Reportagem

Sem-abrigo: Porto reergue a teia que ruiu

Sem-abrigo: Porto reergue a teia que ruiu

Rede social: número de voluntários cai drasticamente; das 22 rotas de comida que havia na rua, só sobram agora quatro; 40 sem-abrigo já foram recolhidos, mas 100 recusam quarentena e resistem; antigo hospital Joaquim Urbano é o novo centro onde toda a gente vai comer. Retrato do Porto em tempo de emergência.

Celestino de Jesus acaba de ser recolhido pela carrinha branca de vidros escuros. Traz o saco dos parcos pertences, a cara fechada e uma expressão ilegível nos olhos que pode ser receio ou só muito cansaço. Tem 56 anos, é do grupo de risco: VIH positivo, cancro no pulmão, sem emprego, sem-abrigo.

Foi recolhido nos primeiros números da longa avenida em obras Fernão de Magalhães, no Porto, era quinta-feira, 21 horas, e seguiu com os dois técnicos de camisas vermelhas da Ordem de Malta que operam as duas novas rotas de recolha noturna, uma na Baixa, outra na Boavista, definidas pela Câmara do Porto e a rede social dos Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA).

Enluvado e mascarado, Celestino segue na carrinha e vai entrar, o trajeto é curto, nem cinco minutos, no antigo Hospital Joaquim Urbano que é desde há uma semana o Centro de Acolhimento de Emergência Covid-19 para pessoas em situação de sem-abrigo. Fará o teste, ficará em quarentena. Tem direito a uma cama, roupa lavada, um kit de higiene, acesso a duche e três refeições quentes por dia enquanto durar a permanência no local. Até ali, dormia nas ruínas da Escola do Cerco, um lugar ermo em decomposição, usado por consumidores de drogas e pessoas sem teto onde grassa o lixo, o frio, a escuridão e até o betão está em putrefação.

Os 140 sem-abrigo crónicos que há anos habitam nas ruas do Porto já são só 100, apurou o JN. Há 40 instalados no Centro de Acolhimento que abriu justamente 40 camas extra, lotadas desde sexta-feira. Há mais 10 camas no Hospital Conde Ferreira, mas permanecem vazias; são para infetados com coronavírus e não há ainda casos reportados nesta população.

100 recusam sair da rua

Os outros 100 resilientes resistem, recusam a quarentena, não trocam a independência da rua e com o confinamento da população geral emergem com cada vez mais nitidez - como Heitor, 45 anos, ex-recluso, que ocupa uma das soleiras impecavelmente limpas do Teatro S. João; como José António, 73 anos, alcoólico que prefere o frio chão de cartão das Antas, atrás da Loja do Cidadão; como Augusto, 66, que continua nas trevas húmidas do Cerco a vociferar liberdade; como Fernanda Silva, 52, que se aninha na Rua de Ceuta e todos os dias, até que há sol, se põe parada a pedir debaixo da Torre dos Clérigos, com um cartaz surrado e um copo vazio na mão, cheia de solidão; como Ricardo Cardoso, 31 anos, que bebia e deitou tudo a perder lá na França onde andou, hoje é sem-abrigo sem poiso certo e naquela noite foi dormir com o Samurai, que vai aparecer já a seguir.

Mas nesta hora, toda a rede deles acabou de ruir: com o país em estado de emergência, escasseiam rotas de comida de rua, cafés e restaurantes fechados, sem turistas, sem missa, não há a quem mendigar, não há sequer, agora que estacionar é grátis, carros para arrumar.

É disso tudo que se queixa Samurai, nome de guerra ou de pluma de Paulo Brás, que sonha ser escritor. Ele é alto, está no descampado à frente da fila da comida que engrossa e alastra até ao fundo da rua do Centro de Acolhimento Joaquim Urbano. Já pôs a máscara azul-céu e luta agora para calçar a segunda luva laranja de borracha, mas vai desistir da contorção - "deram-me luvas de mulher, olha-me esta!", e ele fica com uma mão calçada e outra ao léu, calejada, ligeiramente frustrado. Acabou de receber o kit do jantar quente takeaway que os voluntários do CASA, o Centro de Apoio aos Sem-Abrigo incapaz de parar, entreguem céleres à fila cá fora em sacos de papelão, aviando 400 pessoas por noite. O menu era empadão, um pão, uma banana e um Bongo - mas o kit não traz talheres e Samurai vai reclamar: "Hei!, como com quê?, as mãos?!", diz ele a agitar no ar a luva laranja engelhada que não consegue calçar.

Tem 52 anos, é ex-heroinómano, dorme literalmente debaixo da ponte. "Gosto de acordar ali, tenho o rio, os pássaros, é tudo meu, sozinho, sem ninguém a chatear", diz Samurai, que dorme num vão de 3x3 metros entre os pilares 1 e 2 da Ponte do Freixo, margem das Fontainhas, ali onde acima se eleva a bela vista do varandão e se avista a água azul-verde do rio a espelhar os fantasmas de barcos e turistas que deixaram de passar.

"Não vou largar a rua. Só a troco por uma casa, mas não me dão uma casa, nem tenho rendimento para a alugar.... Na rua sou livre. Livre! É a única coisa que ainda não perdi", diz Samurai, e desaparece rua abaixo com o Ricardo, que esperava ali deitado pela hora da refeição, e os dois internam-se na escuridão.

Só quatro rondas ativas

Raquel Rebelo, dos Médicos do Mundo, a única equipa médica que continua a cruzar as ruas do Porto, dá uma ótima sugestão: "Porque não se abre aqui, como Espinho vai fazer, um parque de campismo para os sem-abrigo? Era, se calhar, digo eu, algo que os convenceria a largar a rua, não acha?".

Há muito "a trabalhar no limite e agora ainda mais", Raquel mantém ativas as rondas de rua, o gabinete, a equipa de Barcelos e a outra que vai ao Centro Joaquim Urbano levar consultas, seringas e cachimbos aos consumidores inveterados. Ela apela: "Precisamos de máscaras, luvas, batas e desinfetantes". Alguém pode doar? E depois ela partilha esta aflição: "Voltamos a ter fome na rua. Sim, fome. Há utentes, sobretudo os dos bairros de tráfico e consumo, a quem não chega a comida. Não serão tão visíveis como os sem-abrigo, mas já estão a aumentar".

Com 400 refeições entregues por dias no Centro Joaquim Urbano, os voluntários do CASA não servem só refeições; mantêm as rondas de rua, terças, sextas e domingos, às 21 horas, atrás do Bom Sucesso. Sexta-feira, confirma Teresa Moreira, que trabalhou com mais dois voluntários, o Filipe e o Rui, e serviram 50 pessoas com kits de takeaway, a comida quente esfumou-se em menos de 10 minutos.

Natália Coutinho, outra coordenadora do CASA, corrobora: os seus 200 voluntários passaram a 70, "todas as estruturas estão a perdê-los, temos de os recuperar, o número caiu drasticamente". Das 22 equipas de comida de rua que operavam no Porto, sobram só quatro: o CASA, a LBV, o Café Convívio - Assembleia de Deus e os Missionários da Fundação Allamano.

Os privados também se eclipsaram da rua, há de confirmar o padre Rubens Marques, que dá de comer a 280 pessoas por dia na Porta Solidária da Igreja do Marquês, a única estrutura aberta, além da Casa Mãe Clara, na Boavista, que serve 200 refeições diárias no regime agora obrigatório de takeaway.

O padre Rubens revela: "Estamos outra vez com números perto dos da crise económica de 2009. Receio que os venhamos a superar".

Além de muito trabalho, o prelado vive o estado de emergência "com muita oração, seriedade, serenidade e esperança". E todos os dias, todos sem faltar, o padre reza uma missa. Mas ele nunca viveu nada assim nos 33 anos desde a sua ordenação: a igreja está desolada, ele ouve a sua voz a ecoar na assembleia, e vê-a todos os dias desalentadamente vazia de fiéis.

Há 3400 pessoas sem-abrigo em Portugal

Lisboa concentra 44% do total nacional (3400) de pessoas sem-abrigo: Segue-se o Porto, com 24%, ou seja, 560 pessoas, entre as quais 100 a viver na rua e 460 já alojadas temporariamente. No Orçamento do Estado para 2020 constam 7,5 milhões de euros para a Estratégia Nacional de Integração dos Sem-Abrigo.

Guimarães lança apelo à sinalização
A Câmara de Guimarães e a CERCIGUI criaram um "espaço de alojamento para sem-abrigo, com todas as condições de higiene, segurança, conforto e acesso a refeições". A Autarquia apela à população que informe sobre casos de pessoas sem-abrigo a precisar de ajuda. Por telefone: 253421255, 969264803 ou 969264761. Ou por e-mail para: geral@cm-guimaraes.pt.

Coimbra está a monitorizar 40 sem-abrigo
Os 40 sem-abrigo de Coimbra estão a ser encaminhados para instituições de acolhimento, via Segurança Social. São monitorizados diariamente em relação à Covid-19, disse Jorge Alves, vereador da Ação Social.

Em Lisboa já há quatro centros de acolhimento
A Câmara de Lisboa ativou quatro pontos de acolhimento a sem-abrigo: no Pavilhão Casal Vistoso; no Pavilhão da Tapadinha, em Alcântara, cedido pelo Atlético Clube de Portugal; na Casa do Lago, em S. Domingos Benfica; e no Clube Nacional de Natação, já transformado em centro de acolhimento de emergência.

Espinho já os acolhe no parque de campismo
A Câmara de Espinho e o Grupos de Escuteiros de Anta montaram 17 tendas para acolher sem-abrigo no parque de campismo. Há apoio de comida e WC.

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