Monção

Criança de cinco anos precisa de voluntários para brincar

Criança de cinco anos precisa de voluntários para brincar

Um jovem casal residente em Monção quer retirar filho de cinco anos do autismo através de um método inovador francês, que implica oito horas de brincadeira diária sem parar com a ajuda de voluntários. Pais acreditam que o menino vai atingir autonomia suficiente para "fazer uma vida normal".

A população de Monção já se habituou a ver, espalhados pelos cafés e vários locais públicos, panfletos com o rosto de Marco Menier  a pedir voluntários para com ele brincar como forma de o ajudar a superar a sua condição de autista. Pede-se que numa sala de jogos instalada numa casa na freguesia de Lapela, com brinquedos de todo o tipo, desde uma gigante bola amarela a um baloiço preso no tecto, cada pessoa brinque durante pelo menos uma hora por semana com o menino autista com problemas de comunicação e sociabilidade.

A terapia designada 3I (Intensivo, Interactivo e Individual), desenvolvida e aplicada com sucesso a uma criança francesa pela sua avó, uma professora reformada, foi a forma encontrada pelo casal Cristina e Jean-Marc Menierpara "lutar" pela recuperação do seu filho. 

Os apelos que começaram a ser emitidos há um ano e meio ainda não surtiram totalmente efeito. "O método para funcionar tem de ser bem aplicado e um dos requisitos é ser intensivo, o que significa que precisamos de voluntários. À parte de não os termos em número suficiente, as pessoas têm necessidade de faltar muitas vezes, e isso reduz bastante a estimulação que o Marco deveria ter na salinha de jogo", queixa-se a mãe.

Cristina e Jean-Marc Menier, ela uma portuguesa filha de emigrantes em França e ele francês de nascença, viram o mundo desabar-lhes sobre a cabeça quando ao primeiro filho, na altura com 18 meses, lhe foi diagnosticado autismo. "Só eu e o pai é que podíamos estar com ele, rejeitava o carinho dos avós e dos tios, começou a isolar-se,  deixou de dizer algumas palavras que já dizia e a pouco e pouco os sintomas foram sendo mais.

Quando descobrimos foi um choque", lembra Cristina, contando que depois de ultrapassada a fase de digerir a realidade, o passo foi "tentar encontrar uma solução e andar para a frente". Por indicação da mãe de Jean-Marc o casal descobriu na Internet o 3I e decidiu colocá-lo em prática. Foram a França fazer formação e começou então a busca de voluntários. "Cheguei a estar dois fins-de-semana inteiros à porta do Pingo Doce a distribuir panfletos. Consegui zero voluntários. Mas não desistimos", refere a mãe.

O Marco foi retirado da escola e à "casa de madeira", como é conhecida em Lapela a habitação dos Menier, começaram a chegar "ajudantes de brincadeira", inicialmente "30 e tal". O entra e sai de gente mantém-se até hoje, com uns insuficientes 27 "brincalhões". "Conseguir voluntários é a chave fundamental, porque quantas mais horas o Marco for estimulado e não estiver no vazio melhor", explica Cristina. O pai completa, referindo que para realizar as oito horas de brincadeira por dia, excepto ao domingo, em que os jogos com Marco duram apenas cerca de três horas, tem aparecido ainda assim gente disposta a ajudar. "Aparecem voluntários de todo o tipo, professores, desempregados, estudantes, engenheiros, temos uma pessoa de 12 anos e  reformados com mais de 70 anos", diz Jean.

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Catarina Teixeira, uma estudante de 17 anos, acaba de concluir uma "trabalhosa" sessão com o menino na sala de jogos e vem hoje mais satisfeita que o habitual porque conseguiu que o Marco a tentasse imitar lançando bolas de sabão. "Os autistas normalmente não imitam e hoje ele tentou imitar-me", conta a jovem, que após os seus 60 minutos de brincadeira escreve num caderno o relatório da sessão.

A antiga educadora de Marco, Celine Gonçalves, com 29 anos, que inicialmente resistiu à saída da criança da escola, mas que entretanto se converteu ao voluntariado para o ajudar, faz hoje uma avaliação positiva da acção tomada pelos pais. "Ele na escola era uma criança e aqui é outra totalmente diferente. Não tem nada a ver. Olha para nós, observa-nos, brinca, interage e aceita-nos, o que é mais importante", afirma, comentando: "No principio não aceitei muito bem. Fiquei triste porque me tiraram o meu menino, mas hoje estou completamente rendida ao método".
A mão esclarece: "Os autistas não conseguem olhar alguém por muito tempo e por isso não imitam. O 3 I é para eles não desenvolverem o mundo paralelo deles".

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