Entrevista

Rui Moreira: "Lisboa vê o resto do país como uma colónia"

Rui Moreira: "Lisboa vê o resto do país como uma colónia"

Presidente da Câmara do Porto queixa-se do alheameto do poder central, do desinvestimento e da falência das redes de transportes no Norte de Portugal. Por isso, sugere a coordenação dos aeroportos do Porto e de Santiago, a par de uma coligação rodoviária e ferroviária com a Galiza.

Em entrevista publicada este domingo no jornal "La Voz de Galicia" online, Rui Moreira observa que demorou quase quatro horas a percorrer, de carro, os 300 quilómetros até à Corunha, aonde se deslocou, para participar na conferência "Galiza e Portugal - novos laços", decorrida na sexta-feira. Como o entrevistador sublinhou, a demora podia ser até maior: se fosse de comboio, gastava seis horas.

Este foi o gatilho para entrevista. Rui Moreira disse que propôs ao presidente do Governo Regional da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, uma colaboração estreita entre os aeroportos do Porto e de Santiago de Compostela e que defende também uma nova ferrovia entre a Região Norte de Portugal e a Galiza, a interligar no trajeto para Madrid.

Rui Moreira denuncia "a deficiente ferrovia portuguesa" e dá como exemplo a estagnação da ligação entre Porto e Lisboa ao longo das últimas décadas. "Quando era criança, ia com a minha avó a Lisboa, de comboio, e demorava duas horas e quarenta. Hoje, a viagem leva 2.30 horas. E para norte é ainda pior, é uma tragédia impossível até à fronteira, é como no faroeste. E isto tem de ser mudado", diz o autarca.

"Hora de decidir"

No ciclo de debates "Diálogos Gallaecia" já se tinha abordado a questão da nova linha Porto-Lisboa de alta velocidade, e na entrevista ao "Voz de Galicia", Rui Moreira voltou a dizer que o avanço da obra é fundamental para estabelecer a ligação com o norte de Espanha. "Esta é a hora de decidir que o comboio deve chegar à fronteira e seguir pela Galiza", afirmou o autarca, que prefere o caminho da costa atlântica no percurso até Madrid, com saída pelo sul de Vigo. "O nordeste de Portugal pode ir por Puebla de Sanabria", sugeriu.

"Entre a costa e Madrid não há população. A linha Aveiro-Salamanca é uma boa ideia para mercadorias, mas para os passageiros o importante deve ser uma linha rápida entre a Corunha e Setúbal", acrescentou o presidente da Câmara do Porto.

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Da via-férrea aos aeroportos. "Propus ao presidente Feijóo a coordenação entre os aeroportos do Porto e Santiago. Estão a uma distância confortável um do outro, o que justifica essa aposta. Poderiam estar ligados por um comboio rápido e cada um deles especializar-se em determinados destinos. O Porto para voar para a África, Nova Iorque ou Brasil, e Santiago de Compostela para a América Latina, por exemplo. Assim podíamos ser mais eficientes", disse Rui Moreira.

Na mesma entrevista, o presidente da Câmara do Porto verificou que, mesmo "sem apoio público às rotas", o Aeroporto Francisco Sá Carneiro é um sucesso". "Os aviões vêm pelos passageiros, e o aeroporto do Porto cresceu porque a cidade se tornou uma atração turística e porque atraímos voos importantes que ajudaram o turismo a crescer", diz Moreira, acrescentando que faz mais sentido apostar na coordenação entre os aeroportos do Porto e de Santiago de Compostela do que neste com as outras bases galegas, designadamente o de Vigo, que tem "condições naturais difíceis".

Críticas às CCDR

Rui Moreira verificou que "nos últimos 35/40 anos, o desenvolvimento da Galiza tem sido fantástico" e que tem uma "qualidade de vida melhor que a do norte de Portugal". O autarca lamentou, que o lado de cá da fronteira não tenha seguido o mesmo ritmo de desenvolvimento e atribui o atraso português à ausência de regiões autónomas, como tem Espanha (as designadas "Xuntas").

"Tínhamos uma Comissão de Coordenação da Região Norte [CCDR-N] com pessoas como Valente de Oliveira ou Braga da Cruz, mas, hoje, esta entidade é determinada pelo Estado Central. Olhamo-la um pouco de lado, não tem representação nem poder político. E em relação às cidades, a questão é claramente o Eixo Atlântico, que não está a funcionar bem. O Porto não tem interesse no eixo, pretendo sair. Quando Chaves-Verín, o melhor exemplo de eurocidade em toda a União Europeia, o abandonou e Vigo também não se interessou, algo corre mal", afirmou o presidente da Câmara do Porto.

"Guerra perdida"

Tudo isto para Rui Moreira concluir que também já não acredita que o país avance com a regionalização. "Lisboa vê o resto do país como uma colónia. E o Presidente da República, que é muito popular, não quer. É uma guerra perdida", rematou o presidente da Câmara do Porto.

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