Covid-19

Divergências entre autoridades deixa corpo quase 11 horas na via pública

Divergências entre autoridades deixa corpo quase 11 horas na via pública

A diferente interpretação das normais legais feita pelo Ministério Público e a Delegada de Saúde de Santarém, face às medidas de contingência decretadas no âmbito do combate à disseminação do novo coronavírus, fez com que o corpo de um ex-comandante da GNR permanecesse na via pública quase 11 horas.

O cadáver viria a ser removido por decisão da PSP, dando assim tempo para as duas entidades chegassem a um acordo, e tentando por fim ao sofrimento da família, que diz ter vivido "o momento mais surreal" da sua vida.

O caso passou-se no passado sábado, 21 de março, e foi partilhado pela filha da vítima nas redes sociais. Segundo Filipa Taxa, o pai, João Araújo, de 77 anos, sentiu-se mal por volta das 10 horas, e tentou deslocar-se ao hospital. No entanto, desfaleceu junto ao carro, na rua Virgílio Arruda. Dado o alerta, as equipas de socorro chegaram rapidamente. Ainda efetuaram manobras de reanimação, mas sem sucesso. "A médica do INEM verificou o óbito, com causas desconhecidas, deu-nos os pêsames, e taparam-no com um lençol", recorda a filha.

Os problemas vieram depois. A PSP estabeleceu um perímetro de segurança, e Filipa, acompanhada da mãe e de uma amiga, permaneceu no local, a aguardar que fossem cumpridos os trâmites legais para que o corpo fosse removido. Porém, "como veio a apurar-se que a vítima tinha sintomas compatíveis com a Covid-19", gerou-se a confusão, com a Delegada de Saúde, Helena Sousa, (que não chegou a ir ao local) a proferir um despacho, e o Procurador do Ministério a proferir outro, explicou fonte da PSP esta terça-feira ao JN.

Perante as diferentes interpretações legais, a funerária contactada pela família ficou impedida de levantar o corpo, e a ansiedade e revolta começaram a aumentar. Depois de muitos telefonemas, Filipa Taxa diz ter recebido a garantia do presidente da Câmara Municipal de Santarém de que este havia "ordenado" à Delegada de Saúde "que fosse ao local declarar o óbito". "Esperámos, achando que estaríamos a fazer alguns avanços, e passadas duas horas soubemos que se recusava" deslocar-se. Mais tarde, "soubemos que declarou o óbito perto das 17 horas, [com] morte por causas desconhecidas", conta Filipa.

Ainda assim, segundo a mesma fonte da PSP, não estavam reunidas as condições para o levantamento do corpo pela funerária, pelo que, por volta das 20 horas, a PSP "decidiu assumir" o controlo do processo e ordenou "que o corpo fosse levantado para o Instituto de Medicina Legal", aí ficando a aguardar pela decisão do Ministério Público.

No final desta história, Filipa Taxa não esconde a indignação e a "vergonha" pela forma como o pai foi tratado, depois de tantos anos a servir o país. "A paranoia do coronavírus apoderou-se das pessoas e sobretudo das instituições que, alegando estarem a trabalhar de forma extraordinária, não cumprem o seu papel com os cidadãos, negligenciando tudo e todos", lamenta a filha do ex-comandante da GNR.

"Se vivemos num Estado de Emergência de Saúde Pública expliquem-me como se abandona um corpo à sua família por 11 horas na via pública? Onde esteve a saúde pública a ser considerada? Se não tivesse questionado as autoridades presentes ninguém se teria lembrado sequer de limpar o local depois da remoção do corpo", acrescenta Filipa.

O JN tentou, ao longo do dia, obter uma reação da Delegada de Saúde de Santarém, do Ministério Público e do Delegado Regional de Saúde Pública, mas sem sucesso.

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