Solidariedade

Memórias de missão no Uganda em livro para ajudar menina de Paredes

Memórias de missão no Uganda em livro para ajudar menina de Paredes

Uma missão no Uganda marcou-o e mudou-lhe a vida. António Santos, de Valongo, pôs as memórias desse trabalho em livro, cujas receitas de venda reverterão, agora, para ajudar uma menina de dois anos, de Paredes, que sofre de encefalopatia epiléptica.

A vontade de ajudar já faz parte do ADN de António Santos, de Sobrado, Valongo. O homem, agora com 47 anos, é escuteiro, leva comida aos sem-abrigo do Porto e é voluntário no Hospital de São João. Mas queria fazer mais e, em 2017, embarcou com um grupo numa missão no Uganda onde ajudou a reconstruir um orfanato que abrigava 56 crianças com deficiência e deu apoio num hospital, onde até ajudou a fazer partos.

Como este ano não podia sair em nova missão, tendo em conta as restrições da covid-19, pôs em livro as memórias de um mês que o mudou e marcou para vida, fazendo dele um instrumento solidário.

As receitas angariadas revertem para uma menina de Paredes que tem dois anos e sofre de encefalopatia epiléptica, precisando de tratamentos de fisioterapia regulares para combater "um grande atraso ao nível do desenvolvimento motor e psíquico".

É empresário na área da construção civil, casado e tem duas filhas. E a solidariedade faz parte da sua vida. Mas "tinha muita vontade de fazer algo além fronteiras", conta António Santos.

Quando a oportunidade surgiu agarrou-a. Já acompanhava o trabalho dos Missionários da Consolata quando eles pediram apoio ao Agrupamento 1329 Sobrado para uma angariação de fundos para reconstruir um orfanato no Uganda.

"No Uganda quem tem um filho com deficiência tem de o abandonar ou, se não o fizer, tem de fugir porque é considerado um espírito impuro. A maioria abandona os filhos", conta.

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A "missão de muitos", com peditórios porta a porta, vendas de bolachas ou artesanato, permitiu levar não os 10 mil euros previstos, mas 30 mil. "Nós fomos lá e fizemos, mas foi preciso um trabalho muito grande por detrás para isto funcionar", salienta.

Quando lá chegaram encontraram uma realidade difícil. "As crianças viviam em autênticos buracos. As casas de banho eram mesmo buracos. Partimos paredes, fizemos janelas, metemos portas, fizemos casas de banho e metemos luz. E logo que chegamos investimentos cinco mil euros em comida. Só havia meia dúzia de sacos de farinha", relata. Eles próprios dormiram todos juntos na mesma camarata, com janelas mas sem vidros. "Passei um mês a comer farinha", dá como exemplo.

"Deixamos a obra que nos tínhamos proposto a fazer completa. Ainda fizemos mais quatro casas de banho equipadas e deixamos dinheiro para os responsáveis comprarem carne", recorda ainda.

As memórias são muitas. Conseguiram proporcionar felicidade com coisas "insignificantes". Como a vez em que deu uma camisola da Seleção Nacional a um miúdo que "agarrado a um andarilho percorria 20 metros de distância sempre com um sorriso e uma felicidade tremenda".

"Ele agarrou-se a mim de tal forma que jamais, mesmo a minha mulher e filhas, me tinham agarrado assim. Ficámos ali agarrados um ao outro felizes os dois. Foi uma coisa tão insignificante que significou tanto e isso marcou-me imenso. Como com tão pouco se pode proporcionar tanta felicidade", afirma o sobradense.

Também não esquece a dureza de ajudar a fazer partos num hospital que de hospital tinha o nome e pouco mais. "Cada meia mesa era uma maca. Havia ainda mulheres deitadas no chão. As casas de banho eram buracos. As mulheres e meninas que iam ter filhos levavam bacia, algodão, uma lâmina e um pano para embrulhar a criança. Ali ninguém dá um "ai" ao dar à luz", testemunha o voluntário.

Quando voltou a casa o "bichinho" voltou com ele. "Viemos outras pessoas, nunca mais seremos os mesmos", garante. Ele já ajudou a preparar outras missões e, em 2019, foi nove dias ajudar num campo de refugiados na Grécia, algo que também o marcou. Quando voltou, o pai faleceu e ele acabou a cuidar do irmão com deficiência, que também morreu. "Durante meses fui eu que cuidei do meu irmão. Tive de me dedicar de corpo e alma àquele que naquela hora mais precisava de mim", salienta António Santos.

Este ano, impedido pela pandemia de nova missão, pegou nas memórias do Uganda e, traçando um paralelismo com a história do irmão, fez um livro solidário cujas vendas revertem para apoiar uma menina de Paredes. "Quero mostrar aos outros que, no Uganda ou na nossa casa, todos temos uma missão de fazer o bem pelo próximo. Todos podem ajudar", resume.

Cada sessão de terapia da Ariel custa 30 euros, sendo necessários 600 euros por mês para que seja possível fazer uma sessão por dia, valores que os pais não conseguem suportar. "É só o meu papá a trabalhar e a minha mamã fica a cuidar de mim e acompanha-me nas terapias", lê-se na página "A Ariel precisa da vossa ajuda".

O livro de António Santos, "Em Missão - Diário de um Voluntário", está à venda em alguns locais de Sobrado e também em plataformas como a Wook ou Bertrand. Custa entre 8 e 9,50 euros. Só as vendas directas de António já permitiram angariar mais de 1000 euros.

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