Notícias

Altis é a catedral das bicicletas desde 1950

Altis é a catedral das bicicletas desde 1950

Em 51 anos, a Altis importou, montou e vendeu milhares de bicicletas, muitas delas usadas por ícones como Joaquim Agostinho, Marco Chagas ou Manuel Cunha. Depois de seis Voltas a Portugal vencidas, a empresa continua com mãos firmes no guiador deste mercado.

Para quem gosta de bicicletas, visitar a Altis é como entrar numa loja de brinquedos ou numa grande catedral das duas rodas. É difícil resistir à tentação. Não falta por onde escolher: modelos de estrada, BTT, ou pasteleiras de design revivalista. São 13 mil referências de marcas reconhecidas em todo o mundo, representadas em exclusivo pela Altis para o mercado nacional. O nosso cicerone é Fernando Oliveira, 64 anos, orgulhoso responsável pela mais antiga loja de bicicletas do país.

O negócio nasceu em 1950 pela mão de Alfredo Baptista, antigo linotipista do "Jornal de Notícias". "De noite trabalhava na produção do jornal e durante o dia tinha tempo para vender equipamento para bicicletas".

Fernando tinha doze anos quando foi contratado por Alfredo Baptista. Foi o primeiro funcionário. "O salário acordado foram 150 escudos" mas o antigo patrão "deu-lhe 160 porque gostou do trabalho."

Em 1964 Alfredo Baptista faleceu num acidente rodoviário. "O filho - Fernando Baptista - estava no Ultramar, regressou e fez uma sociedade comigo." E foi assim que esta empresa dos "dois Fernandos" começou a pedalar com força no mercado nacional.

O negócio começou em duas salas na Praça General Humberto Delgado. Mas com o dinamismo dos dois sócios, cresceu ao ponto de em 1974 mudar-se para novas instalações na Avenida da Boavista onde ainda hoje tem as portas abertas.

Começou "primeiro com a comercialização de artigos nacionais e depois virámo-nos para a importação". Nesta viragem de estratégia Fernando Oliveira contactou com marcas míticas do universo do ciclismo como a italiana "Campagnolo" - líder na produção de componentes para bicicletas de corrida.

Empresas nacionais como a Vilar foram durante muito tempo fornecedores privilegiados de bicicletas que serviram gerações. Mas com tristeza, Fernando recorda a decadência dessa empresa: "Foram questões familiares. Não tiveram sucessores à altura."

A Órbita foi outra marca nacional à qual a Altis esteve ligada na representação e comercialização de bicicletas. Em Dezembro passado esta parceria chegou ao fim, dando lugar a uma parceria lusoibérica com a marca Weed - com fábrica de montagem em Portugal - e que vai permitir alimentar um sonho antigo: relançar as bicicletas de estrada de marca "Altis". Mas já lá vamos.

O admirável mundo das novas bicicletas

Em 60 anos as bicicletas mudaram muito. Fernando Oliveira recorda-se de ver os japoneses da Shimano "nas feiras de Milão e de Paris, a fotografar tudo quanto era bicicleta e acessório. Eles fotografavam tudo!"

E terá sido esse espírito de imitação aperfeiçoada que fez com que a Shimano se tornasse "a maternidade que alimenta as marcas de bicicleta do mundo!" Aliás, "no dia em que a Shimano quiser fechar fábricas de bicicleta, basta deixar de as fornecer".

Já os chineses convidaram "parceiros a irem ensinar-lhes a técnica". A lição foi bem estudada e hoje "China e Taiwan são os alimentadores das fábricas do mundo." "Os quadros vêm de lá" a preços mais acessíveis.

Nesta matéria a engenharia dos materiais permitiu uma revolução onde a fibra de carbono é rainha. "É revolucionário e será cada vez mais. O carbono vai ultrapassar o alumínio". Este material "tem cada vez mais um preço competitivo", é 30 a 40% mais caro, mas até 50% mais leve.

Nesta geografia da indústria de assemblagem de bicicletas, o segredo está em "ir à melhor fonte e beber da melhor água". Basicamente é preciso escolher os componentes tecnologicamente mais avançados e depois "as bicicletas são montadas cá e damos trabalho aos portugueses que fazem a montagem."

O advento das motorizadas

Nos anos sessenta, as motas começaram a ganhar popularidade. O Antigo Regime olhava para elas como "bicho mau", mas sentia-se uma "viragem" nos clientes retalhistas que começavam a vender motas ao lado das bicicletas.

A Altis não quis ficar de foras deste novo negócio. Foi comissionista da portuguesa Vilar, que além de bicicletas também produzia componentes para motorizadas, como "o aro que suporta o pneu, e os raios que integravam a roda e o cubo." A Altis "agenciava as peças da marca que eram facilmente absorvidas pelas unidades de montagem" de marcas como a SACH, Famel, ou a Casal.

Fernando Oliveira nunca chegou a comercializar motorizadas ao cliente final. Ainda hoje este segmento do negócio vale 20% da faturação. Vende óleo para motor, pastilhas de travão e equipamentos para o motociclista como o vestuário de proteção e os capacetes.

As pulseiras que vigiam o coração

Hoje é comum ver muitos corredores e ciclistas munidos de smartphones, e auriculares nos ouvidos. Estes dispositivos fazem muito mais do que tocar música e fazer chamadas. Monitorizam os quilómetros percorridos, calculam velocidades médias, as calorias gastas, ao mesmo tempo que registam trajetos facilmente partilháveis nas redes sociais.

Em meados da década de 1990, estes gadgets não passariam de uma efabulação da ficção científica. Mas foi nesta altura que a finlandesa "Polar" inventou os primeiros monitores de frequência cardíaca. Estes aparelhos chegaram a Portugal pelas mãos de um professor universitário de educação física de Lisboa, "que importava e vendia estes aparelhos aos alunos".

Fernando estava interessado em vendê-los também e por intermédio do docente começou a importar algumas dezenas de medidores que "se esfumavam rapidamente da loja". Mais tarde, foi a própria Polar que quis saber o que se estava a passar no mercado nacional e assim chegou à Altis que acabaria por se tornar a importadora oficial da marca.

Pedalar para o futuro

O futuro, por estranho que pareça, vai partir do passado. A grande novidade deste ano é o regresso das bicicletas Altis de corrida, apresentadas na Feira Internacional de Duas Rodas, em Santarém. Fernando promete "alta qualidade da construção, dos acabamentos e a genuinidade que sempre foram atributos destas bicicletas". "O regressar da "estrada" com a marca Altis é uma paixão que vai perdurar!"

A assemblagem das bicicletas vai acontecer em Oiã, perto de Oliveira do Bairro, com mão de obra especializada que sempre esteve ligada a este sector e na sequência da parceria com a Weed. Mas a pedalada deste negócio tem outra rota no GPS: a exportação está a dar os primeiros passos para o mercado Espanhol e Angolano. Para lá a Altis quer distribuir os produtos das marcas que representa em exclusivo, assim como as bicicletas WEED nas vertentes de BTT, urbanas, BMX e de criança.

Uma moda que veio para ficar

São cada vez mais os adeptos dos dois pedais como meio de transporte para uma vida mais saudável. E parte da moda também tem sido facilitada pelas autarquias que "começaram a preocupar-se em criar condições de circulação".

Apesar disso, ainda muito falta fazer e parte do que já foi feito, precisa de ser corrigido. Fernando dá até o exemplo da via ciclável que tem em frente à loja, na Avenida da Boavista. "Nesta obra não foram criadas condições para cargas e descargas. Se a EDP precisar de descarregar, têm de ocupar a pista, caso contrário ocupam a faixa de rodagem".

A tecnologia aplicada aos diferentes usos a dar a uma bicicleta permite personalizar a oferta "Quanto mais evolui a produção, mais possibilidades há de comprar um bom modelo a um preço mais baixo". Assegure-se que o quadro "tem a homologação de fabrico" e depois tem de ter em conta a sua estrutura corporal, para escolher uma "bicicleta adequada à sua altura".

ver mais vídeos