Covid-19

Misericórdias e autarquias do Alto Minho revoltadas com falta de ajuda em lares

Misericórdias e autarquias do Alto Minho revoltadas com falta de ajuda em lares

As autoridades de saúde foram esta sexta-feira acusadas de "abandono" de infetados em lares do Alto Minho, que não possuem recursos para os tratar.

.O Presidente da Câmara de Arcos de Valdevez, João Esteves, foi uma das vozes que fizeram eco da revolta, por causa de um lar em Grade, naquele concelho, onde o número de casos positivos subiu para 14 e já se registaram três óbitos.

"Responsabilizo o Delegado de Saúde e a Unidade Local de Saúde do Alto Minho pelo que está a acontecer. Estão a colocar em risco os utentes e os funcionários dos lares", disse, acusando as autoridades de saúde de impedirem a evacuação dos infetados daquele lar para um hospital de retaguarda criado numa antiga enfermaria do Centro de Saúde local, para evitar mais contágios e até mortes.

"Estamos desde o início da semana a pedir, mas não temos nenhuma resposta. O Lar de Grade aumentou o número de positivos e não tem condições de tratar estas pessoas, nem recursos humanos, nem conhecimentos", afirmou João Esteves, considerando "uma necessidade urgente transferir os infetados para hospitais de retaguarda".

"Nos Arcos de Valdevez temos um, mas pode ser para outro qualquer. E se não têm médicos, então transfiram os casos positivos para o hospital, antes que ponham em risco outros utentes e os colaboradores", defendeu o autarca. "Não podemos transformar os lares em sítios onde as pessoas podem morrer", reclama.

Também esta sexta-feira, em declarações à RTP, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Arcos de Valdevez, Francisco Araújo, teceu duras críticas à autoridade de saúde, após ter recusado que dois idosos infetados regressassem do hospital para um lar daquela instituição.

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"As IPSS não são hospitais, não têm nem profissionais nem equipamentos para tratar estes doentes", declarou. A Misericórdia de Arcos de Valdevez acolhe nas suas valências (lar e unidades de Cuidados Continuados e de Longa Duração) um total de 308 utentes e 317 funcionários. Até agora foram detetados dois casos, que continuam internados no hospital da ULSAM em Viana do Castelo.

"Comportamento criminoso"

Também esta sexta-feira, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, Jorge Ribeiro, acusou a autoridade de saúde de "comportamento criminoso" ao deixar um lar daquela instituição, onde já morreram dois idosos e há 19 infetados, entregue a si próprio.

Num e-mail dirigido à Direção-Geral de Saúde (DGC) e à Unidade Local de Saúde do Alto Minho (ULSAM) e ao Delegado de Saúde do Alto Minho, aquele responsável descreve um episódio em que "o INEM se recusou a fazer o transporte de dois utentes, ambos com febre à vários dias e imunidade muito baixa, dizendo que não reuniam critérios, pelo que tiveram que permanecer aos cuidados do Lar".

Refere que a equipa de saúde do lar "se resume neste momento a uma enfermeira", depois de ter perdido o apoio da única médica ao serviço, que recebeu indicação de "superiores hierárquicos, de que não podia continuar a prestar serviços presenciais no lar, por haver infetados". Esta sexta-feira, o lar contava 12 utentes e sete colaboradores com resultado positivo para Covid-19.

"Classificamos este comportamento da saúde de criminoso, abandonando as pessoas, utentes e colaboradores à sua sorte, não dando o apoio a que estão obrigados e usando de mecanismos inaceitáveis para nos retirar os nossos profissionais da saúde", acusa o Provedor Jorge Ribeiro no e-mail.

"A verdade é que mais que completamente abandonados pelos serviços de saúde, estamos, neste momento, a lutar contra os seus representantes, contra as decisões impensadas e criminosas dessas pessoas".

Também a Provedora da Santa Misericórdia de Viana do Castelo, Luísa Novo, recusou admitir o regresso às instalações de uma idosa infetada que se encontra internada no hospital de Viana do Castelo. O Lar de Santiago pertencente à Misericórdia registou um óbito e tem três casos confirmados de Covid-19. Acolhe 50 utentes e debate-se com falta de pessoal e de recursos.

"Temos todo o pessoal de quarentena, fechamos a cozinha, e estamos a funcionar com apenas quatro funcionárias e um enfermeiro", disse Luísa Novo, apelando à colaboração de voluntários e informando que a instituição está disposta a contratar ajudantes de lar, auxiliares de serviços gerais, e pessoal de cozinha e lavandaria. "Não estamos a olhar a despesa para salvar os nossos utentes", afirmou.

A Comissão Municipal de Proteção Civil de Viana do Castelo informou entretanto que "foi ativado o protocolo da bolsa de recursos humanos, estando em fase de admissão voluntários para suprir as necessidades atuais" do Lar de Santiago. E que passou a "fornecer as refeições a esta instituição durante o período em que existirem dificuldades" naquela valência.

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