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Safina, a raínha da relva artificial

Safina, a raínha da relva artificial

Primeiro a alcatifa, depois os tapetes, em seguida a relva sintética. Há 40 anos que a Safina se dedica a revestir o chão que pisamos e é praticamente a única empresa do país a fabricar relva artificial com sucesso.

À entrada, vários tons de verde aos nossos pés. Um grande tapete de cor esbatida leva-nos até uma enorme baliza de futebol. Ao lado, uma fotografia de um court de ténis preenche a parede. E em frente, num tapete verde vivo, um taco e uma bola de golfe esperam pelo próximo curioso disposto a dar uma tacada. Este é o mundo da Safina. Um mundo onde a relva artificial é rainha e garante um volume de negócios anual de oito milhões e meio de euros.

Como se chega até aqui? Na longa história da Safina, com 40 anos de existência, a grande transformação acontece apenas nos últimos dez. É em 2003 que Pedro Coelho, atual administrador, passa a integrar os quadros da Safina. Em pouco tempo estabelece um objetivo: encontrar o produto "que projetasse a empresa para o futuro". Na altura, a produção de relva sintética era um nicho quase sem importância na fábrica de Cortegaça (produziam quantidades reduzidas de tapetes de relva para eventos e centros de exposição). No core da fabricação estavam os tapetes de cairo com base em PVC ( que o cidadão comum conhecerá como os típicos tapetes de entrada de casa), as alcatifas de sisal e o fio de polipropileno para o atapetamento .

A alcatifa, essa, que tinha estado na origem da empresa, já há algum tempo que estava descontinuada. Desses primórdios resta apenas a alcatifa bege que reveste as paredes dos escritórios da Safina ( "para que não se esqueça de onde vieram") e o nome da empresa - Safina, Sociedade Industrial de Alcatifas. "Se calhar hoje devia chamar-se só sociedade industrial, porque alcatifas nós não fazemos." Mas o saber e a experiência de trabalhar o fio mantêm-se e são de uma enorme vantagem. "A fabricação da relva tem muito de similitude do que é fazer alcatifa".

Foi em Espanha que Pedro Coelho encontrou "o produto": relva sintética. Não daquela "rapada", desagradável à vista, que a Safina já fazia. Mas um tipo de relva que imitasse na perfeição a natural, fosse num jardim ou num campo de futebol. Sem backup, arrisca. "Comprámos o primeiro equipamento para fazer uma relva até 40 mm e eu não tinha nem mercado, nem clientes, nem coisa nenhuma". 300 mil euros de investimento assentes numa valente dose de esperança. Em vista, a produção de relva para jardim, menos exigente que a desportiva. "Comecei a visitar clientes em Espanha, dizendo que não tinha o produto, mas que ia ter". Um ano mais tarde, a recompensa. Um cliente que Pedro Coelho visitou tinha tido problemas com um parceiro. Bastou uma pergunta: "Está disponível? E esse foi o princípio da relva".

O poder do carocha dos anos 70

Hoje é a única fabricante de relva sintética do país. Tem como clientes as grandes distribuidoras de bricolage, os instaladores de relva e os particulares, "que a Safina nunca esqueceu". 80% da produção é exportada, com o mercado espanhol à cabeça, seguido de França, Marrocos, Tunísia e Itália.

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Mas entre os parceiros mais importantes estão as autarquias, não pelos jardins (que continuam na sua maioria a ser em relva natural), mas pelos campos de futebol. Recuemos até 2009. A Câmara Municipal de Braga abre um concurso para instalar um campo de relva sintética em cada freguesia. "Eram 39!". A empresa que produzia apenas relva para jardim não tinha os meios necessários para agarrar o desafio, mas não pensou duas vezes. "Eu ainda estava a fazer relva com equipamentos da fundação da empresa. Costumo dizer que me meti a fazer corridas de Fórmula 1 com um carocha dos anos 70".

Mas o que importa é que chegou à meta e ganhou o concurso em conjunto com um parceiro. Em 2011, com a aquisição e arranque de uma máquina de revestimento de látex (máquina que permite ancorar a relva ao tapete de látex) no valor de um milhão e meio de euros, a Safina passa a estar na vanguarda da fabricação de relva. "Até aí fomos fazendo milagres".

Nos últimos três anos produziram a relva de dezenas de campos de futebol em Portugal e até um complexo desportivo em Cabo Verde. "Como pode ver ali, temos certificação da FIFA. E ao lado, há uma certificação da Federação Internacional de Ténis". Cada atividade desportiva requer um tipo de relva próprio. "A fibra do ténis não serve para o golfe e o do golfe não serve para o futebol".

O "Santo Graal" do sintético

Quem já jogou num campeonato regional ou distrital de futebol sabe o que é correr no pelado: levantar pó em cada sprint, cair sobre a terra dura e polvilhada de pequenas pedras que num ápice se alojam na pele. Provavelmente, entre uma jogada e outra, sonhariam com relva natural. Poucos foram os que tiveram a sorte de ver o campo de terra batida encher-se de verde. O problema não estava no capital de investimento inicial (apesar das generalizadas dificuldades financeiras desses campeonatos), mas na frequente e por isso cara manutenção.

A relva sintética resolve esse problema? Em parte, sim. Apesar do custo inicial rondar os 12 euros o m2, "uma relva pode durar oito anos sem manutenção". Mas não se engane. É preciso regar a relva artificial. Pelo menos se não quiser queimar a pele quando cair, depois de uma prolongada exposição ao sol. "Além de reduzir o atrito à bola e ao jogador, protege a fibra". A humidade na relva plástica mantém-se durante cerca de 20 minutos, tempo a menos para os objetivos da Safina.

Mantém há um ano um projeto de inovação em conjunto com o Citeve, o Centi a Exporplás para desenvolver uma fibra mais amigável que responda melhor ao calor. É o Santo Graal que toda a gente busca" e que se alcançado pode abrir as portas de um mercado cobiçado, mas até hoje não explorado: o norte-americano.

E quando acabar o petróleo?

A relva sintética é feita de polietileno, um polímero derivado do petróleo. Tempos houve em que se o preço do barril atingisse os 30 dólares era uma catástrofe no mundo dos negócios. Hoje, no entanto, as empresas trabalham com valores em torno dos 100 dólares o barril. As previsões apontam para o encarecimento da matéria-prima e progressiva extinção do petróleo. De que será feita nessa altura a relva artificial? "Ninguém sabe, mas tal como aconteceu com as renováveis, há de surgir uma alternativa", garante Pedro Coelho.

Safina em números

Volume de negócios: 8,5 milhões de euros

Vendas: 40% em relva de jardim, 30% em relva desportiva e 30% em outros tipos de relva

Nº de trabalhadores: 70

Investimento nos últimos 5 anos: 7 milhões de euros

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