Valença

"Temos muitas saudades dos espanhóis. Que sejam bem-vindos e que venham com saúde"

"Temos muitas saudades dos espanhóis. Que sejam bem-vindos e que venham com saúde"

Contagem decrescente para a reabertura das fronteiras com Espanha. Logo às 23 horas portuguesas, será uma hora a mais no país vizinho, e já será possível entrar em Portugal. Os postos fronteiriços do lado de cá, só baixarão a guarda uma hora depois. Diferenças horárias à parte, o regresso da livre circulação de pessoas na raia, nunca foi tão desejada.

"Os comércios estão quase todos fechados à espera do espanhol. A maior parte só abre amanhã (hoje). Aqui é um centro turístico e sem as fronteiras abertas não temos movimento", disse ao Jornal de Notícias, Isabel Reis, proprietária do primeiro restaurante, à entrada da Fortaleza de Valença. Esta terça-feira a zona no interior das muralhas estava quase deserta e Isabel lavava com mangueira, o chão da sua esplanada, entusiasmada pela ideia de a ver encher nos próximos dias. "Temos muitas saudades dos espanhóis. Que sejam bem-vindos e que venham com saúde".

A escassas horas da reabertura das fronteiras, todo o comércio e restauração da cidade de Valença se preparou hoje para voltar a receber o seu maior e melhor cliente. Amanhã é dia de feira semanal. A Câmara Municipal até ligou um sistema de som, que animava com canções de baile espanholas, as ruas paradas da zona histórica.

"Aqui 99 por cento dos clientes são espanhóis. Estou aqui há 31 anos. Nunca houve uma crise assim. Abrimos no dia 4 de maio, mas não temos feito nada. Zero", lamentou Luís Dantas, proprietário de uma loja de vestuário.

Desde 16 de Março, que praticamente não entram clientes nas muralhas de Valença. Ali todo o comércio vive, há décadas, do consumidor vindo de Espanha. "Abrir para quê? Não havendo espanhóis, Valença para", comentou.João Guterres, que tem três lojas na Fortaleza. Todas fechadas. Ontem limpava uma delas, a sua garrafeira, para a reabrir esta quarta-feira.

Também Teresa Mota, proprietária de três restaurantes no interior da Fortaleza, que sempre se encheram de espanhóis ávidos de "'bacalao' (bacalhau), cozido e rojões", acabou de abrir apenas um deles. Hoje estava vazio. "Aqui é à base de espanhóis. Portugueses vem poucos. Estamos com esperança que com a abertura das fronteiras, isto anime mais", afirmou, recordando que, após "47 anos" a trabalhar na restauração com o marido, "nunca houve uma crise assim". "Foi sempre um bom negócio e sempre a crescer", lembra, comentando: "Isto é complicado. Ouve-se falar em estabelecimentos que já não voltam a abrir. Vamos ver como corre, mas se voltarem a fechar as fronteiras, fecha tudo".

Idalina Calheiros, dona de uma casa de têxtil lar com 29 anos de existência, lamenta o que passou nos últimos três meses, mas espera o melhor: "Nunca na minha vida esperei passar por esta crise, mas nunca podemos perder a esperança".