Viseu

João Cotta, o veterinário fiúza

João Cotta, o veterinário fiúza

Em miúdo, não tinha bem a certeza se, quando fosse grande, queria ser veterinário ou polícia sinaleiro. Fez bem em ter optado pela veterinária, não só porque a massificação dos semáforos tornou obsoleta a profissão de sinaleiro, mas também porque, se tivesse enveredado por uma carreira na polícia, muito provavelmente não chegaria a empresário e a presidente da Associação Empresarial da Região de Viseu (AIRV).

João Cotta, 51 anos, nasceu em Benguela, onde os pais eram professores (ele de História, ela de Química), e veio com 12 anos para Portugal para atravessar a adolescência entre Viseu - terra natal do pai , onde o avô era dono da famosa Camisaria Rebelo -, onde fez o 5.oº ano, e Lisboa, onde acabou o liceu e fez o curso de Medicina Veterinária.

Não teve dificuldade em arranjar emprego. O avô da camisaria era amigo do dono da garagem Lopes, que por sua vez era amigo do João Lacerda, do Caramulo. Um dia, na conversa, o Lacerda contou ao amigo da garagem que precisava de um veterinário para os aviários, ao que este lhe disse que, nem de propósito, o Rebelo da camisaria tinha um neto que estava a acabar o curso de Veterinária. Estávamos em 1985.

Demorou-se 14 anos pelo Caramulo, mas nos últimos quatro anos a cabeça dele já não estava nos aviários. "Cheguei à direção técnica com 30 anos. Já não tinha margem de progressão na empresa. Sempre quis uma coisa minha. E apercebi-me de uma tendência forte para o reforço do controlo de segurança alimentar", conta João, explicando a sua fuga às galinhas e a aposta na criação de um laboratório.

Tinha 37 anos e três filhos quando, com a ajuda de dois sócios (Ana Martinho e Rui Sereno), também veterinários, investiu meio milhão de euros na Controlvet, em Tondela (o concelho mais industrial de Viseu), que iniciou a atividade com o novo milénio nas áreas de segurança alimentar, saúde animal e controlo ambiental.

No início, houve quem torcesse o nariz e classificasse o projeto como megalómano. Não tinham razão. A Controlvet é hoje uma pequena multinacional, com 105 trabalhadores, entre Tondela, Madrid, Poznan e Nampula (Luanda vem a seguir), com uma carteira de clientes de luxo (Continente, Pingo Doce, Ibersol......) e uma faturação consolidada de cinco milhões de euros.

Escolheu almoçarmos no Joaninha, um self-service que fica do outro lado na estrada da Controlvet, na Zona Industrial de Tondela, onde, apesar da caloraça, não dispensou a sopa a abrir uma refeição em que empurrou com uma Super Bock a salada de feijão frade com atum. E aproveitou a oportunidade para pôr o chapéu de presidente da AIRV e dar ao Sr. Joaquim, dono do Joaninha (a filha chama-se Joana), a boa notícia de que tinha sido aprovado o financiamento do investimento na ampliação da sua fábrica de pastelaria.

"A formação e o empreendedorismo são as nossas aposta fundamentais. Foi por isso que criámos a Escola de Estudos Avançados, com o apoio da Católica e do Politécnico. É por isso que temos uma incubadora nas instalações da associação e instituímos um prémio de inovação e empreendedorismo", afirma João, há oito anos presidente da AIRV, associação que reúne 800 associados, desde a Visabeira à PSA de Mangualde, passando pela Fresenius e Huf.

Melhorar a ligação a Coimbra ("O IP3 é horrível, tem de ser alargado, de ter duas faixas de faixas de cada lado") e fazer a linha férrea Aveiro-Salamanca, com paragem em Viseu, são as maiores reivindicações de João, que desde abril é também presidente da Conselho Empresarial da Região de Viseu, formado pela AIRV e Associação Comercial, e que vale 80% do PIB regional.

Mas a formação é a sua menina dos olhos. Por isso, defende a conversão do Politécnico de Viseu em Universidade Politécnica de Ciências Aplicadas, mais virada para o lado prático do conhecimento. "A oferta de ensino superior é fundamental para fixar pessoas. E, do ponto de vista cultural, a palavra universidade em Portugal ainda é muito importante", conclui este veterinário que encarou ser polícia sinaleiro.