Reportagem

Esperança terminou ao fim de cinco horas

Esperança terminou ao fim de cinco horas

Um helicóptero do INEM caiu em Valongo com quatro pessoas a bordo, este sábado, numa noite longa que acabou em tragédia. Ninguém sobreviveu.

21 horas. A notícia chegou com estrondo, o mesmo estrondo com que caiu o helicóptero do INEM que transportava dois pilotos, um médico e uma enfermeira. A informação era escassa, mas mais do que suficiente para mobilizar para Valongo mais de 200 pessoas, entre as quais 143 operacionais de várias corporações, que começaram a reunir-se em frente a uma grande superfície da cidade. Pouco depois, chegava a ordem para montar o Centro de Comando no campo de futebol da Arca, nas imediações da aldeia de Couce e uma das entradas para as serras de Santa Justa e de Pias.

Era por ali o local mais provável de um acidente que ninguém queria que terminasse em desgraça. E era também por ali que já circulavam alguns populares empurrados pela esperança de contribuir para um milagre. "O meu primo telefonou-me para dizer que tinha caído um helicóptero. Peguei no jipe e fui com mais dois colegas procurá-lo. Mas não se via nada por causa do nevoeiro. Acabámos por desistir, porque tivemos medo de nos perder", contou José Nuno, habitante da Azenha, um dos lugares de Valongo que fica junto à serra.

Ao jipe de José Nuno, juntaram-se 35 viaturas dos Bombeiros, GNR, PSP e Proteção Civil. Todas percorreram os caminhos mais estreitos dos montes que integram o Parque das Serras do Porto, mas o helicóptero que devia ter abastecido em Baltar antes de partir com destino a Macedo de Cavaleiros continuava incógnito, escondido entre os eucaliptos.

1 hora. O Centro do Comando instalado no pequeno campo de futebol mexia-se de forma nervosa. Bombeiros, guardas e polícias apressavam-se a entrar nos carros que, logo de seguida, saíam em compasso rápido em direção ao sítio para onde todos os olhares convergiam: a serra.

Logo depois, o comandante distrital da Proteção Civil, Carlos Rodrigues Alves, ladeado pelos secretários de Estado da Proteção Civil e da Saúde, pelos autarcas de Valongo e Gondomar e ainda pelo comandante dos Bombeiros de Valongo, revelava a razão das recentes movimentações. "Estamos a confinar as buscas a uma zona mais curta de terreno devido a uma informação que tivemos", dizia naquelas que foram as primeiras explicações dadas à comunicação social.

Uma hora mais tarde, num segundo "briefing", o mesmo responsável abria o jogo por completo. "Pelas 24.35 horas, a cerca de 600 metros a sul da Capela de Santa Justa, foram encontrados os destroços do helicóptero. O aparelho estava completamente destroçado", descrevia. E foi ainda pela voz do comandante Carlos Rodrigues Alves que toda a esperança ruiu: "Foram também encontrados dois corpos encarcerados no helicóptero. Os outros dois estavam no exterior. Não há sobreviventes".

"Houve várias averiguações por parte da Polícia Judiciária, no sentido de identificar os telemóveis das vítimas e conseguiu-se uma coordenada clara, a partir do momento em que se identificou o rádio SIRESP, que estava presente na aeronave", acrescentava o secretário de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves.

Por esta altura, já as ruas de acesso ao local da tragédia estavam bloqueadas por patrulhas da GNR. Só ambulâncias e outras viaturas dos Bombeiros e da Guarda podiam transitar. Os técnicos do Instituto de Medicina Legal também obtiveram permissão, pois só assim puderam certificar o óbito de João Lima, Luís Rosindo, Luís Vega e Daniela Silva.

4 horas. A ministra da Saúde, Marta Temido, falava aos jornalistas. Numa declaração sem direito a perguntas, a governante apresentava-se de rosto carregado e apresenta discurso condizente. "É com enorme consternação que soubemos hoje da perda de quatro profissionais de saúde, no momento em que regressavam do cumprimento do seu trabalho", lamentava.

Com abraços carregados de emoção aos muitos elementos do INEM que marcaram presença em Valongo, Marta Temido deixaria o Centro de Comando minutos depois. Com ela partiram também os autarcas e a maioria dos meios mobilizados, uma vez que nada mais poderia ser feito até que as autoridades policiais recolhessem o material necessário à investigação. Só então é que os corpos seriam retirados. Sem vida. Com tragédia.

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