílias que entretanto perderam o emprego e ficaram sem rendimentos", explicou o pároco.

Para Armando Borges, de 56 anos, o alastrar da doença em Bruxelas, na Bélgica, foi o fator decisivo. Há dois meses que voltou para Portugal porque considera que "lá a situação é bem pior".

Nascido e criado nas Fontainhas, o camionista decidiu regressar. "Voltei com medo. Mas senti que devia ajudar. Estas pessoas precisam", salienta.

francês retido

Além da comida quente e da sopa, são oferecidas três sandes, broa, três peças de fruta e um iogurte ou sumo. Para as crianças, o tratamento é especial: há danoninhos e fatias de bolo.

"O objetivo é que essa quantidade dure para o jantar e almoço do dia seguinte", refere o padre Rubens, agradecendo a quem doa os alimentos à iniciativa.

A solidariedade do Marquês conta até com a ajuda de estrangeiros que não conseguem sair do país. Roland de Rosière, de 59 anos, é francês e está retido em Portugal desde que foi declarado o estado de emergência nacional. "Não tenho voos para onde quero ir. Portanto, como tenho de ficar aqui, decidi vir ajudar", conta Roland.

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