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Estão há 52 dias "presos" num barco em Vila do Conde

Estão há 52 dias "presos" num barco em Vila do Conde

Pescadores de Cabo Verde impedidos de voltar a casa porque fronteiras estão fechadas devido à covid-19. Dono da empresa dá-lhes comida e enviou dinheiro para as famílias.

"As nossas famílias não têm nada! Nem para comer", diz André Andrade, tristeza no olhar e saudade na voz. André, Fernando, Josias, Francisco e Eusébio são cabo-verdianos. Estão há dois meses fechados num barco de pesca. Vieram trazer o "Curralinho" aos estaleiros de Vila do Conde. Apanhados no furacão da pandemia, estão abandonados à sua sorte, sem conseguir regressar a casa e com as famílias a passar fome. Dois colegas já fugiram.

Quando saíram do Mindelo, Cabo Verde, nem havia casos da covid-19 na Ilha de S. Vicente. Após 12 dias de viagem, os sete tripulantes chegaram a Vila do Conde a 24 de março. Deviam ter regressado três dias depois.

"O capitão do porto [de Vila do Conde] disse que, de acordo com o delegado de Saúde, tinham que cumprir 14 dias de quarentena. Em quarentena já vinham eles no mar há 12 dias! Tínhamos voo para eles dia 27. Não os deixaram sair daqui", explica Paulo Ribeiro, o sócio-gerente da empresa dona do barco. Dia 5 de abril, novo voo. Nova recusa. No dia seguinte, Cabo Verde fechou as fronteiras.

Tinham contrato de trabalho por 12 dias, o tempo da viagem. Agora, estão "presos" no estaleiro de Vila do Conde. André tem um irmão a viver no Porto. Era uma cama quente, um banho em condições, televisão, família. "O capitão do porto diz que não podem sair do barco", explica, indignada, Luísa Barreto, dona do estaleiro "Barreto & Filhos", onde o "Curralinho" ficará em reparações.

"Jogar às cartas e passear em cima do cais. É isso", diz Josias, quando lhe perguntamos como passa os dias. O coração está apertado. A três mil quilómetros, todos deixaram mulher e filhos, agora sem sustento.

Mais de oito mil euros

Paulo diz que já gastou "mais de oito mil euros". Leva-lhes comida todos os dias, deu-lhes roupa, um telemóvel a cada um, mandou algum dinheiro para as famílias, mas agora também não sabe mais o que fazer. Cabo Verde está em cerco sanitário. A embaixada diz que não sabe quando abrirá fronteiras. "No primeiro dia veio o SEF e a Capitania. A partir daí, ninguém quer saber", diz Luísa Barreto, mostrando a troca de emails com todas as entidades.

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