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Um ano de bebé-milagre. "Vamos festejar como o Salvador merece"

Um ano de bebé-milagre. "Vamos festejar como o Salvador merece"

Salvador, bebé que nasceu de uma mãe em morte cerebral no Hospital de S. João, no Porto, festeja hoje o seu primeiro aniversário.

"Está lindo" e é "uma criança muito meiga", contou, orgulhosa, Maria de Fátima Branco, a avó do menino que, por causa do surto do novo coronavírus, diz não o ver há duas semanas. A pandemia está também a gerar algumas dúvidas à família quanto à maneira como celebrar o primeiro ano de vida de Salvador. Bruno Sapalo, o pai, afirma ao JN que, por agora, é altura "de ficar em casa". Por isso, a festa de aniversário não será aquela que a família desejava, mas será "como ele merece".

"Ele vem passar os fins de semana sempre connosco", afirma, por sua vez, a avó materna, explicando que não tem recebido o neto por precaução, mas garante manter a casa pronta para o acolher, se necessário.

"Ainda estamos a perceber se vamos celebrar o aniversário do menino a casa do pai. Mas, claro, teremos de manter sempre a distância e acho que não consigo. Quando o vejo só me apetece abraçá-lo", ri a avó, acrescentando que tem mantido o contacto com Salvador através de várias videochamadas.

No entanto, de acordo com Maria de Fátima Branco, os últimos tempos "têm sido uma batalha de afetos e sentimentos". "Houve muitos conflitos e confusões. Há muita coisa que não está resolvida", conta a avó de Salvador ao JN.

contar a história

Maria de Fátima afirma sentir-se preocupada e receia a forma como Salvador vai ouvir a história do seu nascimento pela primeira vez.

Foi um ataque de asma que atirou a mãe do bebé, Catarina Sequeira, de 26 anos e grávida de 12 semanas, para uma cama no Hospital Santos Silva, em Gaia. Ficou em coma induzido. A morte cerebral foi declarada no dia 26 de dezembro, quase dois meses depois, e a transferência para o Hospital de S. João, no Porto, foi feita às 24 semanas de gravidez.

A cesariana ocorreu a 28 de março. No mesmo dia desligaram-se as máquinas que mantinham Catarina viva. Faz hoje precisamente um ano. Mas este dia "é só dele", garante a avó. Bruno Sapalo sublinha que a família de Catarina "será sempre família" para si.

Os olhos de Salvador eram já característica da mãe, afirma Maria de Fátima Branco, que garante não esquecer Catarina. "Marcou-me como filha, mulher e como ser humano, mas quero que o dia seja só do Salvador. A Catarina morreu a 26 de dezembro. Foi nesse dia que a perdi", sustenta, revelando que "a ferida ainda está lá".

avó preocupada

É no infantário que a mãe frequentou, em Crestuma, Vila Nova de Gaia, que Salvador começou o seu percurso escolar. No entanto, a avó do menino mostra-se preocupada com o desenvolvimento da criança e afirma ter já consultado um terapeuta.

"Ele está bem. Só precisa de ser mais estimulado porque não reage a certas coisas", justifica-se, adiantando que Salvador ainda não gatinha e diz apenas uma palavra "pouco percetível".

Salvador nasceu com 32 semanas e já não precisa de oxigénio permanentemente há cerca de três meses, mas a "bomba" continua a ser utilizada de vez em quando. "Ainda não tem os pulmões bem desenvolvidos", explica Maria de Fátima Branco.

cirurgia adiada

O menino ia ser operado aos ouvidos, uma vez que acumula "demasiados líquidos". Por causa do surto do novo coronavírus, a cirurgia ficou adiada. "Esteve muito tempo dentro da barriga da mãe, que já estava morta, e portanto mais suscetível a infeções", clarifica.

Bruno Sapalo confirma o adiamento da cirurgia, mas assegura que "são coisas normais" e que o procedimento deverá "prevenir futuros problemas". Ao mesmo tempo, o pai do bebé salientou que Salvador está a ser bem acompanhado pelos médicos.

No ano passado, no serviço de Neonatologia do Hospital de São João, no Porto, realizaram-se 2337 partos. De janeiro até 25 de março, registaram-se 532. Neste ano, no mesmo período, a unidade hospitalar conta 524 partos.

Com o surto do novo coronavírus, o Hospital de São João, no Porto, garante que a lotação do serviço de Neonatologia não diminuiu. Como forma de conter o vírus, aquela unidade hospitalar explica que foram criadas "vagas suplementares em circuito separado, quer para a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais quer para o Berçário". Também as equipas do serviço, acrescenta o hospital, foram constituídas de forma a fazer cumprir a separação entre aqueles que trabalham com pessoas infetadas pela Covid-19 e os que não trabalham. Até ao passado dia 25, deram entrada naquele serviço 85 doentes.

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