Tragédia em Valongo

As vítimas do acidente de helicóptero: experientes e apaixonadas pela profissão

As vítimas do acidente de helicóptero: experientes e apaixonadas pela profissão

Enfermeira, médico, piloto e copiloto são as vítimas mortais do acidente com um helicóptero do INEM que caiu, no sábado à noite, nas Serras de Pias e Santa Justa, em Valongo.

Daniela Silva

Ligou à irmã a dizer que ia parar em Baltar

Nos Bombeiros de Baltar, em Paredes, vivem-se momentos de profunda tristeza pela morte da antiga voluntária Daniela Silva. O sentimento é transversal a outras corporações, com as quais a enfermeira foi trabalhando ao longo dos anos, como formadora da Escola Nacional de Bombeiros, na área do socorrismo e do INEM. "Estamos a viver um momento muito difícil. Perdemos um dos nossos elementos de uma forma trágica", afirmou Delfim Cruz, comandante da corporação de Baltar, destacando a vocação e dedicação que Daniela silva colocava na profissão e nas relações com os colegas. A notícia do acidente chegou a Baltar enquanto decorria o jantar de Natal, onde estavam alguns familiares da enfermeira. Daniela era filha de um bombeiro do quadro de honra dos Voluntários de Baltar e irmã de uma outra bombeira da corporação. Enfermeira de profissão, tinha 34 anos, era natural de Baltar, onde residia. Era bombeira na corporação da terra há mais de duas décadas e nos últimos anos dedicou-se ao INEM, trabalhando na delegação do Porto, onde fazia meio aéreo e Suporte Imediato de Vida. "Andava sempre com um sorriso no rosto. Tinha um grande carisma, uma forma muito particular de nos por à vontade, de fazer com que nos sentíssemos bem e confortáveis nas formações", afirmou Ricardo Morais, dos Bombeiros de Lousada. Daniela Silva iniciou a carreira na SIV, no INEM, em Moura, no Alentejo. Seguiu depois para Amarante, onde esteve cerca de 11 anos. Bem disposta e dedicada ao seu trabalho, tinha por hábito referir a sua viatura SIV como "a melhor SIV do mundo". Há cerca de cinco anos, Daniela começou a trabalhar na delegação do INEM no Porto, mas mantinha uma relação muito próxima com os elementos da corporação de Baltar. Ainda ontem, antes de partir de Massarelos, no Porto, ligou à irmã, bombeira em Baltar, para avisar que o helicóptero ia lá parar para abastecer.

Luís Vega

Reservado, mas com "humor peculiar"

Luís Vega nasceu na Corunha, em Espanha, em 1971 e trabalhada na Urgência do Hospital S. Sebastião, na Feira, desde a sua fundação, ou seja, há cerca de 19 anos. Fazia parte da equipa da Viatura Médica de Emergência e Reanimação da Feira e, uma vez por mês, integrava a equipa do INEM que se encontrava de serviço no helicóptero. O médico, casado com uma espanhola, sem filhos, e residente há vários anos na zona da Cruz, na Feira, era muito estimado entre os colegas de profissão, considerado um excelente profissional.

A notícia da sua morte foi acolhida com muito pesar, multiplicando-se os testemunhos de consternação. "Trabalhei muitos anos com ele, o último turno que fizemos juntos foi há cerca de um mês", contou ao JN Valter Amorim, enfermeiro da VMER da Feira. O também presidente do conselho jurisdicional do centro da Ordem dos Enfermeiros recorda "um excelente profissional e uma pessoa reservada, mas com um humor muito peculiar". "Era das pessoas com quem dava gosto trabalhar e passar várias horas", acrescentou. Ainda de acordo com Valter Amorim, Luís "tinha um grande sentido de responsabilidade e adorava trabalhar na sua área, fora do hospital [VMER e INEM]".

No Facebook, também o administrador do Hospital S. Sebastião, Miguel Paiva, diz que, "a família do CHEDV [Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga] está de luto. O acidente ocorrido no final do dia de ontem, com o helicóptero do INEM, vitimou quatro pessoas, entre as quais o "nosso" Luís Vega". "A notícia é devastadora para toda uma equipa que tinha nele um pilar importante como profissional e como pessoa", sublinhou.

João Lima

Desistiu da TAP para salvar vidas

Com 56 anos, o piloto João Lima era o filho que restava ao conhecido político de Viseu, com o mesmo nome, fundador do PS, ex-secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Emigração (1977 a 1978) e deputado na Assembleia Constituinte. O político de 78 anos foi pai dois filhos, ambos vítimas de acidentes no mês de dezembro. O primeiro, Tarjano Lima, faleceu em 1999, num acidente de carro, em Santa Comba Dão. O irmão perdeu a vida anteontem, a pilotar um helicóptero do INEM. João Lima, que tirou a formação de piloto de aviões nos Estados Unidos, há 38 anos, não quis ser piloto da companhia aérea portuguesa, onde ingressou. "Em 1989/1990 entrou na TAP, mas desistiu porque percebeu que não queria fazer voos comerciais, a transportar passageiros. O que queria mesmo fazer era combater incêndios e salvar vidas", recorda Paulo Soares, que foi comandante da TAP e vice-presidente do Instituto Nacional de Aviação Civil e é o atual diretor do Aeródromo Municipal de Viseu. Sobre João Lima só tem elogios: "Era um homem extraordinário, um verdadeiro senhor, um cavalheiro", adianta. Em Santa Comba Dão, onde João Lima foi comandante do Centro dos Meios Aéreos, entre 2000 e 2005, a consternação é do tamanho do mundo e muitos sentimentos são expressados através das redes sociais. No Facebook, os Bombeiros Voluntários amentam a perda do piloto, lembrando que se empenhou "em inúmeras missões ao serviço da população, fosse no transporte de doentes, em salvamentos e resgastes e no combate a incêndios florestais, ao longo de mais de 20 anos". E concluem: " Um legado de inúmeras vidas salvas e protegidas, de entrega, competência e profissionalismo".

Natural de Viseu, João Lima vivia em Santa Comba Dão, onde casou com uma enfermeira. Pai de três filhos, o piloto que também foi instrutor no Aeroclube de Viseu, era visto como um homem "bem disposto, alegre e que contava anedotas com uma mestria ímpar", tal como descreve, no Facebook, a amiga Helena Rebelo.

Luís Rosindo

Apaixonado pelo ciclismo na serra

Luís Rosindo, 31 anos, residia na Quinta do Anjo, em Palmela, e tinha como segunda paixão, além da pilotagem, o ciclismo na Serra da Arrábida. Em jovem, pertenceu à secção de BTT do Quintajense e depois de abandonar esta paixão para se dedicar à pilotagem de helicópteros, tinha planos para regressar em breve aos trilhos na Serra da Arrábida. Na base do INEM de Macedo de Cavaleiros partilhava com o grupo amador de ciclistas da Quinta do Anjo fotografias dos treinos que fazia na bicicleta assente num rolo, assumindo essa vontade de voltar a pedalar na Serra da Arrábida. Nascido e criado em Palmela, era bastante querido entre os amigos e amantes de ciclismo, que ontem manifestaram nas redes sociais pesar pela sua perda. Luís frequentou escolas do concelho de Palmela até terminar o secundário e alistou-se na Força Aérea Portuguesa. Mudou-se depois para o Montijo, altura em que se afastou da prática do ciclismo para se dedicar a aulas de pilotagem de helicóptero, de forma a ter horas de voo. De acordo com fontes próximas do copiloto, essa foi uma fase complicada da vida de Luís Rosindo, que teve que angariar dinheiro para pagar as horas de voo que não conseguia ter na Força Aérea. Viveu durante muito tempo no Montijo, trabalhou em Angola, mas mais recentemente mudou-se para a urbanização Colinas da Arrábida, na Quinta do Anjo, de forma a estar mais próximo da Serra da Arrábida e dos amigos com quem partilhava o amor pelo ciclismo. Não era casado nem tinha filhos.