Mau tempo

Habitantes de Frades vão continuar fora da aldeia enquanto houver "ameaça real"

Habitantes de Frades vão continuar fora da aldeia enquanto houver "ameaça real"

Os habitantes do Lugar de Frades, em Arcos de Valdevez, que, ma sexta-feira, tiveram de abandonar as suas habitações por prevenção, vão continuar, pelo menos, mais um dia fora de casa. A depressão "Fabien" chega, esta noite, a Portugal.

A decisão foi tomada este sábado pela Comissão Municipal de Proteção Civil, face a "ameaça real" de um deslizamento de terras, semelhante ao que ocorreu em 7 dezembro de 2000 naquela aldeia.

E do qual resultaram quatro mortes. "Hoje não há condições nenhumas para as pessoas irem para casa. Se me perguntam, amanhã haverá? Não faço ideia, tudo depende muito da quantidade de água", declarou o presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, João Esteves, afirmando: "Os habitantes ficarão fora da aldeia enquanto os especialistas disserem que os valores de precipitação podem por em causa o lugar". Segundo o autarca a previsão de melhorias no estado do tempo, pode ser favorável ao regresso em breve. "Passarem o Natal em casa, seria ótimo", comentou.

Vinte e seis pessoas estão instaladas numa unidade hoteleira da vila de Arcos de Valdevez, e uma outra acamada, foi para uma família de acolhimento.

Silvério Rodrigues, 82 anos, resistiu a deixar a sua habitação. "Fiquei revoltado. Não foi com muita vontade que saí de lá. Custou-me a deixar a minha casa", diz.

Ex-emigrante em França, este habitante foi mesmo dos que mais resistiram à evacuação do Lugar, apesar da tragédia de 2000 lhe ter tocado na pele. "Há 19 anos fiz o trajeto de Frades para a morgue para reconhecer os mortos que lá se deram. Eram quatro pessoas da minha família: uma irmã da minha mulher, o marido, um tio dela e uma prima. Foi uma catástrofe", conta.

Recorda onde estava na tarde em que a enxurrada de terra e pedras veio monte abaixo. "Estava a trabalhar no campo. Ouvi um barulho. Parecia um [avião] Concorde", lembra.

Está inquieto por regressar: "Mais uma noite fico, mas mais não. Não acredito que aconteça alguma coisa. Pode acontecer noutro sítio, mas no mesmo não acredito".

Quem também não crê numa nova tragédia é Maria Sousa de 76 anos, que teve de deixar a habitação juntamente com o seu companheiro Manuel da Mó de 86. "Custou-me um bocadinho sair, porque para mim aquilo [deslizamento de terras] não vem, nem vai vir", comenta ao JN.

A mulher recorda que "andava fora do lugar a vender peixe e carne que trazia de Espanha", quando por volta das 16 horas, ouviu um carro de Bombeiros.

Quando chegou a Frades, deparou-se com o caos. "Foi medonho. Aquilo deu na televisão, mas não se via metade do que foi. Só quem esteve à beira", comenta.

"Perdi uma tia da minha nora mais velha e o marido dela, que andava numa garagem a encher batatas e veio na derrocada por ali abaixo. Veio parar ao meu barracão. O corpo só apareceu dali a três ou quatro dias", acrescenta ao JN.

Maria Sousa lembra ainda que duas das vítimas, "Bertina" e "Maria", eram amigas e todos os dias tomavam café, alternadamente em cada uma da outra. Foram apanhadas à mesa pela enxurrada.

O pai de uma delas, António, também, quando estava no quarto. Manuel da Mó recorda: "Eu estava em casa e aquilo passou ao lado para aí uns cinquenta metros. Lama e pedras, aquilo era o diabo".

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