Economia

REPORTAGEM: EUA mantêm-se como maior parceiro de combate à sida em Moçambique em 2018

REPORTAGEM: EUA mantêm-se como maior parceiro de combate à sida em Moçambique em 2018

Maputo, 31 (Lusa) - Angelina Guanaes Goa, 60 anos, nunca foi médica, mas na sua terra está na linha da frente do combate a uma das principais epidemias de Moçambique, uma doença em que "nem todas as pessoas acreditam".

Na vila da Namaacha, sul do país, a sida ainda é bruxaria, praga rogada por pessoas com más intenções, assunto tabu que Angelina esclarece, para levar conterrâneos ao teste diagnóstico.

"Sou uma das pessoas que faz tratamento, desde 2007. Estou aqui a tomar os meus comprimidos e a seguir o que o médico diz", refere, tornando num exemplo a forma como encara a sua condição de seropositiva.

O trabalho de Angelina é apoiado pelo maior doador de Moçambique para combate à sida, os Estados Unidos da América: para o ano fiscal que cobre 2018 está previsto um investimento de 400 milhões de dólares no âmbito do Programa do Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Sida (PEPFAR).

O dinheiro vai para um leque alargado organizações não-governamentais (ONG), como a Fundação Ariel Glaser, na Namaacha, envolvidas com as comunidades e cuidados clínicos, assim como também para a aquisição de medicamentos antirretrovirais, instalação e funcionamento de laboratórios de alta tecnologia e muito mais.

Um leque de ações que se enquadra na estratégia '90-90-90' definida pelas Nações Unidas: até 2020 ter 90% da população com HIV diagnosticada, 90% destas em tratamento e 90% deste grupo a alcançar a supressão viral - ou seja, virtualmente incapazes de propagar a doença.

Francisco Mbofana, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate ao HIV/sida, refere que "há progressos", mas também reconhece que Moçambique ainda está longe de alcançar qualquer um dos '90'.

Aquele responsável estima que 50% a 56% da população com HIV conheça hoje o seu diagnóstico, que o tratamento antirretroviral chegue a 60% das pessoas infetadas e, embora haja poucos dados, que menos de 40% destes tenha alcançado a supressão viral.

O apoio do PEPFAR é o maior a nível unilateral que o país recebe para atacar o HIV, sublinha, logo com um papel decisivo, depois de a doença ter vitimado 62 mil pessoas em 2016 - a sida é a principal causa de morte entre os adultos em idade economicamente ativa em Moçambique.

Há cerca de 1,9 milhões de pessoas a viver com HIV no país, ou seja, um em cada oito adultos.

"Temos uma janela de tempo limitada", alerta Alfredo Vergara, diretor residente do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC, sigla inglesa) dos EUA em Moçambique.

"Com o crescimento da população, que é tão acelerado em Moçambique, se não conseguirmos conter a epidemia até 2022 ela pode aumentar de forma tão agressiva que será impossível de financiar para o país e para o Governo dos EUA", realça.

A taxa de fertilidade está acima de seis crianças por mulher, é das mais altas de África, e a incidência da sida ainda não está a descer, apesar de o número de novas infeções ter caído de 120 mil em 2010 para 83 mil.

Através do PEPFAR, o objetivo é que em 2018 sejam registadas 375.000 pessoas com o HIV nos serviços de cuidados e tratamento - ou seja, ter 1,2 milhões de moçambicanos infetados em tratamento.

Os apoios têm se traduzido em mais meios para alcançar esta meta: ativistas como Angelina, da Associação Tiane, na Namaacha, recebem informação periódica sobre quem devem ir procurar a casa, a partir de bases de dados de doentes que passaram a ser criadas nas unidades sanitárias.

No centro de saúde de Ndlavela, na cidade da Matola, às portas de Maputo, o seguimento dos pacientes em tratamento até já é feito com uma aplicação chamada Infomóvel, uma plataforma que mostra aos conselheiros que andam no terreno com um tablet, o que há a fazer com cada doente.

Sejam como for, "o trabalho não é fácil" refere Dulce Palma, médica de clínica geral na Ndlavela, porque a pobreza faz com que surjam obstáculos inesperados, como pacientes que deixam de tomar medicação por não terem dinheiro para a comida.

"Muitas vezes, quando uma pessoa começa a tomar os comprimidos, eles estimulam o apetite" e "muitos pacientes abandonam [o tratamento] porque não têm comida", o que obriga o médico a procurar apoios sociais e outras ajudas.

Devido aos conflitos armados e à pobreza, "em comparação com outros países da região, a resposta de Moçambique ao HIV/sida foi adiada pelo menos em 10 anos", refere Alfredo Vergara.

"O país tem progredido muito, tem desenvolvido a capacidade laboratorial e de diagnóstico, mas ainda há muito por fazer", pelo que outra fatia do apoio norte-americano vai para a instalação de laboratórios, uns nas unidades sanitárias para testagem rápida de HIV, outros, com tecnologia de ponta.

Um laboratório de biologia molecular para medir a carga viral foi instalado no Hospital da Machava, Maputo, um dos poucos do género no país, com pessoal treinado de maneira a medir o terceiro '90' da estratégia de combate à sida.

Existem pelo menos 11 laboratórios de referência que fazem testes de carga viral apoiados pelo PEPFAR no país, nas províncias de Nampula, Quelimane, Sofala, Gaza, Maputo Cidade e Maputo Província - processam amostras de todo o país e têm atualmente uma capacidade instalada de 672 mil testes por ano.

"O compromisso dos EUA é global", realça Dean Pittman, embaixador dos EUA em Moçambique, que minimiza a influência da presença de empresas privadas em Moçambique na hora de decidir distribuir apoios para combate à sida.

No país lusófono à beira do Índico, o financiamento para debelar o HIV remonta a 2004 e ascende a cerca de três mil milhões de dólares, sublinha.

"O objetivo é ter uma geração livre de HIV sida", refere Pittman.

"Nós queremos parceiros fortes e saudáveis. Queremos ver um Moçambique saudável e com sucesso", acrescenta.

"Eu bem sei que o Orçamento de Estado de Moçambique é muito apertado, mas para [o apoio do PEPFAR] ser um sucesso, o nosso parceiro tem que fazer a sua parte", refere o diplomata, que faz um pedido.

"Queremos que o Governo faça, sem dúvida, da área da saúde, uma prioridade do Orçamento de Estado. Está a fazer, mas tem que continuar", sublinhou