Itália

A capitã que desafiou "Il Capitano" Matteo Salvini

A capitã que desafiou "Il Capitano" Matteo Salvini

Carola Rackete aportou em Lampedusa forçando a barragem de Itália. Foi detida. Os migrantes que salvou no dia 12 seguiram caminho para cinco países, entre eles Portugal.

A ele, os fãs apelidam de "Il Capitano" - o capitão. A ela, o título cabe por força do currículo. A capitã Carola Rackete sabia que seria detida por desafiar "Il Capitano" Matteo Salvini. Este sábado, fez ver ao Mundo que é possível colocar a vida das pessoas à frente do seu próprio destino. E da intolerância alheia. Fintou uma lancha da Guarda Fiscal e aportou o seu "Sea Watch 3" no porto da ilha de Lampedusa. Já fintara as injunções do Governo italiano e entrara nas águas territoriais de Itália. Porque tinha 40 migrantes a bordo resgatados no dia 12 de junho. Desceu o pontão entre aplausos de dezenas de pessoas e foi presa. Tem 31 anos e é o novo rosto da defesa dos direitos dos migrantes.

Cabeleira loira infinita tecida em rastas, o ar esgotado da luta sem quartel que as ONG de resgate de migrantes no Mediterrâneo foram obrigadas encetar contra as autoridades italianas, um sorriso determinado no lábios, Carola Rackete tem 31 anos, curtos para a experiência que já arrastam.

"Filhinha do papá"?

Filha de Hambühren, na Baixa Saxónia, na Alemanha, formou-se em Ciências Marinhas no país natal e em conservação do ambiente no Reino Unido. Fala cinco línguas e conhece mais mar do que Mundo. Descobriu o que a movia quando percebeu ser uma privilegiada. Como recordou ao "La Reppublica" quando a confrontaram com o facto de Matteo Salvini, o ministro do Interior e vice-primeiro-ministro italiano, a ter eleito como ódio de estimação e taxá-la de "filhinha do papá": "Pude frequentar três universidades, sou branca, alemã, nascida num país rico e com o passaporte certo. Quando me dei conta, senti uma necessidade moral: ajudar quem não tinha as mesmas oportunidades". Há meninos do papá menos clarividentes.

Carola, recordemos, tem 31 anos. Já trabalhou num navio quebra-gelo no Polo Norte, já tripulou o "Arctic Sunrise" da Greenpeace, já coordenou os aviões da ONG alemã Sea Watch que detetam embarcações errantes e chegou ao leme do "Sea Watch 3", de bandeira holandesa. No dia 12 de junho, apanhou 53 pessoas num bote ao largo da Líbia. E declarou aí a guerra à Europa. Começou por dizer não à ordem de desembarcar os resgatados na Líbia. "A Líbia não é um país seguro", justificaria, por ela, a porta-voz da ONG, Giorgia Linardi. Carola não tem redes sociais. Mas outros tripulantes gravaram um vídeo, entretanto, a explicar os porquês, como se fosse necessário.

A situação dos resgatados foi piorando ao ponto de 11 serem recolhidos pelas autoridades italianas por razões de saúde. Até que tudo se tornou insustentável e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem declinou intervir. "Basta. Vamos entrar. Não para provocar, mas por necessidade".

Carola atirou a mar a ameaça de multa de 50 mil euros e de perder o navio por força da lei aprovada por Itália no dia 14 para travar a entrada de ONG nas águas italianas. Entrou, em nome das leis do mar. Parou a uma milha de Lampedusa. Esperou 48 horas e avançou, já a procuradoria italiana anunciara uma investigação por auxílio à imigração ilegal, já cinco países - entre eles Portugal - tinham oferecido receber os migrantes. Itália não se mexia.

Foi a primeira a desembarcar, para um carro da Polícia. "Missão cumprida", tuitou "Il Capitano", líder da extrema-direita italiana. "Navio apreendido. Capitã fora da lei detida, navio pirata apreendido, multa máxima para a ONG". Os migrantes seguiram para os destinos. Quem cumpriu a missão?

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