Porto

Quatro figuras da Queima do Porto 2011

Quatro figuras da Queima do Porto 2011

Maria Henriqueta, 80 anos, avó de dois estudantes foi vê-los passar. Américo Martins,60 anos, Dux Veteranorum, foi deitar sentenças. Ana e Cíntia, 22 anos, estudantes de Letras, cantaram em contra-refrão. E Zé Amorim,18 anos, caloiro de Engenharia, foi passear Paulo Futre.

Maria Henriqueta estava ali como se estivesse debaixo de uma casota, feita com o casaco, sentadinha, a tapar a inclemência do sol. São três da tarde e Maria Henriqueta, 80 anos, viçosa, chegou cedo, vai passar ainda um bom par de horas até ver a cabeça do cortejo, que ali há-de chegar à tribuna montada no topo dos Aliados. Veio hoje e vem sempre, há anos, é de uma família de formados de Francos. Ontem veio ver a neta Bárbara, de Sociologia, que toca no Orfeão, e o Francisco, caloiro de Medicina. São sete os seus netos, mais três filhos. "Sete é o número mentiroso, não sabia?", diz ela, "É. Quando não se sabe exactamente quantos são diz-se que são sete. Tanto dá para o 5 como para o 10, está a ver?". E ali ficou, em família, à espera do cortejo e da folia.

Há-de ser um lugar invejado, o de Américo Martins, Americus Sem Cus, o Dux Veteranorum, o mais velho, o que está acima de tudo, praxista até morrer. Ele vai à frente, a abrir cortejo e está assim: sentado num "sidecar" puxado por uma bela e negra "chopper", perna cruzada, Ray-Bans verdes, segura uma cerveja, tem um charuto a baforar. E ali vai, sentado a surfar no cortejo, dita sentenças de praxista veterano: "Tenho uma receita. Quer saber qual é? Trabalho, trabalho e, talvez ainda, trabalho. É simples, não é?", diz o Dux Veteranorum Américo Sem Cus, a praxar desde 1988. Seguia com uma bela trupe de trajados, todos negros, gravata vil como a dos "Cães Danados" de Tarantino. Cantavam e partilhavam uísque. "Cortejo é alegria, vamos embora gente!".

Azuis e brancos como a "naçon", os da FLUP foram entalados no cortejo entre os vermelhos engenheiros que se queixam ("Vendo o meu diploma", dizia um cartaz do carro da FEUP) e os roxos de Farmácia que levaram um avião (voou rente à Câmara com uma tarja de riquismo: "Em Farmácia é tudo grande"). As mulheres dominam a Faculdade de Letras, controlam os cânticos em cima do camião. Cíntia, Adriana e Ana, três vezes 22 anos, cursam no 4.º ano, 1.º de Mestrado em Ciência da Informação. "O futuro é risonho", diz Ana, cintila, é crente. "O curso é novo, o mercado também". Elas berram em folia, são provocadas ("Letras? Só na sopa!"), respondem à letra em contra-refrão: "Sopa só com chouriço/E, não, tu não tens disso!".

Zé Amorim levou Paulo Futre pela mão a ver o cortejo. Sorriso engravatado, todo penteado, Futre, o futebolista esquerdino feito profeta do charter, andou entusiasticamente aos tombos, desfraldado, pelo ar, sempre um dedo erguido a apontar a solução: "Desemprego em Portugal? Um diploma de engenheiro para cada cidadão", dizia a tarja do "El Português", ocasional ícone do cortejo de crise dos engenheiros. Zé Amorim, caloiro conhecido por Pisca Pisca ("foi por causa de umas lentes no primeiro dia, é, correu mal"...), está no 1.º ano da FEUP e acredita: "O futuro só é negro para os maus cursos. Não é o caso. Há esperança!", diz ele a levantar outra vez o póster do Paulo Futre, engenheiro à portuguesa, a gritar "Olé, Olé!".

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