Reportagem

Cartucho, o "pirata" da Ínsua de Caminha

Cartucho, o "pirata" da Ínsua de Caminha

Ilhéu no mar em frente a Moledo foi habitado por duas famílias quando tinha faroleiro. Antigo habitante é pescador e hoje transporta gente para o forte que será transformado em hotel.

João Paulo Porto, 59 anos (feitos na sexta-feira), pescador de Caminha, tem uma caveira tatuada de forma rudimentar no braço desde os oito. É a mesma que ostentam António, um dos seus 10 irmãos e a sua sobrinha Zeza, feita na mesma altura, por influência de um vizinho emigrante na Alemanha, para assinalar que "pertenciam aos piratas".

Hoje, João Paulo, que em criança também ganhou a alcunha de "Cartucho", por ter o hábito de estourar os cartuchos que chegavam da mercearia depois da mãe os esvaziar, diz-se o "pirata da Ínsua". É uma alusão ao ilhéu no mar em frente a Moledo, onde viveu parte da infância e juventude com os pais e irmãos, juntamente com a família do antigo faroleiro. E a que chama "casa".

"Já vou à Ínsua há 52 anos. Praticamente nasci lá. Os meus irmãos trabalhavam na pesca com o falecido Viriato, que era o faroleiro, e íamos todos para lá no verão. Era uma vida formidável. Muito bonita", recorda o pescador que agora trabalha como guia de táxi-mar (embarcação) a passar peregrinos de Caminha para a Galiza e visitantes para a Ínsua.

De bigode espesso e escuro, inspirado na "bigodaça" do falecido pai "Tomás da Nica", tem a pele tisnada pelo sol, das andanças no rio e no mar. E conversa sempre pronta (e bem humorada) para quem com ele navega nas águas que tão bem conhece.

"Os piratas usam bigode. Aqueles que tem espada, usam assim um fininho, mas se não usam, uso eu porque eu sou o pirata da Ínsua e como eu não há nenhum", brincou ao desembarcar com a reportagem do JN, no areal branco, atapetado por milhares de cascas de mexilhão secas, que rodeia o forte.

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Em breve, o monumento será transformado, pelo promotor DiverLanhoso, em hotel de luxo, num investimento de 6,5 milhões de euros), e "o pirata" gosta da ideia. "É uma mais-valia. Mais vale do que estar como está, ao abandono. Um hotel quatro estrelas no meio do mar, numa ilha, vai ser bom para Caminha. Espero é que não modifiquem nada. Acho que não, senão fazia uma manifestação e não havia hotel nenhum", afirmou.

No interior do forte, mostra a casa em ruína onde foi feliz. "É pequenina. Dormiamos quatro numa casa. Dois aos pés e dois à cabeceira. E as minhas irmãs separadas, por cortina. Éramos uma família pobre, mas muito unida e humilde", contou, referindo: "Não sei se a palavra felicidade chega para descrever a nossa vida aqui. Isto era maravilhoso e hoje ainda é".

Fala do silêncio e da paz, do ar puro, dos passarinhos, das gaivotas, dos corvos marinhos, e dos mergulhos no mar na zona das camboas. "Isto dá vida às pessoas. É um encanto. Não vejo coisa mais bonita e olhe que já corri mundo", conclui.

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