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Damel: vestir pilotos, aviadores e marinheiros com estilo e segurança

Damel: vestir pilotos, aviadores e marinheiros com estilo e segurança

Nasceu na Póvoa de Varzim na década de 1980 e especializou-se na confecção de vestuário técnico numa altura em que o resto da indústria estava mais preocupada em ganhar dinheiro com grandes séries de produtos simples mas sem valor acrescentado. Desde então, muitas fábricas fecharam portas, mas a Damel ainda cá está, a produzir roupa de moda de alta gama e vestuário técnico e desportivo para grandes marcas mundiais.

Se os descobrimentos portugueses acontecessem hoje, era bem provável que a mortalidade de marinheiros em alto mar fosse manifestamente inferior. Isto porque hoje os marinheiros poderiam usar o SeaB2, um blusão que é muito mais do que um agasalho para alto mar e produzido nas linhas de confecção da Damel.

No interior oculta um engenhoso sistema que ao detectar a queda do utilizador à água, faz disparar a insuflação dum colete integrado na própria estrutura interna do casaco. Quem nos explica as valências deste produto é Vitor Paiva, 47 anos, sócio gerente da empresa.

Este projeto levou 3 anos a desenvolver, fruto de uma parceria da Damel com o Citeve, o Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e do Vestuário de Portugal. Neste momento a tecnologia está na fase "patente pending" e deverá chegar ao mercado em Novembro deste ano. Vitor Paiva explica-nos que além da valência de "salva-vidas de emergência", o blusão estará recheado de tecnologia útil em diversas ocasiões.

Imagine um velejador que cai à água e o barco segue caminho. Nestas situações o SeaB2 "poderá estar associado a um sistema de localização - como GPS - com uma antena têxtil que emite um sinal detetável por todos os barcos e autoridades de segurança".

Vitor Paiva explica que este conceito é único no mundo e as aplicações profissionais diversas, abarcando não só os desportos náuticos mas também a própria indústria pesqueira, podem impedir desfechos fatais de pescadores que caem ao mar e por vezes morrem a 100 metros da costa.

Além disso, mudando os tecidos e materiais empregues na confecção, é possível "transformar o SeaB2 num fato de proteção com arnês para trabalhos em altura" - como na construção naval ou em plataformas petrolíferas, por exemplo, e com a "utilização de tecidos anti-estáticos e ignífugos" podem ser usados em zonas de trabalho com grandes interferências eléctricas.

Quando fala deste contexto, Vítor Paiva refere-se àquela que poderá ser a grande oportunidade de negócio para o SeaB2: a construção de mais de vinte mil torres eólicas offshore nos próximos dez anos nos mares da Europa. Uma escala que segundo o sócio gerente da empresa implicaria a confecção "de muito mais do que vinte mil casacos deste género".

Das calças de ganga a produtos de alto valor acrescentado

Com o SeaB2 como ponto de partida para esta história, parecerá estranho pensar que na Damel tudo começou com as simples calças de ganga. David Cardoso Paiva e Amélia Gomes Sá (pais de Vítor Paiva), sempre trabalharam no sector têxtil. A mãe como costureira, o pai na secção de corte.

O certo é que foi no desemprego que David recebeu o desafio que lhe mudaria a vida. Um cliente precisava de quem o ajudasse a produzir algumas peças em regime de subcontratação. Ele aceitou o repto e começou por trabalhar primeiro em nome individual. "Quando o negócio começava a ser seguro", Amélia sai da Maconde - onde trabalhava - e junta-se ao marido para dar origem à "Damel".

Começaram com "quatro pessoas a fazer calças de ganga", numa pequena garagem, recorda. Quando muitas empresas começaram a entrar também no mercado da ganga, os pais pressentiram a necessidade de alternativas. E foi então que apostaram no vestuário técnico e nos fatos de esqui.

Vitor afirma que "na altura os empresários com fábricas grandes estavam acomodados às quantidades e não queriam estar com trabalho para fazer coisas miudinhas". Já os pais, como "souberam trabalhar sempre coisas miúdas como fatos e vestidos de noiva, saíram de peças de 40 minutos de trabalho para peças de 200 minutos", com um nível de especialização "menos fáceis de deslocalizar".

Desde então a Damel nunca mais foi a mesma. Entre 1987 e 1988 a garagem ganhou um novo piso e em 1990 muda-se para um novo armazém de 1500 metros quadrados, já com melhores condições de trabalho e 70 trabalhadores.

Para este crescimento terá sido decisivo o aparecimento do segmento moda. Uma empresa de prestígio internacional encontrou na Damel os pré-requisitos para subcontratar produção de coleções de grande qualidade e alto valor de mercado.

Os acordos de confidencialidade impedem Vítor Paiva de revelar a identidade da marca, mas reconhece que foi uma parceria que "trouxe muito conhecimento e desenvolvimento" e "logo, quem produzia para essa marca, facilmente começava a entrar noutras, porque tinha aquela empresa por trás."

O licenciamento de produção de vestuário com tecidos Gore-Tex, em 1992, foi outra conquista importante da empresa, que ficou assim autorizada a produzir vestuário com este material impermeável, mas que confere uma grande "respirabilidade às peças", com uma boa performance em termos de conforto.

Este material foi tão útil para os equipamentos de esqui, sailing e golfe assim como para o universo dos artigos de moda, uma vez que passou a ser possível produzir "blusões com aspecto clássico, mas onde é usado o Gore-tex" e "visualmente não se nota que ele está lá".

Renascer em 1995 para antecipar uma década difícil

Quando se começou a ouvir falar da possível entrada de países da antiga URSS na União Europeia, Vítor e os pais rapidamente concluíram que a situação traria desafios para a empresa que "tinha clientes do centro da Europa, para quem seria muito mais fácil produzir numa Polónia ou numa Roménia pela proximidade e pelo custo".

Para preparar a empresa para este abalo, Vítor planeou um projeto de modernização que mudaria radicalmente a fábrica. Tratava-se de um "projeto de renovação total dos sistemas de produção, do layout, equipamento e instalações", e foi como fazer "uma firma nova mas num conceito diferente".

Para isso, a Damel investiu um milhão de euros. Antes de dar esse passo, Vítor Paiva contactou os principais clientes que, perante a promessa de maior qualidade e flexibilidade de produção, acabaram por garantir encomendas para os cinco anos seguintes.

E assim foi. Numa altura em que a Europa e até os governos nacionais ventilavam a ideia de que a indústria têxtil não tinha interesse para o país, o investimento seguiu em frente. A fábrica renasceu e em 2000 inaugurava um moderno sistema de produção, onde as peças circulam pelo ar ao longo da fábrica, sendo trabalhadas passo a passo pelas diferentes costureiras. Neste processo ninguém perdeu o emprego: "todas as pessoas foram reconvertidas para outros trabalhos".

A década que se seguiu não foi fácil. Segundo Vítor, andaram "a trabalhar com margens zero" devido à pressão dos preços da Ásia. A bolha de 2008 também não ajudou, com clientes a anular encomendas, nomeadamente na área dos desportos automobilizados.

Nos últimos anos esta situação tem-se vindo a inverter. A instabilidade nos países do norte de África tem levado ao afastamento das produções para outros lugares, e na China "os preços já não são os preços a que estávamos habituados há dez anos atrás. Os chineses ganharam estatuto, direitos e os preços aumentaram".

Tudo isto volta a colocar Portugal numa posição de "ir a jogo", onde a qualidade da confecção está garantida e o aumento dos preços está estabilizado nos "3 a 4% ao ano", muito abaixo do aumento de custos que se começa a registar em países como a Polónia e a Roménia.

O Coldfit para o frio e para as curvas

A inovação dos processos de fabrico foi sempre um trunfo para conseguir estar à frente da concorrência. Mas hoje, e cada vez mais, o objectivo passa por impregnar os próprios produtos com funcionalidades inovadoras. A visão de Vítor Paiva é muito clara, é preciso apostar no desenvolvimentos de produtos inovadores para "fazer com que os clientes fiquem dependentes da Damel - do que esta desenvolve e da tecnologia que aplica".

A aposta na inovação tem possibilitado a criação de novos produtos a um passo de entrarem no mercado. É o caso do "Coldfit", um fato de proteção térmica de alto desempenho, desenvolvido pelo CITEV e executado pela Damel, e que será capaz de suportar grandes amplitudes térmicas.

Segundo Vítor Paiva o Coldfit é um fato útil "em grandes armazéns frigoríficos, onde se pode estar a trabalhar a 40 graus negativos, e fora dele a 30 Graus positivos", um choque térmico de 70 graus, que ameaça a saúde de qualquer funcionário de armazém, podendo deixar sequelas "a nível das articulações, lesões musculares, e doenças como o reumatismo".

Deste projeto nasceu o Coldfit Moto, um fato de proteção pessoal vocacionado para motociclistas, que rentabilizando o mesmo conhecimento e uma parte dos materiais do Coldfit original, confere uma série de níveis de proteção ao rasgo, corte e impacto. Uma tecnologia ilustrada no documentário da Universidade do Minho: "O Extraordinário Mundo das Fibras - proteção pessoal", que pode ser visto no You Tube.

Entretanto, ideias não faltam para criar produtos diferentes e dar novas utilizações a inovações já existentes. As potencialidades do próprio SeaB2, por exemplo, ainda estão longe de estar totalmente exploradas. O blusão poderá até ser readaptado para funcionar como cápsula de proteção para esquiadores em situações de avalanches.

Enquanto isso, a postura da Damel perante o futuro é a de uma serenidade optimista. Pelo menos para já Vítor Paiva prevê reforçar a equipa de trabalhadores da empresa e a estratégia é simples: "consolidar e desenvolver os mercados", a partir daí "fazer coisas que os outros tenham mais dificuldades de fazer e que para nós já é normal."

Vítor Paiva

Como fazer bem?

"É preciso desenvolver o conhecimento para dominar as técnicas de produção. Com essas técnicas é que se consegue obter qualidade. A qualidade integrada com a flexibilidade, é possível ter um serviço diferente para o cliente. E a inovação tem de estar sempre presente!"

Damel em Números

Faturação 2013 - 3 milhões de euros

99% da produção é exportada - Europa, Estados Unidos e Japão

163 novos modelos desenvolvidos (Só em 2014)

60 a 80 mil peças produzidas por ano

140 funcionários

As principais áreas de negócio:

Vestuário de Moda - A vertente de produção de moda para as grandes marcas é um importante cartão de visita, servindo de rampa de lançamento para contactar novos clientes. Permite uma distribuição da produção ao longo de todo o ano e representa 20% da faturação.

Vestuário Técnico - Esta área representa quase 80% da produção. Envolve sailing, esqui, golf, running, montanha, desportos automobilizados, e vestuário corporativo (polícia, funcionários de aeroporto, por exemplo) e vestuário de proteção individual.

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