Porto

Quando a droga está do outro lado da janela

Quando a droga está do outro lado da janela

A neta de Fernanda, de dois anos, "já pega em folhas de papel e finge que cheira droga". Imita o que vê da janela de casa, no bairro do Aleixo, no Porto. O cenário estende-se ao Cerco, Pinheiro Torres, Pasteleira, Lagarteiro e Aldoar.

É nos bairros sociais que o problema da toxicodependência mais se faz sentir na cidade. O Centro Histórico, nomeadamente a Sé, também não escapa. Há gente a consumir em plena luz do dia. Os edifícios abandonados pela cidade dão guarida ao vício. O tráfico faz-se às claras. A prostituição ajuda a pagar a dose. O fenómeno da toxicodependência está longe de ser erradicado e agudizou-se com a crise. As associações de apoio aos consumidores que andam no terreno garantem que há muito por fazer.

O consumo ao ar livre

Nem todos os consumidores de droga do Porto vivem no Aleixo e "nem todos os moradores do Aleixo são drogados". Farta desse estigma, e para defender a família, Fernanda grita palavras pouco bonitas para um grupo de consumidores que se concentra num descampado, em frente à torre 2 do bairro. De pouco adianta. No dia seguinte estão no mesmo sítio. F.M. fala abertamente sobre o assunto. "Prometem-nos há anos salas de chuto, mas são só tangas. Preferem que a gente consuma à frente de toda a gente", queixa-se. Tem 42 anos de droga e poucos mais de idade. "Comecei com os meus pais e os meus filhos comigo. Já não vou largar, mas isto podia ter outra dignidade". Fala e aponta com o caneco [utensílio usado para fumar droga] para um camião branco, enorme, que acaba de estacionar. O logótipo da empresa bem visível dos lados. Toda a imagem é desconfortável para quem tenta resguardar-se dos olhares.

F.M. assegura que naquele troço da rua que dá acesso às torres do Aleixo "o que não falta são exemplos destes que, todos os dias, compram, consomem e depois vão-se embora. Fazem tudo assim, à descarada".

Sandra Vieira, psicóloga clínica, trabalha há dez anos numa equipa de rua da Norte Vida - Associação para a Promoção da Saúde, uma instituição privada de solidariedade social. É ela a primeira a dizer que "não são as paredes que fazem as pessoas, são as respostas". O que significa que, mesmo que tirem as pessoas do Aleixo, nunca tirarão a droga às pessoas. As carrinhas "Rotas com Vida", onde trabalha, percorrem por isso os locais de consumo mais problemáticos, na zona ocidental da cidade, como o bairro do Aleixo e de Pinheiro Torres. Tentam, pelo menos, reduzir os riscos e minimizar os danos de quem está dependente, construindo uma relação terapêutica com os consumidores.

O dinheiro fácil da rua

Florina aproxima-se tímida. Tem um pedido a fazer: "Posso contar a minha história?". Tem 37 anos e consome há 20. Passado tanto tempo, "é hora de parar". A voz fraqueja-lhe um pouco. Quase suplica: "Só queria que a minha família me viesse aqui buscar". O "aqui" é um lugar chamado dependência, que combina cocaína e heroína e a obriga a "tentar a sorte", em frente às piscinas do Cerco. "Ando cansadinha desta vida. Nem vejo as minhas filhas crescer". Da carteira tira a fotografia de uma criança. "As instituições já fazem muito. Dão-nos de comer ao meio-dia e à noite, mas a família tem outro poder". O sorriso da bebé, agora com dois anos, volta para o fundo da mala. "Se a minha família me deita a mão eu agarro a oportunidade com unhas e dentes", diz entre lágrimas.

Segundo José Goulão, diretor-geral do SICAD - Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências -, a perceção que existe é de que, "embora tenha havido um recrudescimento recente de franjas mais desorganizadas da população toxicodependente, muito à custa de recaídas de antigos consumidores (facto a que não será alheia a crise económica e social), estamos longe da realidade que enfrentámos nos finais dos anos 90". Mas há outras perceções menos animadoras. "Veem-se cada vez mais raparigas na prostituição", contam os técnicos das carrinhas de apoio. Troca-se o corpo por uma dose. É o caso de Joana. Foi parar à Alameda de Cartes, no Cerco, há uma semana. "Devíamos ter mais apoio para intervir logo nestes casos", revela Rui, da CASO. O grupo Consumidores Associados Sobrevivem Organizados trabalha há dez anos no terreno junto da população mais fragilizada.

Edifícios ao abandono

Da Alameda de Cartes, Renata aponta para o esqueleto de um prédio. É lá que diz habitar com outras sete pessoas. Os edifícios abandonados são um clássico nesta matéria. À direita das piscinas municipais, um caminho sulcado na terra leva a uma casa em ruínas. É nesse sítio coberto de lixo que muitos consomem todos os dias. Porém, naquela zona, o pior caso será mesmo o da antiga escola básica do Cerco, onde muitos passam as noites. Há sete anos avançou-se que a escola seria transformada num centro de saúde. A construção da nova unidade deveria ter ficado pronta no final de 2011, mas degrada-se todos os dias. Joaquim, com quase 60 anos, tem ali um "apartamento". "Eu tenho uma casa. Só aqui venho para consumir. A discriminação que fazem aos toxicodependentes obriga a que a gente se organize desta maneira", lamenta.

Falta de ocupação

João explica os seus motivos: "Não quero falar e não quero fotos, porque a minha filha não sabe que consumo", ilude-se. Parar, já depois dos 50 anos, "era uma asneira", ri-se. Toca no corpo com força: "Tenho um Ferrari num braço e uma moradia no outro, nem posso pensar no assunto".

Sérgio Rodrigues, colega de Rui na CASO, assegura que uma "ocupação faria muito por estas pessoas". "Não é a guerra às drogas que ajuda. Antes eram criminosos, agora são doentes, e por interiorizarem isso não conseguem ser autónomos e não querem trabalhar. Era necessário criar mecanismos que lhes dessem formação, pelo menos aos que já estivessem no programa metadona [redução de danos]", sustenta.

O negócio

Um exemplo não são exemplos, porém, Manuel garante que a sua história ilustra bem a realidade de muitos ex-reclusos. Em 2014, o relatório anual de 2015 sobre a situação do país em matéria de drogas e toxicodependências revelava que 69% dos reclusos inquiridos declaravam já ter consumido algum tipo de droga. Manuel pertence a esse grupo. Esteve detido na cadeia de Custóias, em Matosinhos, quase seis anos. Saiu em outubro. "Aquilo lá dentro é o piorio, mas cá fora é mais difícil".

Aos 40 anos garante que é com revolta que se deita e levanta, todos os dias. "Estive sem rendimento social de inserção quase meio ano. Tive de fazer-me à vida". Voltou ao Aleixo, mas assegura que nunca mais consumiu. "Usei droga durante 20 anos. Não imagina o que me custa agora andar com cocaína e heroína sempre nas mãos, mas isto é um trabalho para mim". Que lhe traz grande vergonha. "Não me sinto bem, sei que o dinheiro que levo para casa é sujo. Já estive do outro lado e sei bem o que a gente faz para conseguir ter uma dose. Mas, sem dinheiro, não tive outra saída, voltei para o tráfico".

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