Plenário

Trabalhadores apelam às forças do Norte para se reverter o encerramento da refinaria de Leça

Trabalhadores apelam às forças do Norte para se reverter o encerramento da refinaria de Leça

Sindicalistas exigem "convergência das forças do Norte" na defesa da refinaria de Leça da Palmeira. Rui Moreira desce aos Paços do Concelho do Porto para auscultar o plenário dos trabalhadores. Mas o autarca portuense considera-se sem jurisdição política e territorial para corresponder aos apelos de maior intervenção pessoal e institucional contra o desmantelamento da refinaria de Leça da Palmeira.

Reunido, esta tarde de quinta-feira, na Praça General Humberto Delgado, em frente à Câmara Municipal do Porto, o plenário dos trabalhadores da refinaria da Galp votou e aprovou uma moção que exige a reversão da ordem de encerramento da petroquímica de Leça da Palmeira, anunciada em dezembro último e agendada para março.

Os sindicatos manifestaram-se contra "o silêncio ensurdecedor" da Câmara do Porto e pediram a intervenção das "forças vivas do Norte". Rui Moreira saiu à rua para ouvir os trabalhadores, recolher o manifesto e declarar-se jurisdicionalmente impedido de ter mais intervenção na matéria, seja por alegadas razões estruturais e conjunturais ou por mera impossibilidade territorial. "Chamo a atenção para o facto de a refinaria estar no concelho de Matosinhos e de a Galp ter sede em Lisboa", verificou o autarca portuense.

"Como assim? O Aeroporto do Porto está localizado em Pedras Rubras, no município da Maia, e isso não impediu o dr. Rui Moreira de falar sobre a questão da TAP, até muito vigorosamente, na defesa dos interesses da região. O que muda de um assunto para o outro?", afirma e questiona Telmo Silva, membro da Comissão de Trabalhadores da Refinaria da Galp e dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energias e Atividades do Ambiente.

Rui Moreira entende "a preocupação legítima dos trabalhadores" e observa: "Compreendo que andem a bater a todas as portas e que também queiram bater à da Câmara do Porto. Aliás, já tinham sido recebidos há mais de um mês no meu gabinete. E já nessa altura chamei a atenção e volto a chamar agora, para o seguinte: sendo muito importante para região, a refinaria da Galp está situada no município de Matosinhos e a Galp tem a sede em Lisboa. E há uma área metropolitana de que eu não sou presidente. Portanto, em tudo aquilo que eu faça relativamente a esta matéria compreenderão que não deve haver da minha parte uma ingerência no município de Matosinhos".

O presidente da Câmara do Porto remeteu, assim, para a homóloga do concelho vizinho: "Ainda ontem [quarta-feira] tive oportunidade de falar com a minha colega Luísa Salgueiro e fiquei a saber que a Câmara de Matosinhos já tomou um conjunto de medidas. Designadamente, que pediu um estudo independente para avaliação do impacto macroeconómico do encerramento da refinaria. Portanto, compreenderão que deva agir prudentemente nesta matéria, porque, se o município de Matosinhos está empenhado em tratar do assunto, nomeadamente com a ajuda da Universidade, o presidente da Câmara do Porto não está, por razões eleitorais, para fazer um grande escarcéu. Isso é que eu não faço. Sei que está na moda, mas eu não sou populista", acrescentou Rui Moreira.

Os sindicalistas dizem também ter conhecimento de a Câmara de Matosinhos ter pedido o referido estudo macroeconómico, mas pede intervenção mais rápida e atualizada. "Esse estudo é para avaliar situações futuras, não é para o que está a acontecer hoje. O que devia haver era um estudo para impedir a destruição. Não destruir para depois avaliar opções a tomar no futuro", atalhou Telmo Silva.

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"O que tem de haver - continuou o sindicalista - é uma convergência de todas as forças do Norte na defesa da refinaria, capaz de tomar todas as iniciativas institucionais que revertam a situação. Trata-se de uma situação reversível. Já o demonstrámos várias vezes. A refinaria precisa é de ser modernizada, para criar empregos e riqueza para o país. Portugal precisa é de ser industrializado, não desertificado".

"Eu também tenho a minha convicção. Qual? A minha convicção é que se a Administração da Galp decidiu que o negócio que existe hoje em Matosinhos é ruinoso e que se o Governo, que é acionista da empresa, também assume essa posição e que se há uma transição energética em curso, com a queda do consumo do gasóleo e da gasolina, e se nós queremos uma transição energética, é razoável concluir que a administração da Galp tenha tomado esta decisão, que, aliás, a própria população de Matosinhos vinha a exigir há mais de dez anos".

"Coisa diferente, contudo, é a minha preocupação macroeconómica para a região, não só por causa destes trabalhadores mas também por causa de muitas empresas que dependem da produção da Galp, não da gasolina e do gasóleo, que podem vir Sines ou de outro sítio qualquer, mas sim dos solventes para o resto da indústria, a de uma rede muito grande de pequenas empresas da nossa região, que precisam do fuel, das resinas dos solvente e todos esses produtos e que, subitamente, possam ter um problema de abastecimento", acrescentou Rui Moreira.

O presidente da Câmara do Porto rematou: "Se a situação é estrutural, daqui a dez anos, não vai haver refinarias. Nem aqui nem em Sines. Mas se é uma situação conjuntural, se tem a ver com esta crise, seria bom que o Governo pensasse que o auxílio que deve dar a empresas em dificuldade não seja apenas à TAP, porque há empresas que se calhar não estão em Lisboa e que por acaso, com uma verba ínfima, conseguiriam, por algum tempo, manter a produção".

Em comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Imobiliários (CMVM), a Galp diz ter reservado 200 milhões de euros das contas de 2020 para proceder ao desmantelamento da refinaria de Leça.

A empresa anunciou em dezembro de 2020 a intenção de concentrar as suas operações de refinação e desenvolvimentos futuros no complexo de Sines e desmantelar a refinação em Matosinhos este ano, uma decisão que põe em causa cerca 500 postos de trabalho diretos e mil indiretos.

Em 2020, apresentou um resultado negativo de 42 milhões de euros. Em 2019, teve 560 milhões de lucros. De acordo com os valores comunicados à CMVM, no quarto trimestre de 2020, o resultado líquido ajustado caiu 98% em termos homólogos, para três milhões de euros. O Estado é um dos acionistas da empresa, com uma participação de 7%, através da Parpública.

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