Entrevista

Paula Moura Pinheiro: 'Espero que o Câmara Clara me sobreviva'

Paula Moura Pinheiro: 'Espero que o Câmara Clara me sobreviva'

Paula Moura Pinheiro celebra o terceiro ano à frente do "Câmara Clara". Entende a preferência das pessoas por novelas como escape à pouca qualidade de vida 

Prestes a completar três anos de carreira televisiva este mês, o "Câmara Clara" é, impreterivelmente, associado ao rosto que o conduz: Paula Moura Pinheiro. Como o nome do programa, que ocupa os serões da RTP2 indica, o propósito é tornar a opacidade, transparente, o que se ilustra num cuidado em democratizar a cultura. Alternativo, mas não orgulhosamente só, pretende chegar a todos, de múltiplas formas, sem falsos despretensiosismos. Depois do site renovado que serve esse intento, preparam-se novidades na dinâmica do formato, não tendo sido, todavia, desveladas.

Que balanço faz desta ainda curta vida?

Num país em que 71 % da população empregada tem apenas o ensino básico ou menos, num país que tem ainda tanto para andar sob o ponto de vista da alfabetização funcional, ter conseguido fixar uma média de 100 mil espectadores por semana num programa como o Câmara Clara só pode ser lido como gratificante.

Considera que o formato é olhado enquanto elitista por tratar de cultura?

É tudo relativo. As percepções nem sempre coincidem com a realidade. O que acontece é que é muito difícil fazer passar a ideia de que a literatura, a pintura, a História ou a Ciência são matérias potencialmente aliciantes para todos. Depende de como se tratam. E nós estamos apostados em falar claro para todos. Mas não podemos resolver a resistência endémica da maioria da população a estas matérias. É preciso não esquecer que em Portugal, durante séculos, até há 40 anos, ler era considerado ocioso, inútil. Este é um país onde se insultam as pessoas chamando-lhes poetas ou intelectuais.

Há um esforço para se democratizar temáticas inacessíveis?

Todo o nosso esforço, a que prefiro chamar investimento, é esse, um trabalho de tradução. Traduzir em linguagem corrente conhecimentos e ideias que tradicionalmente estavam circunscritos à academia, que só eram dominados por um punhado de gente esclarecida. Não há aqui qualquer condescendência ou cedência à facilidade. Traduzir bem exige conhecimento, para ir ao osso da coisa e a tornar luminosa. A minha maior alegria é quando entro num táxi e o motorista faz referência ao formato.

Entende o "Câmara Clara" como uma espécie de ilha plantada no deserto da escassez de conteúdos do género?

Acho que no que toca a produção cultural, Portugal é hoje um país muito mais interessante, activo, rico do que os órgãos de informação nos dizem que é. O "Câmara Clara" é uma das poucas ilhas, sim. E não é por acaso que está no segundo canal da estação pública: porque aqui somos obrigados a dar cobertura a esta dimensão da actividade nacional e regemo-nos por critérios que não são mercantis, mas de serviço público. Onde imperam critérios estritamente financeiros, que é o que acontece na esmagadora maioria dos média, não há lugar para um programa que "só" fala com cem mil pessoas.

Deveria haver uma aposta por parte dos outros canais em produções que abarquem matérias culturais?

Repare, há muitas formas de promover o conhecimento e o pensamento. Uma boa série ou um bom filme de ficção, bem escritos, bem realizados, fazem-no. Os documentários, até os da National Geographic, fazem-no. Portanto, se fizermos esta leitura mais abrangente do que é "cultura", veremos que há, sobretudo na estação pública de televisão, muitos momentos em que se está a "puxar" pelas pessoas.

O facto de o programa exigir reflexão desincentiva os espectadores?

A maioria das pessoas tem uma vida muito dura. Têm trabalhos onde não se sentem realizadas, ganham mal, levantam-se muito cedo para enfrentarem sistemas de transportes muito maus, chegam exaustos e insatisfeitos a casa. Nestas circunstâncias, acho perfeitamente normal que se prefira cair para dentro de "outra vida" que é o que propõe a ficção em geral e as telenovelas em particular. É uma tendência escapista.

O conteúdo tem a preocupação de ser eclético nos temas tratados?

Absolutamente. Temos uma ideia muito alargada do que são as ditas matérias "culturais". Tratamos desde as últimas evoluções tecnológicas e científicas na Astronomia aos espectáculos musicais, ao fado, passando, claro, pelas novidades e pelos grandes clássicos na literatura ou na arquitectura.

Nessa linha existe cuidado com uma componente pedagógica de formação.

Sim, mas evitando o mais possível o tom pedagógico, que seria insuportável em televisão. Somos muito rigorosos no que respeita à forma como seleccionamos e tratamos os temas, batemo-nos todas as semanas pelos melhores convidados, pelas melhores peças, pela informação e reflexão mais importante na matéria, mas depois, na execução, procuramos a clareza, a simplicidade e a boa-disposição.

É um projecto de nome próprio?

O Jorge Wemans, director da RTP2, foi quem quis que eu fizesse um programa com estas características. Tendo aceite o desafio, tive a liberdade para desenhar o formato e para formar a equipa. Nesse sentido, o "Câmara Clara" é, à partida, assinado por mim. Mas, francamente, espero que me sobreviva, porque é muito mais que eu. Conseguimos reunir uma massa crítica tão produtiva, tão aliciante que estou certa de que não precisa de mim para continuar.

Poderá haver o risco deste conteúdo seguir o curso análogo do "Acontece"?

O "Acontece" teve imensos méritos, serviu bem muita gente durante muito tempo. Nunca me esqueço de que estamos sempre de passagem. Sei que depois de nós outros virão. E que, provavelmente, até farão melhor. É reconfortante.