Urbanismo

Porto ganha espaço para apostar na ciência e na indústria

Porto ganha espaço para apostar na ciência e na indústria

O Porto será uma cidade diferente. Disso ninguém duvida. Na ressaca de uma pandemia que paralisou o Mundo, a cidade começa aos poucos a reavivar, mas nada será como dantes, admitem especialistas de várias áreas com quem o JN conversou.

Sem esquecer o turismo que já caracteriza a Invicta, para muitos o caminho deve agora fazer-se no sentido da industrialização, da formação e da ciência e tecnologia.

É difícil acreditar que os turistas vão deixar de visitar o Porto. Os hábitos podem mudar e a procura baixar, mas a cidade não ficará vazia, admite Nuno Botelho. "Os números serão diferentes, mas em termos de turismo ainda temos muito por onde crescer. A cidade não vai resignar-se", argumenta o presidente da Associação Comercial do Porto.

Se para Nuno Botelho ainda há espaço para apostar no turismo de proximidade e na captação de empresas estrangeiras, para Rio Fernandes, geógrafo, este momento de paragem pode ser a oportunidade para criar novos modelos de negócios.

"Poderá ser a oportunidade para lançar um modelo que não dependa do turismo massificado, mas sim que assente numa indústria limpa. Queremos uma cidade mais industrial que aposte na formação", advoga o professor catedrático da Universidade do Porto.

João de Queirós, sociólogo, também diz que esta é a altura para a cidade respirar e olhar mais para "si mesma". "O Porto tem de fundamentar respostas educativas e dar mais formação", insiste. "É um bom momento para tornar a cidade um espaço de inovação", sublinha.

Mas o sociólogo vai mais longe e reitera que "uma cidade vazia e sem turistas" precisa de "repensar a forma como trata os seus".

Uma preocupação partilhada pelo presidente da União de Freguesias do Centro Histórico do Porto, a que recebe mais turistas.

"Temos de aproveitar o edificado para voltar a repovoar as freguesias", observa António Fonseca. "É preciso investir nas gentes".

O turismo renovou a cidade. "Mas o Porto não é só turismo. É também uma cidade de ciência e de cultura", adianta, por sua vez, Hélder Pacheco, professor e escritor. "Enquanto não há turistas, os portuenses têm de sair da toca" para devolver ritmo à cidade, insiste.

Sem crianças no centro

A conjuntura pós-pandemia pode ser uma oportunidade para a diversificar as "atividades económicas da cidade e para uma ocupação mais equilibrada do parque imobiliário entre turistas e munícipes", argumenta António Sousa Pereira, reitor da Universidade do Porto. "Importa criar condições para o regresso de população à zona histórica. A consequência mais negativa do modelo de desenvolvimento do Porto foi deixarmos de ver crianças a brincar no centro da cidade", afirma.

Além disso, acrescenta António Sousa Pereira, a cidade deve tornar-se um polo europeu de atração de investimento, capaz de gerar emprego qualificado: "O Porto tem uma estrutura económica, social, académica, científica, cultural e desportiva que lhe permite, mesmo com o turismo em baixa, continuar a ser uma cidade competitiva".

O otimismo esbate-se quando se fala com empresários da área da restauração e da diversão noturna. Mário Carvalho, da Associação de Bares da Zona Histórica, prevê que o desemprego atinja com força o setor e que só um investimento do Governo possa salvar muitos empresas, que viviam sobretudo dos visitantes.

As consequências da pandemia exigirão um grande investimento nos transportes públicos, adianta Álvaro Costa. O sistema de transportes tem de ganhar a confiança das pessoas e para isso, será preciso reforçar bastante a oferta. "Um investimento que já vinha sendo necessário porque os sistemas estavam sobrecarregados", diz o especilista. O JN contactou a Câmara do Porto, mas não obteve resposta.

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