à mesa com //Isolete Matos Especialista avisa: "É errado ensinar às crianças que não se deve cortar uma árvore"

A amiga da floresta

Dói. "Os recursos do país são escassos. Mas temos as melhores condições de solo e clima para o desenvolvimento da floresta, um recurso renovável. Desde o Relatório Porter que temos um diagnóstico tão bem feito e não acontece nada". O desabafo, tingido de amargura, é de Isolete Matos, uma engenheira química que há mais de 40 anos vive e trabalha na fileira florestal.

Apesar de já se ter retirado da Celnorte (a primeira razão social da fábrica de papel de Viana que já deu pelo nome de Portucel e agora se chama Europac), Isolete nunca desistiu de lutar para que tiremos o valor económico da floresta.

Por isso, quando se retirou da Europac, após ter sido responsável internacional pelo negócio de papel do grupo, aceitou um lugar de administradora numa empresa da Sonae Indústria.

Filha de um comerciante têxtil e de um funcionária dos Correios, nasceu em Barcelos, onde estudou até ao 5.oº ano. Completou o liceu em Braga, no Sá de Miranda, e teve direito a figurar na capa do JN, por ter sido a melhor aluna do Secundário de todo país. Depois foi para Coimbra, onde viveu a Crise Académica de 69 enquanto fazia os anos preparatórios de Engenharia, curso que concluiria no Porto em 1971.

Por um daqueles acasos em que a vida é fértil, o seu futuro ficou decidido num dos últimos exames que fez na Rua dos Bragas. Antes de entregar o enunciado do teste de Organização e Gestão de Empresas, o prof. Couto Soares declarou estar disponível para receber candidaturas de finalistas que já tivessem a questão do serviço militar resolvida (a guerra colonial estava em curso) para uma fábrica de papel que ia abrir em Viana e de que ele era administrador.

Irreverente e senhora do seu nariz, Isolete resolveu implicar, perguntando ao professor se isso do serviço militar queria dizer que estavam excluídas as candidaturas de mulheres. Atrapalhado, ele respondeu que uma fábrica em laboração contínua não era o local de trabalho mais adequado a uma mulher. Ela insistiu, passando metade do exame a tentar convencer o professor das suas aptidões, até que ele, para a despachar, disse-lhe para aparecer e concorrer ao laboratório.

Ela apareceu, mas não para o laboratório. Apesar de estar grávida, conseguiu ser engenheira de processos. Foi sendo promovida até em 82 se tornar a primeira mulher diretora de produção de uma fábrica de papel em toda a Europa. "A partir dessa altura, foi só vantagens ser mulher e chamar-me Isolete", contou ela, que escolheu almoçarmos no Camelo, à distância de um tiro da fábrica onde trabalhou desde o arranque até há cerca de um ano.

Comeu como um passarinho, o que explica a sua magreza. Apenas debicou o cabritinho, molhou os lábios no vinho e deixou metade da rodela de ananás, enquanto contava que o nosso mal é não cuidarmos da floresta - 30% do nosso território estão ocupados por matas e terrenos incultos.

"Floresta bem cuidada arde menos", diz Isolete que aponta como pontos fracos o excesso de compartimentação da propriedade, a baixa percentagem de produtores florestais ("Através de incentivos e/ou penalizações, há que transformar os proprietários em gestores florestais") e a escassa diversidade.

De acordo com o último inventário florestal, entre 1985 e 2010 a mancha de eucalipto cresceu 140% e a de pinho diminuiu 43%. Apesar de não ser uma fundamentalista antieucalipto e de defender a valor económico desta espécie, Isolete não deixa de acentuar a importância de, através de regulamentação, o Estado garantir a biodiversidade da nossa floresta.

E, à despedida, foi avisando que é errado olhar para a floresta como um museu e ensinar às criancinhas que não se deve cortar as árvores: "Cuidar da floresta significa, plantar, cortar, usar e voltar a plantar. As árvores mais novas são as mais amigas do ambiente pois capturam carbono para crescer".

Camelo

Rua Stª Marta 119, Viana Castelo

2 couvert ................................... 1,80

Entradas .................................... 3,50 Cabritinho................................. 35,00

Águas ......................................... 1,95

Kopke tinto ............................. 19,00

2 ananás..................................... 5,80

2 cafés ......................................... 1,90

Total 68,95

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