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Espanha

A humilhação de Verónica começou há 10 anos. Havia outro vídeo sexual

A humilhação de Verónica começou há 10 anos. Havia outro vídeo sexual

Verónica suicidou-se, esgotada pela humilhação que sofria pelos colegas de trabalho, que fizeram circular um vídeo sexual gravado há cinco anos. O "bullying" começou há dez, com um primeiro vídeo, filmado com um companheiro de trabalho com quem a mulher mantinha relações sexuais.

A tragédia começou antes. Muito antes. Verónica Rubio, espanhola, 32 anos, funcionária na fábrica de camiões Iveco, em Madrid, decidiu pôr termo à vida no último sábado. Enforcou-se. Não aguentou a pressão no local de trabalho. Um vídeo sexual que tinha gravado cinco anos antes começou a circular entre os colegas, em grupos do WhatsApp. Mas não era a primeira vez que Verónica sofria com as piadas dos companheiros, o apontar de dedos, a violação da privacidade. Havia outro vídeo. O pesadelo começou há 10 anos.

Naquela altura, quando tinha cerca de 22 anos, Verónica mantinha um relacionamento casual com um colega de trabalho. Gravaram um vídeo a ter relações sexuais. Tal como aconteceu desta vez, essas primeiras imagens foram divulgadas, revela o jornal digital "El Español". No entanto, o vídeo não foi partilhado de forma tão massiva e permaneceu num círculo de pessoas mais fechado. Alguns colegas sabiam, mas poucos tinham visto as imagens. Verónica ultrapassou essa situação da melhor forma que conseguiu.

Os casos são semelhantes, embora os responsáveis pela partilha dos vídeos sejam pessoas diferentes. O primeiro era um colega de trabalho muito próximo de Verónica, enquanto o segundo poderá ter sido um funcionário de outro setor. Mas ainda não é certo quem será o responsável - ou responsáveis - pela divulgação das imagens mais recentes. Na quinta-feira, um ex-namorado da vítima entregou-se às autoridades.

Colega espalhou as imagens. "Todos riram"

"Muitos de nós sabíamos da existência daquele primeiro vídeo. Eu vi porque aquele funcionário me mostrou, enquanto exibia [as imagens] no telemóvel aos outros. Todos riram", lembrou uma colega de Verónica, citada pelo "El Español".

De acordo com as investigações, a pessoa responsável pela divulgação do segundo vídeo começou uma relação com Verónica quando esta terminou temporariamente com o parceiro e marido. O homem, também funcionário na empresa, terá ameaçado a mulher de que iria espalhar as imagens se ela não ficasse com ele.

O marido de Verónica, na altura namorado, também soube da existência do primeiro vídeo, através da irmã, que trabalha na mesma empresa. O primeiro caso não abalou a relação e acabou por ser ultrapassado. Mas o pesadelo repetiu-se e, desta vez, foi fatal.

Na última sexta-feira, as imagens do segundo vídeo foram enviadas à cunhada, que por sua vez as reencaminhou para o irmão. Quando soube, Verónica teve um ataque de ansiedade e deixou o local de trabalho para regressar a casa, acompanhada por um amigo. Foi a última vez que viram Verónica na fábrica.

Vídeo já circulava há cinco anos, mas não se tornou viral

O segundo vídeo sexual de Verónica já circulava há cinco anos na empresa, mas não se tornou viral, conta o jornal "El Mundo". As imagens só foram espalhadas pela maior parte dos colegas nas últimas semanas - a equipa da Iveco em Madrid tem cerca de 2500 funcionários.

Vão sendo conhecidos mais dados da investigação, depois de um alegado ex-namorado da vítima se ter entregado na esquadra de Mejorada del Campo, na comunidade autónoma de Madrid. O homem apareceu de forma voluntária para prestar declarações, identificando-se como alguém que tinha mantido uma relação com Verónica há vários anos. Disse que queria apresentar detalhes sobre o caso, uma vez que estava a sofrer assédio por muitas pessoas sem justificação. O homem foi libertado sem acusação formal.

Entretanto, o Tribunal de Instrução número 5 de Alcalá de Henares abriu um processo para investigar a divulgação do vídeo sexual. A juíza Ana María Gallegos ficou encarregada do caso depois de receber o relatório policial do suicídio, mas agora também investigará a divulgação do vídeo. O Movimento Feminista de Madrid convocou uma manifestação esta sexta-feira em memória de Verónica.