Em cerca de dez anos, uma aldeia de xisto de Penafiel, condenada ao abandono, duplicou o número de habitantes. Reabilitação urbana e aposta na cultura fizeram de Quintandona um caso de sucesso.

Penafiel

Regeneração de Quintandona fixa jovens na aldeia de xisto

Regeneração de Quintandona fixa jovens na aldeia de xisto

Em cerca de dez anos, uma aldeia de xisto de Penafiel, condenada ao abandono, duplicou o número de habitantes. Reabilitação urbana e aposta na cultura fizeram de Quintandona um caso de sucesso.

Camila nasceu há apenas quatro meses. É o primeiro filho de Ana Leão e Pedro Barbosa, casal de cerca de 30 anos que reabilitou uma casa de família construída em 1875, com paredes em xisto. Camila é também o mais recente habitante da aldeia de Quintandona e o símbolo maior de uma regeneração que transfigurou por completo este pequeno paraíso entre vales e montanhas de Lagares, em Penafiel, e à distância de uma viagem de 30 minutos desde o Porto.

Veja aqui as imagens do pequeno paraíso de Quintandona

Camila, desejam os pais, vai crescer a correr pelas estreitas e sinuosas ruas desta aldeia preservada. Mas, contrariamente ao que se temia há cerca de uma década, não vai fazê-lo sozinha. Muito provavelmente terá a companhia de Julieta e Constança, gémeas de 24 meses e filhas de Cláudia Moreira, advogada de 37 anos, que também optou por radicar-se num local que, em pouco mais de dez anos, viu a sua população duplicar e a idade média dos seus habitantes reduzir para metade.

"Tínhamos 40 pessoas a viver na aldeia e hoje são 80. Antigamente, quase todos os habitantes tinham mais de 60 anos e agora há muitos casais com cerca de 30 anos e cada vez mais crianças", revela Belmiro Barbosa, antigo presidente da Junta de Freguesia de Lagares e Figueira.

Motivo para esta espécie de milagre geracional? A aposta em programas comunitários que financiaram a recuperação de 25 casas degradadas, ruas, muros e a construção de uma rede de saneamento, de água e telecomunicações. "Concorremos a três programas comunitários, o primeiro em 2003, que suportaram 50% dos custos que os privados tiveram com as obras de reabilitação das habitações e 100% do investimento feito no espaço público. Houve um investimento global a rondar os 500 mil euros", explica o ex-autarca. A reabilitação urbana continua a ser feita com recurso ao Portugal 2020.

Aposta cultural foi crucial

Porém, outro fator revelou-se fundamental. "Quando se concluiu a recuperação material da aldeia ficou a faltar uma âncora cultural para que esta não se tornasse um elefante branco. Os ComoDEantes vieram colmatar essa falha e conseguiu-se aliar a reabilitação física à recuperação cultural", garante Rui Lobo, presidente do grupo de teatro constituído por habitantes locais, sediado em Quintandona há 12 anos, que deu origem ao Centro Cultural Casa do Xiné. As duas entidades são a força motriz da Festa do Caldo, evento que deu fama e glória à aldeia.

Pedro Soares, um dos mentores dos ComoDEantes e da alma de Quintandona, é dos muitos exemplos do sucesso da simbiose entre cultura e reabilitação urbana, que tornou esta aldeia outrora abandonada, num dos locais mais procurados do concelho de Penafiel e de toda a região do Vale do Sousa. Este professor de teatro, a esposa Virgínia e os três filhos residem numa casa que já albergou várias gerações da família e sofreu uma transformação impressionante.

"A recuperação de Quintandona permitiu a criação de 20 postos de trabalho. E vamos arrancar com a construção do Centro de Acolhimento Rural-Pedagógico na Casa do Amásio, onde grupos de jovens realizarão workshops sobre artes e tradições", anuncia Belmiro Barbosa.

Turistas nacionais e estrangeiros dinamizam economia local

Paulo Sousa, 39 anos, foi o primeiro e dos únicos a concretizar um projeto empresarial em Quintandona, em 2013. "Fiquei fascinado com a recuperação da aldeia e pensei que seria giro criar um espaço de vinhos com um conceito de tapas", recorda. Assim se fez a "aposta ganha" no Wine Bar Casa da Viúva, que já cresceu em funcionários e espaço, para dar resposta à clientela local e aos turistas.

Bruno Melo, 24 anos, também acolhe muitos "espanhóis e franceses" na Vizinha da Viúva, casa de turismo rural inaugurada há dois anos. Além deste alojamento, há um hotel na aldeia.

"Andei à procura de uma aldeia de xisto perto do Porto, encontrei Quintandona e vim visitá-la. Está muito gira, bem tratada", elogia a visitante do sul Glória Macedo que, porém, pede "mais animação" num próximo passeio.

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