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Um terço das urgências no Hospital de S. João são "falsas"

Um terço das urgências no Hospital de S. João são "falsas"

A Urgência do Hospital de S. João (Geral e Pediatria) atende, em média, por dia, 246 doentes que não necessitam de atendimento urgente. Recebem pulseiras azuis ou verdes, entopem os serviços, são os que mais reclamam e custam ao Estado 32 mil euros por dia.

Na Região Norte, o Hospital de S. João é a unidade que atende mais doentes nas urgências. No ano passado, passaram por ali 255362 pessoas, o que dá uma média de 700 por dia. Destas, cerca de 70% são atendidas na Urgência Geral e 30% na Pediatria. Nos adultos, os doentes com pulseira azul ou verde representam 29% do total. Nas crianças são cerca de 50%. Do total dos utentes que recorrem às urgências, mais de um terço (35%) dispensava atendimento urgente.

Os números andam na média da região (40% dos episódios que chegam às urgências não são urgentes), mas dão que pensar, sobretudo, se tivermos em conta que cada doente atendido numa urgência polivalente custa ao Estado 132,42 euros (preços deste ano). Ou seja, os doentes a quem é atribuída pulseira azul ou verde no S. João custam cerca de 32 mil euros por dia aos contribuintes.

Não há dados que permitam aferir, com precisão, quanto se pouparia se fossem atendidos nos cuidados primários de saúde, mas Fernando Araújo, presidente da Administração Regional de Saúde do Norte, acredita que ficaria "pelo menos, quatro ou cinco vezes mais barato".

A responsabilidade das "falsas urgências" não é exclusiva do doente. Aliás, José Artur Paiva, presidente da Unidade Autónoma de Gestão (UAG) da Urgência do Hospital de S. João, tende a desculpabiliza-lo. "Não é expectável que um cidadão saiba se tem algo urgente ou não. Há muitas dores que causam desconforto, mas não têm gravidade clínica", explica, dando o exemplo da cólica renal. "O doente sente-se mal e vem à urgência porque quer uma resposta imediata, é normal".

O problema é que o sistema de saúde, "apesar de muito melhor do que há alguns anos, continua muito hospitalocêntrico". A solução passa por inverter esta tendência e "a chave são os cuidados primários". "Está provado que quanto melhores forem, menor é o recurso à urgência", complementa João Sá, director da Urgência do S. João.

Os especialistas pedem aos doentes que, em caso de desconforto súbito, antes de se porem a caminho do hospital, ligarem para as linhas Saúde 24 e 112. Esta é também a mensagem que passa nos televisores da sala de espera da Urgência do S. João. "Todos os bons sistemas de urgência e emergência funcionam baseados em aconselhamento telefónico", refere José Artur Paiva.

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Quando se fala em "falsas urgências", João Sá pede cautela. Diminuir muito a percentagem de doentes com pulseira azul ou verde pode ser arriscado, no entender daquele responsável. "Sempre que reduzo a sensibilidade, aumento o risco dos doentes subavaliarem o que sentem e não virem à urgência", corrobora José Artur Paiva.

Os meses de Julho e Agosto, Dezembro e Janeiro são, por norma, os mais complicados na Urgência de adultos. Mas este Inverno, a concentração da actividade gripal num período mais curto está a fazer disparar as estatísticas. Entre Dezembro de 2010 e a primeira quinzena de Janeiro passaram pelo serviço quase 21 mil doentes, mais mil do que no mesmo período do ano anterior.

Nestes picos, é difícil atender dentro dos tempos recomendados. A triagem de Manchester manda esperar os que apresentam sintomas menos graves, mas quanto maior for a espera, maior é o descontentamento. E aumentam as reclamações.

Na Urgência de Pediatria, a percentagem de doentes azuis e verdes corresponde a metade dos doentes. Ali não há pulseiras e o modelo de triagem adoptado (canadiano) é ainda mais rigoroso - "na dúvida, a criança recebe a cor acima" da escala de prioridades. Ou seja, os azuis e verdes são episódios sem qualquer gravidade, assume Irene Carvalho, directora do serviço.

"Estamos aqui para trabalhar e atendemos toda a gente, mas podemos fazê-lo com melhor qualidade se tivermos um pouco menos de doentes", afirma Almeida Santos, director da UAG da Mulher e da Criança.

A urgência de Pediatria do S. João (Urgência Pediátrica do Porto) funciona 24 horas por dia, mas deveria ser a última opção. De acordo com o conceito da Urgência Pediátrica Integrada do Porto (UPIP), os centros de saúde devem ser a primeira alternativa e os hospitais Pedro Hispano e Santo António, com consulta de Pediatria até às 20 horas, a segunda.

Porém, metade dos doentes da Urgência de Pediatria do S. João chegam entre as 18 e as 24 horas. Ou seja, muitos já não têm alternativa. Almeida Santos aponta uma solução: abrir os centros de saúde até às 22 ou 24 horas. Outra medida para reduzir a afluência à urgência seria recompensar as Unidades de Saúde Familiar pelo atendimento de casos de doença aguda.

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