EUA

A América da oportunidade a ferro e fogo

A América da oportunidade a ferro e fogo

Confrontos, incêndios e pilhagens em várias cidades marcam protestos. Morte de afro-americano pela Polícia foi o rastilho de uma rebelião multirracial.

Os destroços do "El Nuevo Rodeo" serão os mais simbólicos do caos que tomou conta dos Estados Unidos. Esventrado, negro, um esqueleto, o clube de Minneapolis foi local de trabalho de George Floyd, 46 anos, o malogrado negro vítima de um inexplicável abuso policial, há oito dias. Há um ano, fazia ali turnos extra, história de melhorar os finais de mês. Ia às terças. Outras noites eram cobertas por um polícia, em serviço gratificado. Derek Chauvin. O homem que matou Floyd, com o joelho a asfixiar-lhe o pescoço contra o asfalto.

O Nuevo Rodeo poderá ser uma imagem forte daquilo em que se transformou, desde que Floyd expirou depois de suplicar que não conseguia respirar, um país de profundas desigualdades e raiva latentes. O inferno. E já leva seis dias a arder.

Pode descrever-se assim: largas centenas de detidos, o recolher obrigatório (uma medida rara que permite à Polícia prender quem esteja na rua sem motivo) em mais de 20 cidades, milhares de guardas nacionais estaduais mobilizados, edifícios públicos vandalizados em Washington, onde já por duas vezes subiu a tensão junto à Casa Branca, carros policiais incendiados, comércios saqueados, um carro patrulha a arrancar sobre a multidão depois de ser abanado, polícias a responder indiscriminadamente, jornalistas atacados, os primeiros mortos, a dúvida sobre a presença de provocadores profissionais a incendiar as massas. E o desnorte das declarações políticas, num país ajoelhado pela pandemia de covid-19, que arruinou a economia e a vida de muitos que se reveem em Floyd, classes negras e pobres mais propensas a cair sob o coronavírus.

Floyd que foi morto por, alegadamente, ter tentado comprar cigarros com uma nota falsa. Tinha 46 anos. Estava sem emprego por força da pandemia. Foi morto brutalmente, numa repetição de imagens de um racismo institucionalizado. E Chauvin foi acusado de homicídio involuntário, quando foram nove os minutos que gastou a esmagar Floyd.

Caldo perfeito

O caldo foi perfeito para massas chocadas passarem a enraivecidas e, diz-se, diz o próprio presidente, Donald Trump, serem levadas por grupos organizados a espalhar o caos. Só porque sim, dirão uns, ou porque são "antifascistas e de extrema-esquerda", garante Trump. Contra ele, portanto. O clamor das ruas galgou fronteiras e estendeu-se à Europa, ao México, ao Brasil.

"Compreendo a dor das pessoas. Apoiamos o direito dos manifestantes pacíficos e ouvimos as suas súplicas. Mas o que vemos agora nas ruas das nossas cidades não tem nada a ver com justiça ou com paz. A memória de George Floyd está a ser desonrada por provocadores, saqueadores e anarquistas", disse Trump, depois de ver um foguetão americano a arrancar para a glória do espaço, virilidade a que se agarrava para desviar atenções da pandemia.

Antifa entre terroristas

"Não devemos deixar um pequeno grupo de criminosos e de vândalos destruir as nossas cidades", insistiu este domingo Trump, por escrito no Twitter, denunciando "grupos da extrema-esquerda radical", entre eles o movimento "Antifa" (antifascistas), que prometeu inscrever "na categoria das organizações terroristas".

Democrata, Tim Walz, governador do Minnesota, cuja capital é Minneapolis, epicentro da revolta, apontou a provocadores anarquistas de fora do estado. Mas juntou-lhes supremacistas brancos e traficantes de droga, determinados a "instilar o medo e desestabilizar as nossas cidades". Extrema-esquerda para uns, extrema-direita para outros. Mas, afinal, só 15% dos detidos em Minneapolis vinham de fora do Minnesota (ao contrário do que afirmou Trump).

Nas hordas misturam-se jovens afro-americanos, imigrantes negros (mormente da Somália, no caso do Minnesota, minoria que deu ao país a congressista Ilhan Omar), mas também brancos, latino-americanos, ou simplesmente americanos dos subúrbios, fustigados pelo desemprego e pela pobreza, agora alimentados pela pandemia

Dommilli é afro-americano e jovem. Explica: "Andamos a tentar fazer isto de forma pacífica desde Martin Luther King e fizeram-nos pagar, esta é a única maneira, já tentámos de muitas". A rebelião é multirracial. E a resposta policial, com modos cada vez mais agressivos e aleatórios é lenha na fogueira.