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Filipa Pato, a "boa rebelde" da Bairrada

Filipa Pato, a "boa rebelde" da Bairrada

Da Bairrada chega-nos a história de uma viticultora aventureira. Filha de Luís Pato, conhecido entre os enólogos mundiais como o "Mister Baga", por ser defensor desta casta da Bairrada, Filipa Pato decidiu seguir um rumo independente da família. Viajou, aprendeu com os melhores e regressou a Portugal para dar vida a uma carta de vinhos elegante que levam o "método de produção tradicional" da região até aos melhores restaurantes do mundo.

Se filho de peixe sabe nadar, filha de viticultor saberia certamente vindimar. E o provérbio aplica-se como uma luva no caso de Filipa Pato, a terceira geração de uma família produtora de grandes vinhos da região da Bairrada.

Mas esta enóloga não quis ir pelo caminho mais fácil. Agora, com 39 anos, reconhece que "se tivesse seguido os passos da família, provavelmente estaria a trabalhar hoje com o pai", mas neste caso a paixão própria e o desafio de aproveitar o potencial da região falaram mais alto.

Depois de cursar engenharia química, partiu numa diáspora à volta do mundo para aprender com os melhores enólogos de Bordéus, Argentina e Austrália onde ficou a conhecer as boas práticas na viticultura. Absorvidos os ensinamentos e as ideias para se lançar neste negócio, regressa a Portugal. O pai claramente recebeu-a de braços abertos mas teve de ser ela mesma a assumir a responsabilidade de seguir o seu caminho que escolheu.

Filipa Pato assegura que "a educação do pai foi rigorosa" e teve de aprender com dificuldades, não lhe deu nenhuma vinha. "Deu-me o nome que ajuda imenso, mas tive de começar do zero na investigação do local, tive de comprar uvas", mas assegura que "foi a forma de encontrar os melhores vinhedos."

E assim, com apenas 25 anos, começou a partir do zero, a aprender e a errar, pois "quando se erra para aprender não se volta a cometer o mesmo erro." Sofre-se com as consequências mas "torna-nos mais fortes, aprendemos e melhoramos." E assim, em 2005 produzia os primeiros 10 mil litros de vinho com o seu nome no rótulo.

Uma coleção de vinhos sem maquilhagem

Quando fala dos vinhos, Filipa Pato gosta de usar uma expressão que lhe é muito cara, diz que faz "vinhos sem maquilhagem". Uma ideia que reteve na Austrália, onde percebeu a importância da busca "da uva certa para cada local". E assim quis fazer.

Quando regressou a Portugal, reencontrou o "trabalho feito pelas gerações passadas". Não querendo romper com esse legado, foi à procura das vinhas velhas e "até hoje nunca plantou uma vinha", só trabalha com uvas nativas "que estão adaptadas à Bairrada há muito tempo e que têm essa mais valia de estarem adaptadas ao clima, ao solo ou à inclinação do terreno", factores decisivos que, acredita, estão por trás do sucesso dos vinhos que produz.

Atenta a todos os detalhes para fazer bem, Filipa Pato explica que o grande desafio é "trabalhar o vinhedo". É nele que investe 70% do tempo, porque "a uva baga é uma uva muito difícil de se trabalhar". Explica que é uma casta que foi sempre encarada como um problema mas que a família cedo encarou como a grande mais valia da região: "acarinhamos a baga como se fosse uma filha e é muito importante essa ligação à vinha porque é graças a ela que se consegue fazer qualidade". Garante que com uvas de qualidade, na adega "tudo se torna mais fácil" e como ela mesma diz "não é preciso maquilhá-la".

Crescer sem pressa

Neste momento o grande desafio é conseguir aumentar a área de vinha, para "fazer um pouco mais garrafas" e assim responder à procura de um mercado que, segundo Filipa, "tem sido uma ajuda no escoamento completo da produção". Aliás, existe até uma espécie de fila de espera para novos clientes, pois as cerca de 90 mil garrafas produzidas num ano, são comercializadas facilmente, 80% delas vendidas para o mercado internacional.

Aliás, hoje Filipa Pato afirma que "o prémio mais importante é estarmos em 32 restaurantes com estrelas Michelin em Londres". Além de entender que é "um reconhecimento para os vinhos ao mais alto nível", também acredita que assim se consegue "mostrar como funcionam bem" com refeiões de alto standard.

Claro está que desta forma Filipa vê-se forçada a reduzir a quantidade disponível para cada cliente, num momento em que os vinhos estão presentes em cada vez mais mercados. Por isso, a lei da oferta e da procura não se aplica de forma linear numa subida do valor de cada garrafa.

Neste caso Filipa segue os conselhos do marido, William Wouters, um Sommelier belga, que habituado a comprar e a recomendar os melhores vinhos para as iguarias servidas nos melhores restaurantes, sempre a alertou de que "é melhor ter o mercado na mão do que deixar de o ter" e por isso, qualquer subida de preços tem de ser gradual, "e não abrupta".

Em todo o caso a procura de vinhas mantém-se difícil, numa "região muito pequena, comparada com o Douro ou o Dão". Mas Filipa Pato garante que "a produção não é aumentada pelo mercado, mas pela disponibilidade de vinhas que gostamos e que queremos cuidar."

Investir no futuro

Num momento em que está em curso o alargamento de uma adega construída em 1880, Filipa Pato tem uma ideia muito precisa do que fazer no médio prazo. Nos próximos dez anos quer que "a baga seja não só reconhecida pelos grandes jornalistas internacionais como grande casta mundial, mas chegar também ao consumidor final" e seduzir os grandes entendedores e compradores de vinho do mundo.

Enquanto a ideia de uma "região demarcada" ainda não existe, Filipa Pato aposta tudo no network gerado pelo grupo "Baga Friends", uma associação de vários produtores locais de vinho que, segundo ela têm "a mesma visão para divulgar a região e a uva que dá mais carácter à Bairrada: a baga." Um trabalho que poderá induzir o desenvolvimento do sector, tornando-o mais convidativo para que - como esta enóloga deseja - "as próximas gerações possam optar também por este caminho".

Como fazer bem?

"Para fazer bem é preciso, em primeiro lugar aprender com os melhores. Depois aprender errando. Viajar para conhecer e fazer uma Network e depois unir para vencer."

> Carta de Vinhos Filipa Pato

>> 3B Blanc de Blancs (Bairrada, Baga, Bical) - Espumante Rosé

>> 3B Brut Nature

>> 3B Método Tradicional

>> FP Baga "Lost in Translation"

>> FP Bical & Arinto (mais bem sucedido nos restaurantes)

>> Nossa Calcário Branco

>> Nossa Calcário Tinto

>> Espírito de Baga

> Filipa Pato em Números

> Produção em 2013 - cerca de 80 000 garrafas

> Faturação 2013 - 350 000 euros

> Exportação - 70% da faturação

> Presente em 20 mercados: Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Taiwan, Singapura, Hong Kong.

> Área de produção - 29 hectares

> Funcionários - 4 funcionários

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