Pandemia

Com o café encerrado, a Sobreira ficou sem o único local de convívio

Com o café encerrado, a Sobreira ficou sem o único local de convívio

Esta sexta-feira acordou cinzenta na pequena aldeia da Sobreira, no concelho de Murça, distrito de Vila Real. O cinzento das nuvens, a deixar cair alguma chuva, está mais carregado pelo estado de emergência em que o país mergulhou, por causa da Covid-19, e que obrigou a fechar o único dos três cafés que ainda resiste ao despovoamento galopante.

Encontrámos o gerente do café, Avelino Marques, em casa, com a mulher e os dois filhos, de 13 e 17 anos. "Tem de ser, não é? Todos temos de contribuir para que o vírus não se espalhe".

Mas Avelino ainda teve de passar pelo café, que gere há 11 anos, e foi à porta dele que o ouvimos desabafar sobre o "prejuízo" que vai ter. É a "renda que é preciso pagar aos proprietários da casa, a água, a luz, os fornecedores, a que se junta a falta de receitas".

A isto soma-se ainda a mágoa de ter encerrado o "único ponto de encontro e de convívio da aldeia", onde ainda resistem cerca de 100 almas, que vivem da vinha e do olival, na margem direita do rio Tua. "Era aqui que o pessoal se juntava ao fim do dia de trabalho na agricultura. Paravam para beber uma cerveja ou um café, mas também para trocarem impressões sobre os terrenos agrícolas, tratamentos, futebol, enfim..."

A obrigatoriedade de encerrar não foi uma surpresa para este sobreirense de 44 anos, também agricultor. Quando se começou a falar da doença Covid-19 e dos perigos associados, Avelino reduziu o horário de funcionamento do café. Apenas abria das 6.30 às 08, das 12.30 às 14 e das 19 às 20 horas. E só atendia os clientes na esplanada. "No início não perceberam bem a ideia, mas com o passar dos dias, e vendo o problema a agravar-se, começaram a aceitar", refere.

A justificação para tomar aquela medida não é novidade: "Tinha, e agora ainda tenho mais, receio deste vírus. Tenho família, não é?" O casal de filhos já está de "quarentena" há alguns dias, mas "não está de férias". Para além dos trabalhos que a escola lhes marca para fazer, têm ainda a vigilância e acompanhamento da mãe, que é professora".

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O estado de emergência dura 15 dias, mas Avelino Marques já está a futurar que "vai ser prorrogado", pois, "infelizmente, isto não vai ficar resolvido em tão pouco tempo". É "pena", porque falta pouco para a Páscoa, época em que muita gente regressa à aldeia para passar o fim de semana em família. Como tal, sinónimo de mais negócio. Avelino encolhe os ombros: "é pá, não dá, não dá. Paciência. Em primeiro lugar está a nossa saúde".

Com o café encerrado tem mais tempo para se dedicar aos terrenos agrícolas. "Pelo menos, ainda não fomos proibidos de ir para lá trabalhar". E, se por um lado, é preciso atender às necessidades da vinha, porque "esta não espera", passar umas horas no campo "sempre dá para espairecer".

Para os próximos tempos, que antevê tão cinzentos como a manhã desta sexta-feira, só espera que todos "entrem em quarentena para que isto passe o mais depressa possível". Nesta altura de crise "é um por todos e todos por um". "Se todos ajudarem, será mais fácil combater o vírus", conclui.

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