Entrevista

"O cigano não é o monstro que dizem. Espero que um dia isso possa mudar"

"O cigano não é o monstro que dizem. Espero que um dia isso possa mudar"

Moisés Garcia e Diana Robalo participam num projeto-piloto de integração de minorias em Alvarães, Viana do Castelo.

Moisés Garcia, de 22 anos, e Diana Robalo, de 19, são rostos de esperança no coração de uma comunidade cigana tradicional em Darque, Viana do Castelo. Participam no projeto-piloto "INTEGRO" de inserção socioprofissional de minorias, que está a ser desenvolvido em nove localidades a nível nacional. Prestam serviço na creche e na escola primária da freguesia de Alvarães, em Viana. E os seus sonhos vão muito além do que o preconceito traça para muitos dos seus pares.

Moisés, filho de músico já falecido, sonha um dia fazer da música a sua vida. Recém-casado, luta, para já, por ter um emprego fixo para poder sustentar uma família. Diana não pensa em casamento. Anseia pela independência, ter um emprego e, mais tarde, sim, ter uma família construída com um homem escolhido por si própria.

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Moisés e Diana concordam: o tempo rompeu com algumas tradições ciganas, mas para a sociedade em geral "um cigano continua a ser cigano".

"Este tipo de programa [projeto-piloto de Alvarães] é muito importante. Há mais gente na nossa comunidade que gostava de ter uma oportunidade, só que ainda há muito racismo", diz Diana, defendendo que "o cigano é muito diferente do que as pessoas imaginam". "Não é o monstro que dizem. Há pessoas boas e pessoas más, como nos brancos, pretos, indianos. Espero que um dia isso possa mudar". Moisés completa: "Sou sincero. Acho que a sociedade nisso não mudou. O cigano é sempre o cigano".

Os dois jovens viram a sua atividade interrompida por causa da pandemia de covid-19, mas deverão retomar os postos de trabalho na próxima semana. Até abril de 2021.

Moisés Garcia sorri ao recordar o seu primeiro dia de trabalho na escola de Alvarães. "Lá não há homens e os miúdos não estão acostumados. E começaram a dizer 'é cigano, é cigano', mas passado uma semana já estavam todos abraçados a mim. Agora perguntam-me: 'vens trabalhar amanhã?'", descreve o jovem, que nunca tinha trabalhado. 2020 trouxe-lhe o começo da concretização dos sonhos. "Até agora não pensava muito bem no que queria fazer. Estudei até ao 9º ano e andava sem objetivos. Entretanto, comecei a trabalhar e casei com a minha mulher, que é de Guimarães, no mesmo mês", conta, acrescentando: "Aqui sinto-me bem. Feliz. Tomo conta dos miúdos, ajudo os mais pequenitos a comer. Gostava de continuar. Nunca me imaginei a trabalhar com crianças, mas sinto-me contente porque elas confiam e gostam muito de mim".

Diana Robalo tem o 6º ano. Conta que trabalhou oito meses na "apanha do frango" (recolher aves para camiões) num aviário em Aveiro, e que encontrou o seu destino em Alvarães. "Estou muito contente, porque adoro crianças. Vejo-me a trabalhar nisto no futuro. Quem me dera continuar. Ter a independência é muito bom". E conclui: "Sou solteira, graças da Deus. Um dia penso casar, mas não agora. Sou muito nova. Antigamente as mulheres eram obrigadas a casar com pessoas que não conheciam. A minha mãe casou com um homem que não conhecia. Não quero isso para mim".

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